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Balanço Geral e Vencedores do É Tudo Verdade 2023

Balanço Geral e Vencedores do É Tudo Verdade 2023

O maior festival de documentários do Brasil premia com o longa nacional “Incompatível com a Vida”, de Eliza Capai e o internacional “Confiança Total”, de Jialing Zhang

Por Clarissa Kuschnir

Como eu disse em uma publicação nas minhas redes sociais quase aos 45 do segundo tempo, eu consegui pegar a parte final do Festival É Tudo Verdade 2023 (confira nossa cobertura AQUI por Pedro Sales e João Lanari Bo), que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro e que encerrou sua 28º edição, no último 23 de abril. Infelizmente por causa do COVID, tive que me isolar por um pouco mais de uma semana (apesar da OMS ter decretado o fim do estado de emergência da doença, precisamos continuar a nos cuidar). Mas graças as vacinas, fiquei bem e pude estar presente em algumas sessões do último final de semana, do maior festival de documentários no Brasil.

Nos últimos anos, venho acompanhando o festival de perto e confesso que os documentários têm ocupado uma espaço importante na minha filmografia anual. Adoro histórias reais, assim como biografias e tudo o que os realizadores estão apresentando nas telas. Inclusive na minha opinião, os documentários andam mais interessantes, dos que os filmes de ficção. Talvez por eu ser uma curiosa da vida alheia, ou por me interessar por tantos assuntos diferentes, que me  fazem abrir a cabeça e olhar o mundo de maneira mais universal. Ou seja, assunto não falta para explorar no gênero, ainda pouco conhecido por muitos, principalmente pelo público brasileiro.     

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E esse ano, com o festival quase 100% presencial, com poucas sessões online teve um gostinho a mais poder assistir aos filmes, nas telonas. E dentro da programação consegui assistir a todos os curtas nacionais (que foram liberados online, logo após o término do festival), da competição. Entre os que me chamaram a atenção destaque para “Cama Vazia” de Fábio Rogério em parceria com o grande crítico e pensador, Jean Claude-Bernardet. Durante uma internação de Bernardet, Fábio conseguiu captar várias imagens dos dias do crítico, no hospital. E os cinco minutos de curtas nos mostram momentos impactantes dentro de um ambiente quase nada acolhedor em que Bernardet, se apresenta com tanta fragilidade, porém sem perder a potência, sendo narrado pelo próprio crítico. Outro curta que me chamou a atenção e foi muito aplaudido, durante a sessão na Cinemateca foi Ferro’s Bar”. Com direção do Cine Sapatão formado por: Aline A. Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra e Rita Quadros, o curta apresenta o relato de várias frequentadoras lésbicas, do bar de nome homônimo do título. Muito conhecido desde a década de 60, o bar que fica no centro de São Paulo, foi palco de muitos encontros e um levante lésbico, que ocorreu no dia 19 de agosto (que por sinal é dia do aniversário dessa jornalista aqui), de 1983. Ferro’s Bar inclusive ganhou uma menção honrosa pelo júri oficial.

Dois curtas com temática indígenas chamaram a atenção do público e do júri (oficial, paralelo e Canal Brasil). o primeiro Mãri -Hi – A árvore do Sonho” dirigido pelo próprio indígena Morzaniel Iramari, foi escolhido o melhor curta pelo júri oficial, além de levar os troféus Mistika de pós-produção e de melhor montagem pela EDT (Associação de Profissionais de edição Audiovisual). O segundo “Vãnh Gõ Tõ Laklãnõ” curta catarinense dirigido por Barbara Pettres, Flávia Person e Walderes Coctá Priprá ganhou o prêmio do Canal Brasil.

Dos longas consegui assistir aos nacionais da competitiva “Morcego Negro” de Cleissom Vidal e Chaim Litewski, que com uma enorme pesquisa de imagens (o filme demorou mais de dez anos para ficar pronto) traz para as telas em uma linguagem bem televisiva, a história de PC Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello, que ficou conhecido no Brasil inteiro por seus escândalos de corrupção culminando assim, com o impeachment de Collor. E alguns anos depois com seu assassinato, ao lado da namorada. Morcego Negro recebeu uma menção honrosa, pelo júri oficial. 

Já veterano no É Tudo Verdade o cineasta mineiro Cao Guimarães estava esse ano com o belo e poético “Santino”. O diretor traz para as telas um personagem muito interessante: um homem simples do sertão mineiro, porém muito sábio em relação a natureza, ao que ela pode trazer de cura para os homens e com sua espiritualidade aflorada. Impossível não se encantar com Santino que na maior parte do longa, é como se ele mesmo se dirigisse.

Festival É Tudo Verdade 2023

O grande vencedor desse ano de longas nacionais, que teve no júri oficial nacional a cineasta Ana Petta (ganhadora do É Tudo Verdade 2022 com o filme “Quando Falta o Ar”), o jornalista, tradutor e crítico de cinema José Geraldo Couto e o cineasta Paulo Henrique Fontenelle (Cássia Eller foi o comovente “incompatível com a Vida”, de Eliza Capai. E foi com grande merecimento. Consegui assistir no último dia do festival e confesso que sai impactada da sessão. Com um tema tão pessoal, a diretora reuniu um grupo de mulheres que aceitaram falar de suas dores e perdas, durante os processos de gestação de bebês sem chances, de sobrevivência pós-parto. Sem contar que o longa aborda também os processos burocráticos, em relação ao aborto no Brasil.  

“Esse filme foi muito complexo de ser realizado. Quando a gente começou a fazer, o primeiro corte que realizamos e mandamos para alguém de fora assistir, eu tive como devolutiva e tenho a certeza nas palavras de carinho e de querer me cuidar, eu ouvi. Guarda esse filme na gaveta Eliza e só olha para esse material, daqui a 10 anos. Naquele momento eu tinha certeza de como era importante falar desse tema que é tão sensível e comum, e que mesmo as pessoas que gostam tanto da gente, como forma de nos acolher, tentam nos silenciar. Que é a perda gestacional e a neonatal. A Nossa incapacidade de lidar com a morte e o luto e lidar com a dor, faz com que a gente queira ir colocando tudo na gaveta. E senti naquele momento que se aquele filme tivesse ido para a gaveta, eu sabia que não seria capaz de voltar naquele assunto”, disse Eliza sobre o filme ao subir ao palco e receber o prêmio, que ainda complementou que o documentário foi um processo de cura em meio ao seu luto. 

Lembrando que os vencedores estão automaticamente qualificados para uma inscrição visando a disputa do Oscar 2024.

Dos programas internacionais do festival não consegui acompanhar a mostra competitiva, porém foi um privilégio assistir aos oito episódios de “Histories du Cinéma” (1989-1999), na homenagem ao grande mestre Jean-Luc Godard, falecido em 2022. Foram quatro horas e meia de puro deleite e caos ao redor de 495 filmes, mais livros pinturas e peças musicais. Ou seja, é tudo junto e misturado, na história do cinema mundial e na cabeça de um dos maiores realizadores que o cinema já teve.

E como não consegui pegar o filme de abertura que foi o “Subject”,  pelo menos encerrei o festival com o longa de animação Proibido para Cães e Italianos”. A temática que gira em torno de uma família italiana que foge para a França no começo do século 20, a fim de começar uma vida nova em outro país é dirigida por Alain Ughetto, neto do protagonista e é um belo retrato em stop motion, documentando os antepassados do realizador.

A edição 29ª edição do festival já tem data e acontecerá de 4 de abril a 14 de abril de 2024.


LISTA COMPLETA DOS VENCEDORES DO FESTIVAL É TUDO VERDADE 2023

Incompatível com a Vida

JÚRI OFICIAL

Melhor Documentário da Competição Brasileira: Longas ou Médias-Metragens

R$ 20.000 e Troféu É Tudo Verdade

INCOMPATÍVEL COM A VIDA

Dir. Eliza Capai / Brasil, 2023, 92‘

Menção Honrosa da Competição Brasileira de Longa ou Médias-Metragens

MORCEGO NEGRO

Dir. Cleisson Vidal, Chaim Litewski / Brasil, 2023, 133‘

Melhor Documentário da Competição Internacional: Longas ou Médias-Metragens

R$ 12.000 e Troféu É Tudo Verdade

CONFIANÇA TOTAL

Dir. Jialing Zhang / Alemanha, Países Baixos, 2023, 97‘

Menção Honrosa da Competição Internacional de Longa ou Médias-Metragens

PIANOFORTE
Dir. Jakub Piatek / Polônia, 2023, 91‘

Melhor Documentário da Competição Brasileira: Curtas-Metragens

R$ 6.000 e Troféu É Tudo Verdade

MÃRI-HI – A ÁRVORES DO SONHO
Dir. Morzaniel Iramari / Brasil, 2023, 17‘

Menção Honrosa da Competição Brasileira de Curtas-Metragens

FERRO‘S BAR
Dir. Aline A. Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra, Rita Quadros / Brasil, 2023, 24‘

Melhor Documentário da Competição Internacional: Curtas-Metragens

R$ 6.000 e Troféu É Tudo Verdade

PTITSA
Dir. Alina Maksimenko / Polônia e Ucrânia, 2022, 30‘

PREMIAÇÃO PARALELA

Prêmio Canal Brasil de Curtas (para Curtas da Competição Brasileira)

R$ 15.000 e Troféu Canal Brasil

VÃNH GÕ TÕ LAKLÃNÕ

Dir. Barbara Pettres, Flávia Person, Walderes Coctá Priprá / Brasil, 2022, 25‘

Prêmio Mistika – Melhor Documentário da Competição Brasileira de Curta-Metragens

R$ 8.000 em serviços de pós-produção digital

MÃRI-HI – A ÁRVORES DO SONHO
Dir. Morzaniel Iramari / Brasil, 2023, 17‘

Prêmios EDT. (Associação de Profissionais de Edição Audiovisual) – Melhor Montagem (Curta e Longa-Metragem)

Curta-Metragem:

TODAVIA SINTO

Direção e Montagem: Evelyn Santos / Brasil, Cuba, Espanh, 2022, 9‘

Longa ou Média-Metragem

INCOMPATÍVEL COM A VIDA

Dir. Eliza Capai / Brasil, 2023, 92‘

Montagem: Daniel Grinspum

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