Berlin Alexanderplatz

A (des)evolução do mundo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020

Assistido durante o Festival de Berlim 2020, em uma época pré-pandêmica (os primeiros sinais começavam a se manifestar), a refilmagem de “Berlin Alexanderplatz”, integrante da mostra competitiva, nos prova que não só o mundo mudou, como o cinema espelha uma desanimadora realidade aos cinéfilos (transformando toda e qualquer arte em produto-fórmula aos “confortáveis” olhos atuais). O longa-metragem, dividido narrativamente em cinco partes, com suas três horas de duração, baseada no livro-romance homônimo de Alfred Döblin, publicada em 1929, na época do Expressionismo Alemão, quer ressignificar a história aos novos padrões de retorno conservador de ideias policiadas, moralistas-sociais e politicamente corretos. E/ou necessidades de abordagem estrutural, como a imigração, o racismo e máfias reformuladas com o tempo. Assim, a atmosfera de comportamentos diretos dos berlinenses foi remodelada a uma nova potência de sentimentalizar emoções, reações e propósitos. Mais urgência e sem tempo de respeitar-compreender silêncios, esperas e observações existenciais.

Em “Berlin Alexanderplatz”, é inevitável não compararmos à obra-épica, série televisiva, de mesmo nome, dirigida, em 1980, por Rainer Werner Fassbinder, com mais de quinze horas de duração. Nesta a atmosfera é outra, conservando a aura de jornada do personagem, uma metáfora linha do tempo à recessão de um país e a obrigação-sobrevivência dos “pequenos delitos”. Já aqui, a violência encorpa-se e retrata de forma pessimista e sem salvação a própria Humanidade. O que mais incomoda no filme é a “oferta” em perceber que o mundo não só não evoluiu, como se tornou impossível de se habitar. Principalmente por sua estética arthouse (de conceituar estágios psicológicas pelos ângulos de câmera, invertida, por exemplo, e/ou lenta e/ou mais etérea), que fornece poder demais à forma e se esquece de lapidar a própria trama. Essas escolhas soam, ao mesmo tempo, pretensiosas e ingênuas.

O longa-metragem quer uma tradução orgânica, de visceralidade poética, dos seres que imigram, entre simbolismos de ”espírito, coração, pele, passado dos passados e meio humanos vivos e mortos”. É a regeneração deles. Uma segunda chance ao personagem principal. De, em uma nova terra vindo da África, renascer outro como um homem decente. Nesta versão de “Berlin Alexanderplatz”, dirigida pelo alemão Burhan Qurbani, de origem afegã (de “Nós Somos Jovens. Nós Somos Fortes.”), Francis reinicia sua vida. Aprende a língua para se integrar. Mas no fundo se sente sempre um estrangeiro ao encontrar a pressa das definições. Ele precisa rotular sua vida. Mas o filme não o deixa respirar (todo ensaio ao silêncio é complementado com uma música para “abrandar”, complementar a “estadia” visual e impedir qualquer possibilidade de aprofundamento). Tampouco o público, o instalando em uma narrativa de efeito, afoita e agitada com excesso de catarse e questionamentos prontos em perguntas bruscas (“Você é gay?”), entre discursos palatáveis de motivação, situações hesitantes e uma edição aos moldes de Hollywood, devido aos ininterruptos gatilhos comuns (por exemplo, a cruz de Cristo em neon e a “alfinetada” à Humanidade de “sempre procurar o caminho mais fácil e confortável” – mas este filme não se comporta exatamente assim?). “Quem é você, afinal?”, conflita-se.

“Berlin Alexanderplatz” não consegue mais negar e fugir do visual exercício de linguagem. Todo o resto soa artificial, embaraçado, caricato, óbvio, carente, amador, deslocado, certinho, convencional, improvisado e de performance da naturalidade (gerando situações infantis pretendendo ser sérias). Com o tratamento “intolerante” e o moralismo sexual de um “threesome”. Como assim colocar puritanismo e arrogantes julgamentos em uma obra que é o contrário disso? Nem os “inferninhos” são os mesmos, ainda que Fela Kuti e Eva da Nigéria. Em determinado momento, remetemos a “Faroeste Caboclo”, de Renato Russo e sua Legião Urbana. E sentimos saudades de uma época impedida de voltar. Santo Cristo, éramos mais felizes e livres e não sabíamos. “Chama-me de imigrante e não de refugiado”, briga-se.

Contudo, o filme não para por aí. Quer o solipsismo completo. Quer a Nutella em uma terra de fome. Quer sensibilidade, melodrama, vulnerabilidade, nivelação por baixo, decisões mimadas e pieguismo sem ritmo. Esse samba, por mais que tente, não encontra cadência. É quase um desserviço social ao acordar tabus já resolvidos. “Berlin Alexanderplatz” pincela partes importantes do livro e as insere sem apuro, como a amputação da perna do protagonista, tudo sempre com um alto teor de realismo estilizado (até o elemento clichê do “Boa Noite, Cinderela” foi incluído, como se estivesse reinventando a roda, e/ou as “consequências da vida marginal” e/ou o artifício dos flashbacks). O filme traz uma  real e contemporânea lente de aumento sobre as reações sensíveis dos seres humanos. O mundo perdeu sua ironia, perspicácia e sagacidade ao rebater ofensas. Aqui não. O xingamento torna-se imaturidade adolescente, à moda das vinganças impulsivas-preguiçosas do rei Joffrey em “Game of Thrones”. “Você enturma o que você acha”, diz-se.

É também uma parábola bíblica. Com Judas e novos “empregos” com poder. “É um alemão agora. Não mais invisível. Negro, forte e sem medo”, diz-se. Pois é, “Berlin Alexanderplatz” perde seu propósito ao personificar na tela o “freak show” do próprio filme. Histórias demais. Abordagens de menos. Universal (ao norte-americanismo) e alemão de menos. “Anjos do Desejo”, por favor, da próxima vez, inspire melhor essas almas em construção.

Trailer

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