Atlantique

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Amores em uma cidade afundada

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2019, o longa-metragem franco senegalês “Atlantique” é uma fábula metafórica sobre a estranheza do estrangeirismo existencial revestido em uma história de amor. O título também pode ser uma referência à lenda da cidade perdida de Atlântica, que foi destruída pela mar e afundou a cidade e seus moradores a um novo mundo aprisionado na impossibilidade do sair.

Dirigido e roteirizado pela estreante francesa Mati Diop (que já foi atriz em “35 Doses de Rum”, de Claire Denis), o longa-metragem busca a ambiência ao estágio do sonambulismo perfeito (a ação é motivada, mas o corpo fica desativo), abordando cômodos e típicos costumes e comportamentos rebeldes. Cada uma das personagens, resignada na estabilidade de suas vidas, como um casamento com uma pessoas de bom nível financeiro, aceita abrir mão dos sonhos para se tranquilizar no mesmo lugar.

“Atlantique” é também uma analítica viagem geográfica, por não adentrar na parte turística e mostrar a realidade como ela é: suas conversas, instantes em elipses, músicas cantaroladas, o tempo transe, o flerte do amor no cotidiano enquanto se espera o semáforo abrir, a noite das meninas (a la “Sex in The City” – elas só querem se divertir).

Sua narrativa, com um que de “Rafiki”, de Wanuri Kahiu, traz o conceito de cinema direto de imersão (à moda da estrutura do gênero documentário), por ser dentro da ação, com câmera próxima (close que aproxima ainda mais à intimidade retratada) e acompanhante, o espectador é convidado à inclusão de observar e contemplar.

O filme é uma sequência de simbolismos, que pululam durante toda a trama, como o amor interrompido nas ruínas da vida. A protagonista aprende a amar um jovem pobre, mas está destinada a casar com um também jovem rico, com seu barco, suas viagens caras e Iphone presenteado. O que escolher: a obrigação ou o amor?

“Atlantique” é também um feminista quando dá força e atitude à jovens mulheres que se juntam para proteger o mundo a sua volta e se vingar da superioridade machista dos homens (que como espíritos personificados tomam como possessão seus corpos para finalizar pendências enquanto vivos), muito próximo ao clipe da cantora Bonnie Tyler em “Total Eclipse of the Heart” e ou a “Suspiria”, de Dario Argento, e ou a “Cavalo Dinheiro”, de Pedro Costa, e ou “Nós”, de Jordan Peele.

Após uma brusca decisão de seu namorado, coisas estranhas começam a acontecer. Calafrios, febres, desligamentos mentais. Um sonho de um altera o equilíbrio de todos que ficaram e que não conseguem (ou não tem coragem) para deixar tudo para trás. O que escolher: a liberdade ou o amor?

Sim, é um filme de escolhas que mudarão drasticamente o rumo, estendendo e suspendendo a sensação do tempo real, com seus sonhos de realidade possível do mesmo cotidiano. Mas a abordagem de gênero é mero caminho condutor, o que se realmente quer transpassar é a questão preocupante das pessoas que resolvem imigrar em condições mínimas e degradantes.

Ada sofre a tristeza do abandono e tenta entender e lidar. E aos poucos se acostuma com o marido prometido (e a necessidade regra de se submeter ao teste de virgindade). Mas sinais a desestruturam novamente quando um mal estar acomete a todos os escolhidos (“Extorsão por bruxas?”, “Zumbis em transe?”). A internet, a luz interrompida, o incêndio criminoso na “tradição divina” do casamento… E seres “unicamente para servir”. 

“Atlantique” é uma obra sobrenatural. Só que o bem que começa, aos poucos perde ritmo e embarca em uma sucessão de ingênuos e estereotipados gatilhos comuns, como a forma de solucionar reviravoltas. Outro simbolismo que podemos perceber é sobre a psicanálise filosófica que lê que estes espíritos, obsessores, já voltam mortos, assim coo toda e qualquer pessoa que retoma a suas vidas de origem, que atrapalha o amor proibido à moda de “Romeu e Julieta” de Ada com Suleiman. Concluindo, a maestria de seu começo fica comprometida pela opção de potencializar sentimentalidades e dramas.

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