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Ascensão

O Céu é o Limite

Por João Lanari Bo

Ascensão

Ascensão”, o documentário que Jessica Kingdon dirigiu em 2021, explora a busca do “sonho chinês”, segundo a sinopse arrolada no indefectível IMDb. Ninguém sabe definir com precisão o que é esse “sonho chinês” – o substantivo sonho já é algo complicado, na ordem do inconsciente, e agregando o adjetivo gentílico – aquele que que dá nome a um povo ou raça – fica mais complicado ainda. Afinal, o que significa “chinês”? Um recorte geográfico com raízes ancestrais de milênios, com uma população colossal que desafia a combalida razão cartesiana ocidental, a China é essa alteridade radical que se levantou na virada do século 20 para o 21 e caminha célere para se tornar a maior potência do planeta. Desconfie, caro leitor, daqueles que se propõem a explicar a China sumariamente utilizando as categorias políticas e/ou econômicas clichês, herdeiros que somos do eurocentrismo atualizado pela dominância norte-americana. Desconfie, inclusive deste texto ora à sua frente – mas abra uma exceção para o documentário que Jessica realizou, depois de oito viagens à China e filmando em cerca de 50 locais diferentes. Pois a jovem diretora, filha de mãe chinesa e pai americano (e judeu), logrou produzir um inédito olhar que estimula a meditação sobre a vida fabril e a sociedade de consumo da China contemporânea – utilizando uma estética de cinema-fluxo, se é que é possível utilizar o termo: ausência de talking heads, ausência de personagens, puro movimento, corpos e afazeres, trabalho e coletividade, na melhor tradição taoísta. Recorrendo à infalível Wikipédia: o ideograma tao, o núcleo do taoísmo, pode ser traduzido como via ou caminho; é o que há de mais profundo e misterioso na realidade e que faz com que tudo seja como é. Claro, não se trata aqui de resumir um patrimônio filosófico tão denso e complexo, mas de utilizar a ideia como um proxy da linguagem elaborada pelo filme, que seria algo como:

a imagem e o som em estado puro, a imagem como imagem e o som como som, significante e significado amalgamados, conteúdo e forma unificados, e não como veículos de enredos e tramas. O pensamento dialético do cinema narrativo é substituído pela contemplação (ou convive com ela, como é o caso do atual estágio dessa tendência). A dialética cede espaço à fenomenologia, à reflexão a partir diretamente do que estamos vendo ou ouvindo, dos fenômenos que chegam à nossa consciência através dos sentidos e não dos mecanismos do raciocínio.

A citação, atribuída ao cineasta Orlando Senna, é um pouco longa no espaço da crítica cinematográfica, mas é útil para pensar a estratégia narrativa de “Ascensão”. À medida que cenários e sequências deslizam à nossa frente, desde uma oficina têxtil que faz chapéus com o logo Keep America Great a uma escola para mordomos de chineses nouveau riches, passando pela manufatura de bonecas sexuais de seios fartos e palestra de treinamento para vendedores sobre músculos faciais – significantes e significados se amalgamam continuamente, pontuados por camadas sonoras que mixam captações de diálogos aleatórios desses ambientes à música hipnótica e urgente, construída com sintetizador e cordas, de Dan Deacon. A estética de cinema-fluxo, enfim, permitiu ao documentário encontrar o seu tao, o princípio supremo que está na origem do seu devir, e que é também o seu caminhar.

Mas, atenção: “Ascensão” não perde de vista o mundo em que vivemos: a proposta de Jessica é rastrear a interdependência do resto do mundo com a produção chinesa – processo que começou em 1979 com as reformas e a abertura promovidas por Deng Xiaoping, transformando em pouco tempo a China em uma economia de grande capacidade de exportação, produtora de mercadorias para o resto do mundo. Economistas que pensam globalmente não hesitam em afirmar que foi graças a essa enxurrada de produtos chineses baratos que muitos países importadores conseguiram controlar pressões inflacionárias. Ao mostrar os bastidores do processo de produção de algumas dessas mercadorias, em sua maioria simplórias e de baixa tecnologia, o documentário instiga uma identificação do espectador com a representação da cadeia de suprimentos global, que é uma das características dessa época em que vivemos. Tudo isso sem um olhar negativo preconcebido – nada dos fantasmas chineses que habitam os armários (e os discursos) de muitos líderes ocidentais, no Brasil e Estados Unidos, por exemplo.

O filme que Jessica dirigiu, fotografou (junto com o marido, Nathan Truesdell) e editou não tem medo da China, nem cultiva fantasias delirantes, e muito menos quer ser a explicação definitiva sobre o assunto. Em 2018 ela já havia dirigido um curta precioso, “Commodity City”, rodado no Mercado de Yiwu, o maior shopping atacadista de bens de consumo do mundo – localizado na província de Zhejiang, ao sul de Xangai. Falando sobre o curta, Jessica explicou: Os mercados têm suas próprias rotinas e ritmos, onde o espaço, no caso do Yiwu – estendendo-se por oito quilômetros – opera de acordo com as demandas flutuantes da economia global. Bem-vindos à globalização!

4 Nota do Crítico 5 1

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