Asteroides

Miniaturas cósmicas

Por Ciro Araujo

Durante a Mostra Recine 2021

Escrever a respeito de “Asteroides” não parece, a princípio, uma tarefa complicada. A princípio, claro. O diretor Vicente Duque Estrada se põe no papel de produzir uma obra simplificada por sua superfície, mas que traz um “nerdismo”, sem (ou com, se assim deseja) trocadilho, astronômico. É sobre uma obsessão tão específica, um trabalho demonstrativo do autor. Ele para, observa, permite falarem e deixa fluir assim. Uma espécie de parente próximo da reportagem. Engraçado como repensar nele é possível insinuar a proximidade dessa linguagem e a cinematográfica, indagar qual é exatamente o ponto que um vira outro, a “autoralidade”.

Asteroides” é um filme de entusiastas. Ele é atento a escutar, fascinado, os mínimos detalhes de um equipamento complexo cuja função é de assistir um vasto quadro pintado acima dos céus. Através dessa vontade de aprender sobre o Observatório Astronômico do Sertão de Itaparica, é possível traçar um entendimento de como essa viagem através de uma biosfera solitária traz consigo o papel de simplicidade. Fato é, o observatório carrega consigo o trabalho de ser o único brasileiro a analisar e observar os pequenos corpos no Sistema Solar. A metáfora que se cria é a obra enxergar esses também pequenos corpos — agora, humanos e operários — trabalhando no meio do sertão, isoladas. Esse momento é precioso para o documentário, novamente citando a adjetivação de “filme de entusiasta”, encontrar dentro desse meio todos os detalhes possíveis para aqueles mais aficionados ao ser um astrônomo. A partir dessa escrita, nota-se que muito se fala sobre ficção científica — em certo momento inclusive uma entrevistada com a camiseta de “Guerra nas Estrelas” — e sobre a exploração espacial, mas quando existe um espaço para se falar sobre a realidade terrestre? O ser humano, afinal, sempre foi fã de assistir ao máximo que pode. Falar sobre é nada mais que natural.

A produção de Vicente Duque passa a costurar, após esse interesse pelo pequeno, num campo mais macro ao realizar a pergunta: “E como o Observatório afeta socialmente as suas proximidades?”. A tentativa de montar uma lógica de montagem é válida, mas não é inspirada. Ela traz consigo a formalidade da reportagem, que não se esquece de seu próprio formato industrial. Parece que ali, “Asteroides”, que uma vez passou a ser um filme entusiasmado pela miniatura, em outro momento se propõe a filmar o resto exatamente em sua exata formatação. Provavelmente é a explicação pela qual não existe uma certa liga que tece força, se a repetição da filmagem ocorre sem uma adaptação à troca de objetos micro e macro.

O que a obra entende, e muito bem, é da magia existente no terreno onde o Observatório se encontra. Um lugar plano, no sertão. O clima de vegetação espessa, que precisa se adaptar para a pouca água, é um tanto alienígena. Um outro mundo, averso ao comum. A sugestão que fica é que essa ambientação mágica, além-Terra, faz parte do microcosmo de miniaturizado de pessoas solitárias. A materialização do pôr do sol colorido, cor púrpura e a Redoma do mirante estelar trazem consigo a clássica visão espacial. Em “Space Oddity“, música de David Bowie, se vê a temática máxima da solidão no universo; aqui, já em terra, o entusiasmado olhar continua trabalhando.

Está claro então que o cineasta dirige um filme constantemente interessado, mas que muito se mantêm estruturalmente num formato chapado, simples. É uma montagem lógica, mas que não se aprofunda muito mais por suas próprias filmagens. A Netflix, apesar de conhecida pelo seu conteúdo tradicionalmente metódico e algorítmico, produziu “Fungos Fantásticos” do fotógrafo Louie Schwartzberg. Se a tradução permite, as imagens fúngicas possuem um claro interesse, da mesma forma que visualmente se vê no olhar da obra de Vicente por um cosmo pequenino, uma relação também mágica vista no ambiente e na beleza do solitário, do que acontece ali. O Observatório Astronômico do Sertão de Itaparica, apesar, ganha uma bela representação e memória em formato de arquivo para manter registrado o trabalho desses pesquisadores e operários que mantêm o âmbito maior de narrar essas pequenas estrelas que pairam sob o escuro céu. É algo tão nobre, tão esquecido e tão isolado. Árcade. “Quando você sai procurando um sítio no Brasil, que seja apropriado pra isso, pra prática da astronomia, a gente não consegue separar as duas coisas, como pesquisador e como cidadão, nós começamos a perceber o quanto as cidades estão perdendo esse céu natural”, vem uma frase de uma entrevistada dentro de seu “escritoriozinho”. Quem diria?

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