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As Nadadoras

Estado de Exceção

Por João Lanari Bo

Festival de Toronto 2022

As Nadadoras

As Nadadoras” é um filme realizado por Sally El Hosaini em 2022, cineasta nascida no País de Gales, filha de mãe galesa e pai egípcio que se conheceram na universidade em Liverpool, na década de 1960. Logo os pais mudaram para o Cairo, onde Sally cresceu, ligada nessa polaridade cultural, oriente e ocidente. Polaridade que reverbera politicamente, em alta voltagem, como sabemos: o Oriente Médio, território que se estende desde o leste do Mediterrâneo até ao golfo Pérsico, é o berço e centro espiritual do cristianismo, islamismo, judaísmo e outras confissões religiosas de menor vulto, mas igualmente ciosas de sua tradição. Produzir uma narrativa audiovisual que pretende lidar com uma das facetas contemporâneas desse caldeirão não é tarefa fácil – no caso em tela, a desastrosa e patética guerra civil da Síria, conflito interno que começou como uma série de protestos populares em janeiro de 2011, e progrediu para uma violenta revolta armada em março do mesmo ano, na esteira da onda de protestos no mundo árabe.

A escolha de Sally foi contar a história, baseada em fatos reais, de duas jovens irmãs que deixam a Síria devastada pela guerra e embarcam em uma viagem arriscada rumo à Alemanha. O sonho que impulsionou o desejo abrupto das nadadoras de emigrar era, de alguma maneira, obter a qualificação para as competições de natação nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016. Estamos num mundo de adolescentes, com o imaginário respectivo: a sequência que abre o filme mostra as duas irmãs, Sara e Yusra, ligadas por um forte vínculo afetivo, mas também por uma competitividade desconexa, mergulhando e pregando peças numa piscina pública – muito pouco, infelizmente, para revelar ou pelo menos insinuar as razões que as levaram a deixar um mundo, família incluída, prestes a desmoronar. As atrizes dão o melhor de suas capacidades, mas, por mais urgente e dramático que seja o enredo, a sensação de familiaridade com batidos lugares-comuns é incontornável. Manal Issa, a atriz libanesa que interpretou Sara, não disfarçou seu desagrado, depois de assistir “As Nadadoras”: parecia um daqueles filmes americanos banais, cheios de clichês orientalistas.

Na vida real, Sara Mardini tornou-se – após a epopeia da migração que a levou a Berlim – ativista de direitos humanos, ligada à questão dos refugiados. Em Damasco, também competia nas provas de natação, induzida pelo pai, ex-atleta e treinador: a irmã Yusra, entretanto, era mais determinada e voluntariosa, focada em competir nas Olimpíadas. As duas fugiram da Síria em 2015, com a radicalização da guerra civil, e foram para Istambul. Em seguida, a odisseia: em um bote sobrecarregado de refugiados do Afeganistão, Somália e outras paragens, contratado junto a corruptos contrabandistas turcos, atravessaram o Mediterrâneo em direção à ilha de Lesbos, na Grécia. O motor, obviamente, pifou – e a desgraça só não aconteceu porque Sara, seguida de Yusra, se lançaram na água e puxaram o barco até a costa. Essas sequências –  acrescidas de atribulações e percalços na travessia das fronteiras, Sérvia, Hungria e Alemanha – são a face realista de “As Nadadoras”. A imagem emblemática, na chegada a Lesbos, é o mar de coletes salva-vidas abandonados, perto da praia, pelos milhares de refugiados que ali aportaram.

Não obstante as boas intenções da diretora, foram muitas as críticas negativas na recepção do filme, no Festival de Toronto. Utilizar os hinos pop da cantora Sia, Titanium e Unstoppable, como pano de fundo de uma tragédia humanitária que matou cerca de 500 mil pessoas e provocou emigração forçada em 5 milhões de sírios – muitos vieram para o Brasil – pode levar a mal entendidos. Um filme pop sobre uma tragédia, provocada sobretudo por um regime opaco e autoritário? O caso sírio cai como uma luva para as reflexões do filósofo Giorgio Agamben sobre política contemporânea, segundo a qual o estado de exceção é o paradigma fundante do Estado Moderno, tanto na versão totalitária como na versão democrática:

O estado de exceção era um dispositivo provisório para situações de perigo. Hoje se tornou um instrumento normal de governo. Com a desculpa da segurança diante do terrorismo, se generalizou.

A Síria tem uma longa tradição de autoritarismo: ficou sob estado de exceção de 1963 até 2011, o que dava as forças de segurança a autoridade de prender qualquer um sem declarar o motivo, entre outras medidas de supressão da democracia e dos direitos básicos. Depois de um breve lapso de afrouxamento político, eclode ainda em 2011 a guerra civil, que opõe o regime de Bashar Assad a um conjunto heterogêneo de forças rebeldes. O caos se agravou com a entrada do Exército Islâmico na contenda, além das interferências dos EUA e Rússia. A guerra consolidou ainda mais o estado de exceção na Síria – e nada disso transparece no drama das nadadoras, como se fosse uma realidade distante.

Sara Mardini chegou a ser presa pela polícia grega em Lesbos, em 2018, quando atuava em uma ONG de apoio a refugiados tentando entrar na Europa. Saiu sob fiança depois de 108 dias, mas o julgamento só foi anulado recentemente, por incrível que pareça. As penas dos alegados crimes – em resumo, ajudar refugiados – somavam inacreditáveis 25 anos de prisão. Como diz Agamben, o estado de exceção dos campos nazistas de extermínio é o mesmo que impera nos campos organizados para os refugiados.

2 Nota do Crítico 5 1

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