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As Cadeiras

Farsa trágica absurdista

Por Bernardo Castro

Durante a Mostra Teatro na Tela

As Cadeiras

O que vemos aí, no palco cênico, são imagens no sentido estrito que acabo de definir: um mundo imaginário; e todo teatro, por humilde que seja, é sempre um monte Tabor onde se cumprem transfigurações. – José Ortega y Gasset

A relação entre as artes cênicas e o cinema tem origem na gênese do último, com o surgimento de narrativas filmadas, sempre abarcando um ar de teatralidade. Com o tempo, a sétima arte foi se desvencilhando aos poucos do teatro, adquirindo características próprias, possibilitadas pelo advento da montagem e da edição. No entanto, não é possível precisar um momento de ruptura definitiva entre ambas as partes, uma vez que tais vertentes artísticas continuaram um tipo de associação simbiótica incontestável. “As Cadeiras”, do diretor Fernando Libonati, baseado na peça homônima de um ato do dramaturgo Eugène Ionesco, é mais uma que entra para o rol de adaptações do gênero.

Assim como no texto original, acompanhamos um casal de idosos, que supostamente portam uma mensagem capaz de salvar a humanidade, à espera de convidados ilustres. Porém, os tão aguardados convidados são inexistentes – ou invisíveis ao público. Calcado nas bases da corrente filosófica do absurdismo, que teve como o seu maior expoente o filósofo franco-argelino Albert Camus, o drama não pretende desenvolver um enredo conciso ou tradicional, mas satirizar a busca do ser humano por um significado maior e abordar temas fulcrais para o entendimento da natureza humana, como solidão, delírio e ambição.

Com maestria, ele constantemente rompe com o envolvimento do espectador, interrompendo a suspensão de descrença poucos instantes depois de construí-la. Os relatos são contrastantes e as duas personagens frequentemente se contradizem, algo que, paradoxalmente, impede o desenvolvimento dos personagens e ao mesmo tempo traz profundidade à ideia, sendo esta última riquíssima no tocante à reflexão estética. No final de “As Cadeiras”, a figura do oximoro sintetiza perfeitamente a obra – as contradições e os absurdos se complementam para criar uma produção hermética e complexa, mesmo sem ter a ambição de fazê-lo.

É imprescindível dizer que o que torna tudo isso viável é a qualidade das atuações, que dão vida ao texto e catalisam o seu potencial dramático. A dupla de protagonistas, composta por Marco Nanini, conhecido pelos seus papéis em “A Grande Família” e “O Auto da Compadecida”, e pela falecida atriz Camila Amado, de “O Pulo do Gato” e “Éramos Seis”, agregam significativamente ao longa-metragem, mostrando a qualidade da escola brasileira de atores – é válido ressaltar que a ficha técnica também conta com a ilustríssima coreógrafa Deborah Colker na direção de movimentos. Tendo em vista que o filme, à grosso modo, se restringe à diversos diálogos entre os dois e eventuais solilóquios, é fácil inferir que apenas atores do porte deles estariam aptos a interpretar um texto como este, ainda mais com um ciclo de interações reduzido e um espaço cênico limitado, que conta com apenas um ambiente ao longo de todo o filme.

“As Cadeiras” se distingue de outras adaptações teatrais por transpor, com auxílio da montagem e da fotografia, as características do teatro para formato audiovisual. Percebe-se o uso de técnicas básicas do cinema, como planos-detalhe, no intuito de realizar a transposição supracitada. Todavia, alguns pontos precisam ser evidenciados no que concerne ao longa. Por mais que as atuações sejam excepcionais e, dentro do possível, envolventes, a locação limitada – apenas dois personagens confinados em um ambiente estéril, a falta de outras possíveis interações e a cadência relativamente lenta perdem a atenção do espectador regular ainda nos primeiros trinta minutos. As transições e os cortes aplicados na edição conseguem mitigar e dar ritmo, mas não resolvem o problema por completo – outros filmes, que trabalham com locações limitadas, compensam no dinamismo com a presença de muitas personagens e o desenvolvimento deles, o que não pode ser aplicado em um roteiro abstrato como este.

Ao final da sessão de “As Cadeiras”, entende-se que o filme é muito bem trabalhado considerando todas as restrições impostas pela mise em scène. Não existem palavras para elogiar as interpretações dos atores, que usufruem de todas as suas ferramentas para sustentar a história. Compreende-se também que a adaptação funciona muito bem no que se propõem a fazer: ser um filme alternativo e uma alternativa ao espaço físico do teatro em tempos pandêmicos.

3 Nota do Crítico 5 1

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