Balanço e Vencedores do Festival de Berlim 2021

“Bad Luck Banging or Loony Porn” ganha o Urso de Ouro de Melhor Filme, mas para o Vertentes do Cinema “Mr Bachmann and His Class” é o melhor

Por Fabricio Duque

Quem acompanha o Festival de Berlim já deve ter percebido que os premiados possuem um padrão, o de experimentar narrativos em exercícios de linguagem. Em 2020, o filme vencedor foi “There Is No Evil”, de Mohammad Rasoulof. Em 2019, “Synonyms*, de Nadav Lapid. Em 2018, “Touch Me Not, de Adina Pintilie. E neste ano, edição online e reduzida por apenas cinco dias (metade da versão presencial), a comédia-surreal romena “Babardeală cu bucluc sau porno balamuc (Bad Luck Banging or Loony Porn)” levou a estatueta dourada. Dirigido por Radu Jude, diretor que ano passado apresentou no mesmo festival os filmes “Uppercase Print” e “The Exit of the Trains”na mostra Forum, a obra, de tradução literal “Má Sorte ou Pornô Maluco”, que se inicia com uma cena de sexo explícito, busca criticar o comportamento egoísta-alienado das pessoas que lá vivem, as transformando em ridículas, patéticas e caricatos, tudo conduzido por um “passeio turístico à pé” pelas ruas de Bucareste. 

Se analisarmos a seleção deste ano, compreenderemos realmente o que a crise pandêmica fez com o cinema. Seus diretores tiveram que se reinventar nos limites encontrados. Assim, os filmes foram nivelados pela estética da quarentena. Sem contato, sem beijos e extremamente técnicos. E é aí que maestrias aparecem. E realizadores mostram o dom que têm. Um desses exemplos é “Petite Maman”, de Céline Sciamma, esta que já impressionou com “Retrato de uma Jovem em Chamas” e “Tomboy”.

Mas o melhor filme de todo o Festival de Berlim vem mesmo da Alemanha. “Herr Bachmann und seine Klasse (Mr Bachmann and His Class)”, de Maria Speth (de “The Days Between”, “As Filhas”). Com 3 horas e 37 minutos, o longa-metragem, que recebeu o Troféu Vertentes do Cinema de Melhor Filme, traz um que observacional do americano Frederick Wiseman e do francês “Um Filme Dramático”, de Eric Baudelaire, mas as inferências se dissolvem rapidamente e assim nós somos, não só convidados, e sim “aprisionados” (no melhor sentido da palavra) nas histórias de pré-adolescentes de treze anos vindos de tão diversas geografias em uma escola “modelo”. 

O outro filme que ganhou atenção máxima foi da mostra Panorama, o turco “Okul Tıraşı (Brother’s Keeper)”, de Ferit Karahan. Uma obra que diz que o cinema está vivo e respirando muito bem. A fotografia estética com a história direta sem artifícios manipulados corroborou a escola deste site de o eleger ao segundo Melhor Filme do Festival de Berlim 2021.

Na mostra Panorama, único longa-metragem representante do Brasil, “A Última Floresta”, de Luiz Bolognesi, é na verdade um filme Yanomami. E a série “Os Últimos Dias de Gilda”, de Gustavo Pizzi, movimentou olhares e impressões da imprensa internacional.

Como disse, foram dias intensos (19 filmes ao total – mas a lista aumentará, porque há novas exibições amanhã e domingo) de um festival inicialmente “diferente”, como por exemplo, o comunicado oficial de que os filmes em competição “Fabian oder Der Gang vor die Hunde (Fabian – Going to the Dogs)”, de Dominik Graf; e “Nebenan (Next Door)”, de Daniel Brühl, não estariam disponíveis à imprensa, mas permaneceu na lista do site. Nestes cinco dias de Festival de Berlim, hoje, o quinto e último, ainda com as exibições dos dois últimos filmes da competição, os vencedores foram anunciados. Sim, um formato inteiramente novo. E sim, uma forma incômoda de assistí-los pela tela de um computador. Pois é, o “novo normal” sem cinemas por enquanto.


AS COTAÇÕES

CINCO CÂMERAS

  • Okul Tıraşı (Brother’s Keeper), de Ferit Karahan (Panorama)
  • Herr Bachmann und seine Klasse (Mr Bachmann and His Class), de Maria Speth (Competição)

QUATRO CÂMERAS

  • Petite Maman, de Céline Sciamma (Competição)

TRÊS CÂMERAS

  • Memory Box, de Joana Hadjithomas e Khalil Joreige (Competição)
  • Albatros (Drift Away), de Xavier Beauvois (Competição)
  • Death of a Virgin, and the Sin of Not Living, de George Peter Barbari (Panorama)
  • A Última Floresta (The Last Forest), de Luiz Bolognesi (Panorama)
  • Guzen to sozo (Wheel of Fortune and Fantasy), de Ryusuke Hamaguchi (Competição)
  • Ghasideyeh gave sefid (Ballad of a White Cow), de Behtash Sanaeeha e Maryam Moghaddam (Competição)
  • Una película de policías (A Cop Movie), de Alonso Ruizpalacios (Competição)

DUAS CÂMERAS

  • Inteurodeoksyeon (Introduction), de Hong Sangsoo (Competição)
  • Ich bin dein Mensch (I’m Your Man), de Maria Schrader (Competição)
  • Természetes fény (Natural Light), de Dénes Nagy (Competição)
  • Babardeală cu bucluc sau porno balamuc (Bad Luck Banging or Loony Porn), de Radu Jude (Competição)
  • Rengeteg – mindenhol látlak (Forest – I See You Everywhere), de Bence Fliegauf
  • Ras vkhedavt, rodesac cas vukurebt? (What Do We See When We Look at the Sky?), de Alexandre Koberidze

UMA CÂMERA

  • Tides, de Tim Fehlbaum (Berlinale Especial)
  • Hygiène sociale (Social Hygiene), de Denis Côte (Encontros)

OS VENCEDORES OFICIAIS DO FESTIVAL DE BERLIM 2021

COMPETIÇÃO OFICIAL

O Júri Competition, composto por Ildikó Enyedi (Hungria), Nadav Lapid (Israel), Adina Pintilie (Romênia), Mohammad Rasoulof (Irã), Gianfranco Rosi (Tália) e Jasmila Žbanić (Bósnia), decidiu os seguintes prêmios:

URSO DE OURO DE MELHOR FILME

  • Babardeală cu bucluc sau porno balamuc (Bad Luck Banging or Loony Porn), de Radu Jude

Justificativa do Júri: “O Urso de Ouro vai para um filme que tem aquela qualidade rara e essencial de uma obra de arte duradoura. Ele captura na tela o próprio conteúdo e essência, a mente e o corpo, os valores e a carne crua de nosso momento presente no tempo. Deste exato momento da existência humana. Ele faz isso provocando o espírito de nosso tempo (ou seja, zeitgeist), dando um tapa nele, desafiando-o para um duelo. E, ao mesmo tempo, desafia este momento presente do cinema, sacudindo, com o mesmo movimento de câmera, nossas convenções sociais e cinematográficas. É um filme elaborado e também selvagem, inteligente e infantil, geométrico e vibrante, impreciso da melhor maneira. Ela ataca o espectador, evoca discordância, mas não deixa ninguém com uma distância segura”.

URSO DE PRATA DE GRANDE PRÊMIO DO JÚRI

  • Guzen to sozo (Wheel of Fortune and Fantasy), de Ryusuke Hamaguchi

Justificativa do Júri: “No lugar onde costumam terminar os diálogos e as palavras, os diálogos desse filme só começam. É quando eles vão mais fundo, tão fundo que, maravilhados e preocupados, nos perguntamos: quão mais fundo isso pode ir? As palavras de Hamaguchi são substância, música, material. A princípio, parece quase insignificante: um homem e uma mulher, às vezes duas mulheres, estão em uma sala com paredes brancas. Em seguida, a cena avança e, à medida que avança, você sente que todo o universo, incluindo você, está lá com eles dentro desta sala simples”. 

URSO DE PRATA DE PRÊMIO DO JÚRI

  • Herr Bachmann und seine Klasse (Mr Bachmann and His Class), de Maria Speth

Justificativa do Júri: “Em um filme, você pode chamar a atenção para problemas profundos enfiando o dedo na ferida ou mostrando esperança e inspirando como conseguir uma mudança positiva. Esta última é a estratégia que o diretor deste documentário ternamente poderoso optou por seguir. Sempre mantendo a distância certa, o filme foca em um daqueles ‘trabalhadores de campo’ da nossa sociedade que definem os anos mais formativos de nossos filhos, influenciando profundamente sua atitude perante a vida. Como visto pelos olhos do diretor, este professor é único: ele remodela, suaviza e torna mais humano, e através disso a humanidade torna muito mais eficiente um sistema em crise – o nosso sistema educacional europeu. O filme mostra o quão longe você pode ir simplesmente com verdadeiro respeito, comunicação sincera e com aquela magia que todos os grandes professores possuem: acendendo o fogo da paixão em seus alunos, ativando sua fantasia”.

URSO DE PRATA DE MELHOR DIRETOR

  • Dénes Nagy por Természetes fény (Natural Light) 

Justificativa do Júri: “Terríveis e lindamente filmadas, imagens hipnotizantes, direção notável e um controle magistral de todos os aspectos da arte do cinema, uma narração que transcende seu contexto histórico. Um retrato de guerra em que o olhar atento do realizador nos recorda novamente a necessidade de escolher entre a passividade e a responsabilidade individual”.

URSO DE PRATA DE MELHOR PERFORMANCE

  • Maren Eggert em Ich bin dein Mensch (I’m Your Man), de Maria Schrader

Justificativa do Júri: “A presença dela nos deixou curiosos. Seu charme nos tornou empáticos. E sua paleta de qualidades performáticas nos permitiu sentir, rir e fazer perguntas. Dando vida com confiança a um excelente roteiro, apoiado por maravilhosos colegas e seu diretor, ela criou um personagem memorável com o qual podemos nos identificar – levando-nos a pensar sobre nossa presença e nosso futuro, nossas relações e o que realmente queremos para nós”. 

URSO DE PRATA DE MELHOR PERFORMANCE COADJUVANTE

  • Lilla Kizlinger em Rengeteg – mindenhol látlak (Forest – I See You Everywhere), de Bence Fliegauf

Justificativa do Júri: “Entre as muitas performances em miniatura de Forest – I See You Everywhere, encontramos uma em particular, forte e memorável. Lilla Kizlinger carrega em seus ombros jovens com graça e leveza natural ilusória uma responsabilidade especial. Só pelo poder de sua interpretação, por sua presença intensiva, ela puxa para a superfície as camadas ocultas da cena, definindo de fato o motivo por trás do filme: a ameaça arrepiante do mundo, o que as crianças de hoje herdam de nós, adultos. Em vez de nos contar, de nos explicar, ela cumpre a tarefa muito mais difícil de suscitar em nós a necessidade de pensar sobre as questões inquietantes do nosso presente. Ela nos encantou e, através do encantamento, nos fez pensar”.

URSO DE PRATA DE MELHOR ROTEIRO

  • Hong Sangsoo por Inteurodeoksyeon (Introduction), de Hong Sangsoo

Justificativa do Júri: “Mais do que contar uma história, ou avançar uma narração com eficiência, este roteiro fabrica aqueles intervalos momentâneos entre uma ação e outra, onde, por um instante, uma verdade oculta da vida humana é subitamente revelada, brilhante e lúcida”.

URSO DE PRATA DE CONTRIBUIÇÃO ARTÍSTICA

  • Yibrán Asuad pela Edição de Una película de policías (A Cop Movie), de Alonso Ruizpalacios

Justificativa do Júri: “O prêmio vai para o conceito de edição magistral de uma obra de cinema ousada e inovadora que confunde as fronteiras entre ficção e realidade e ousadamente explora a capacidade da linguagem cinematográfica de mudar nossa perspectiva sobre o mundo. Desempenhando um papel essencial no apoio à visão única do cineasta, a montagem habilmente desconstrói as múltiplas camadas da realidade e da linguagem para oferecer uma visão aprofundada e instigante de uma das instituições mais controversas do México”.

Balanço e Vencedores do Festival de Berlim 2021

MOSTRA ENCONTROS

O Júri Encounters, composto por Florence Almozini (França), Cecilia Barrionuevo (Argentina) e Diedrich Diederichsen (Alemanha), decidiu os seguintes prêmios:

MELHOR FILME

  • Nous (We), de Alice Diop

Justificativa do Júri: “Uma obra que mostra verdadeira delicadeza e sensibilidade na construção de um retrato coletivo, coral, rico em significados, nuances e, acima de tudo, experiência vivida”.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI

  • Vị (Taste), de  Lê Bảo

Justificativa do Júri: “Uma abstração coreográfica e composta destemidamente das relações sociais, usando blocos de construção muito concretos – arquitetura de favela, regras do futebol, culinária, o peso dos corpos humanos – para construir um campo de tensões, tão estável quanto nervoso, entre uma espécie de emancipação ascética e regressão distópica”.

MELHOR DIRETOR (ex-aequo)

  • Das Mädchen und die Spinne (The Girl and the Spider), de Ramon Zürcher, Silvan Zürcher

Justificativa do Júri: “Uma construção notável de uma mise-en-scène rigorosa servindo à ambigüidade de cada personagem com graça, humor, sutileza e, finalmente, abraçando a complexidade das relações humanas”.

MELHOR DIRETOR (ex-aequo)

  • Hygiène sociale (Social Hygiene), de Denis Côté

Justificativa do Júri: “O filme mostra uma agilidade incrível na mistura de tons diferentes, referências históricas do cinema e personagens diversos e maravilhosamente prolixos, finalizados com um humor delicado, porém vigoroso, algo muito necessário no momento”.

MENÇÃO HONROSA

  • Rock Bottom Riser, de Fern Silva

Justificativa do Júri: “Um conto sobre a solidão de uma rocha muito agitada: sozinha no oceano, nas galáxias, no universo. Ao longo do caminho encontra – de forma virtuosa – imagens inesperadas e muito diversas para a necessidade de uma descolonização da ciência”.

Balanço e Vencedores do Festival de Berlim 2021

MOSTRA GERAÇÃO

O Júri Internacional da mostra Generation Kplus e 14plus, composto por Jella Haase (Alemanha), Mees Peijnenburg (Países Baixos) e Melanie Waelde (Alemanha), decidiu os seguintes prêmios:

GRANDE PRÊMIO DE MELHOR FILME NA COMPETIÇÃO GERAÇÃO KPLUS

  • Han Nan Xia Ri (Summer Blur), de Han Shuai

Justificativa do Júri: “Este filme convence com seu forte poder visual enérgico e sua excelente combinação de todos os níveis de produção. Assim, ele cria um conto de fadas de verão que dança à beira de um pesadelo. A cada segundo, era possível sentir o calor, o ar espesso e a pressão que está sobre o personagem principal. O foco está sempre nos sentimentos, perspectiva e percepção das crianças, o que dá a possibilidade de compartilhar a dor de encontrar a nós mesmos e nosso caminho.”

MENÇÃO HONROSA

  • Una escuela en Cerro Hueso (A school in Cerro Hueso), de Betania Cappato

Justificativa do Júri: “Com uma visão cinematográfica bela, comovente e forte, o espectador é convidado para uma jornada hipnótica e espiritual. Um filme íntimo e pessoal que deixa espaço e cria espaço, busca as semelhanças, não as diferenças, olha abertamente para o mundo e, assim, permite uma visão sensível e esperançosa de solidariedade”.

GRANDE PRÊMIO DE MELHOR FILME NA COMPETIÇÃO GERAÇÃO 14PLUS

  • La Mif (The Fam), de Fred Baillif

Justificativa do Júri: “Como uma batida do coração apressada, enérgica e pulsante, este filme empurra seus personagens e espectadores com honestidade brutal por meio de diferentes histórias e incidentes. Carregado por atuações cativantes e fortes, nunca perde o equilíbrio entre poder e vulnerabilidade. O filme te puxa para dentro, nunca vamos e vai direto ao coração”.

MENÇÃO HONROSA

  • Cryptozoo, de Dash Shaw

Justificativa do Júri: “Retratando personagens sensíveis em um mundo distópico belo e brutal, o filme oferece um raio de esperança ao mesmo tempo em que levanta grandes questões. Esta excelente obra de arte lida naturalmente com tópicos como sexo, gênero, guerra, sociedade e relacionamentos. Um trampolim para questionar a sociedade e nunca esquecer de usar nossa imaginação para novas perspectivas. Uma viagem alucinante, perturbadora e visionária”.

Balanço e Vencedores do Festival de Berlim 2021

CURTAS-METRAGENS

O Júri Internacional de Curtas-metragens do Festival de Berlim, composto por Basim Magdy (Egito), Christine A. Maier (Áustria) e Sebastian Urzendowsky (Alemanha), decidiu os seguintes prêmios:

URSO DE OURO DE MELHOR CURTA-METRAGEM

  • Nanu Tudor (My Uncle Tudor) de Olga Lucovnicova

Justificativa do Júri: “Em Nanu Tudor (Meu Tio Tudor), Olga Lucovnicova nos conduz pela complexidade de desvendar um trauma de infância. Enquanto detalhes íntimos gradualmente nos apresentam a um mundo aparentemente idílico de nostalgia inocente, sua conversa com seu tio Tudor aumenta para expor seu horror de infância e sua negação implacável. O sutil olhar cinematográfico de Lucovnicova circunda os membros de sua família com precisão. Sua coragem pessoal combinada com o domínio cinematográfico criam um filme que é poderoso e emocionalmente repleto de camadas”.

URSO DE PRATA PRÊMIO DO JÚRI

  • Xia Wu Guo Qu Le Yi Ban (Day Is Done) de Zhang Dalei

Justificativa do Júri: “Uma visita familiar se transforma em uma lenta despedida amorosa entre um avô e seu neto. A dinâmica familiar intrincada e a atuação soberba nos imergem em um momento genuíno em suas vidas. A mise-en-scène soberbamente trabalhada parece natural e discreta. Em Xia Wu Guo Qu Le Yi Ban (O Dia Acabou), a rica linguagem cinematográfica de Zhang Dalei constrói um retrato de família sensível que transcende a duração da forma curta”.

BERLIM CURTA-METRAGEM CANDIDATO AO PRÊMIO EUROPEU

  • Easter Eggs de Nicolas Keppens

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