Aspromonte: Terra dos Esquecidos

Clamando por Desistência

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

“Aspromonte: Terra dos Esquecidos” segue uma linhagem do cinema italiano de entregar ao público a materialização da inocência com personagens infantis, uma forma carregada de sentimentalismo iniciada talvez por “Ladrões de Bicicleta” (1948). Na filmografia do país encontramos desde tintas carregadas muito bem sucedidas, como “Marcelino Pão e Vinho” (1955) e “A Vida é Bela” (1998), até o equilíbrio perfeito entre drama de personagens em crise e sequências onde não se pode segurar as lágrimas, como “Cinema Paradiso” (1988). Se usarmos tal régua, o longa-metragem dirigido por Mimmo Calopresti parece bem mais sóbrio do que esses aparentes clássicos do Cinema. Em uma sessão especial no Festival do Rio 2019 o premiado ator Marcello Fonte, intérprete do personagem Ciccio, tentou passar a mensagem do entretenimento formativo, de entender se divertindo em sua apresentação.

Não há obras despretensiosas na origem, cada filme possui suas intenções. Parece que o longa-metragem selecionado para a Mostra Panorama do Cinema Mundial quer se distribuir por diversas abordagens, evitando definir um objeto. Quase como um conto que, se não se pauta pela força narrativa, vai se embrenhando na nossa cabeça por partir de uma premissa simples para tratar do nosso esmagamento como espécie. Sua trama se baseia em uma das grandes enchentes da história da Itália, muito lembrada ao longo dos últimos meses quando, por coincidência, o país voltou a sofrer com a força da chuva, ganhando espaço na imprensa mundial pela inundação de Veneza.

Uma das maneiras de tornar bem direta a comunicação é trazer como protagonista dois personagens que podem ser definidos por seus ofícios: Ciccio é o poeta, o sonhador, o idealizador. Giulia (Valeria Bruni Tedeschi) é a professora, que chega a Africo, comuna italiana da Calábria, uma das áreas mais pobres do país, para trabalhar no ano de 1951. Tentando construir uma relação afetiva com sua nova casa, ela encontrará um vilarejo isolado, onde a administração pública se nega a alocar um médico. Localizada em um terreno montanhoso, de difícil acesso – posto que sem estrada de acesso – “Aspromonte: Terra dos Esquecidos” já se define no título. Em determinado momento há a questão: seria ali um lugar para viver ou para morrer?

Calopresti usa no primeiro ato uma câmera exploratória, permitindo ao espectador um deslocamento preciso da Itália no ano do fim da Segunda Guerra Mundial. Não apenas vai saciando a curiosidade do público, como mostra a partir de poucos personagens o que é ser um homem, uma mulher, uma criança e um idoso naquela Aspromonte. Os mais jovens precisam optar por frequentar a escola ou trabalhar desde cedo, enquanto os mais velhos convivem com a certeza da morte iminente em qualquer emergência. A falta de perspectiva, por óbvio, é o elemento em comum.

Depois de construir com eficiência esse microcosmo, “Aspromonte: Terra dos Esquecidos” insere um personagem que é quase um easter egg para os cinéfilos. Assim como Lunga de “Bacurau“, o “fim de mundo” italiano também tem seu andarilho violento: Cosimo, interpretado por Marco Leonardi, que viveu Totó em “Cinema Paradiso”. Por sinal, a representação do senhor de idade, da velhice potencialmente depressiva, se dá na figura de Don Totó (Sergio Rubini), outra referência direta da obra. A questão é que, enquanto Lunga se pauta na ideologia de justiça social que o torna o herói brasileiro de 2019 (assim definido com base na observação e não em opinião pessoal, muito pelo contrário), Cosimo é apenas mais uma engrenagem do sistema que sufoca os moradores de Aspromonte. Um engrenagem paralegal, mas fundamental para manter o pequeno distrito na “vanguarda do atraso”.

A atuação de Fonte como elemento de ligação do filme também homenageia, mesmo que ligeiramente, outro Totó, o popular comediante italiano. Observa-se uma preocupação em não exagerar nas tintas de nenhuma das abordagens do longa-metragem, evitando assim que Ciccio se tornasse um Bert, personagem meio bobalhão de Dick van Dyke em “Mary Poppins” (1964) e O Retorno de Mary Poppins” (2018), por exemplo. Essa reverência para com a história, podando qualquer exagero dramático, cômico ou romântico, nos faz viajar pela mesma falta de esperança dos moradores de Aspromonte. Todas as escolhas coletivas, desde o plano de unir a sociedade civil para a construção de uma estrada até cogitar deixar para uma espécie de miliciano o poder das terras, se dá com certa indiferença. Com o adicional de ser um mundo abalado com anos de uma pesada guerra, parece que qualquer medida tomada seria paliativa, como se aquelas pessoas estivesse condenadas a uma vida miserável. Um grupo que não pensa em resistir, pois desde que se entende por gente vive uma realidade que clama por desistência. A chegada de uma migrante, que em uma visão romanceada poderia virar um gatilho de esperança, só não é ignorada em virtude da relevância de seu ofício em uma comunidade pequena.

Quando dizemos que “Aspromonte: Terra dos Esquecidos” se mostra um filme maduro é que essa levada não tão bem humorada, quase um faroeste onde a violência não se materializa, fixa muito mais suas mensagens do que se seguisse a fórmula emotiva tão comum no cinema italiano. Resta saber se o espectador se conectará a um produto bem mais melancólico do que o geralmente encontrado. Uma quebra de expectativa para uma sociedade latida tão verborrágica e desbundante quanto a brasileira. Interessante por parecer Neorrealismo Italiano, ser contextualizada em seu período, mas ao meso tempo dialogar com nossa época, aumentando a sensação de que o fascismo se encontra a ponto da institucionalização novamente. Com minutos onde o silêncio estranhamento se torna personagem, o cinema italiano cria mais uma obra de contemplação do insolucionável: a morte do consciente coletivo.

 

 

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