Arrependimento sem Perdão

Cinema e alegoria: culpa e arrependimento

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 1987

Tengiz Abuladze, um homem pequeno e elegante com olhos penetrantes, como o definiam seus conterrâneos, passou a vida fazendo filmes na Geórgia, na época mais uma república da União Soviética. Encravada em uma daquelas regiões onde o passado se atualiza como presente, irrevogavelmente, a Geórgia, com menos de 4 milhões de habitantes, tem um condão para produzir cineastas competentes: Abuladze certamente integra esse time. Formado na famosa escola de cinema de Moscou, VGIK, ganhou em 1956 prêmio de melhor curta em Cannes e embalou uma carreira poético-alegórica – naqueles tempos os limites censórios impunham uma negociação permanente com o sistema, e Abuladze fez o jogo. Seu “Eu, Vovó, Illico e Illarion”, de 1962, é dos mais bem sucedidos filmes pastorais com pano de fundo social. Em 1980, recebeu o título de Artista do Povo da URSS. Mais do que uma simples honraria, o título legitimava o homenageado a receber benefícios e privilégios do Estado, como seguro médico e direito a residência especial (na URSS, recorde-se, não havia propriedade privada). Meticuloso em seu estilo de trabalho, Abuladze passava anos escrevendo, deixando suas ideias amadurecerem, antes de filmar um único take: com sua nora, Nana Janelidze, elaborou em 1981 tratamento de dezoito páginas para um roteiro satírico-alegórico centrado em um personagem-amálgama de tiranos, de Stalin a Hitler, passando pelo temível Lavrenti Beria, notório executor dos desígnios mais cruéis de Stalin, expurgos e assassinatos em massa (ambos, Beria e Stalin, eram georgianos). O roteiro virou longa-metragem: “Arrependimento Sem Perdão”, rodado em cinco meses de 1984, considerado por muitos como a produção cinematográfica mais emblemática da era Gorbachev, a era que resultou na queda do Império Comunista.

Alegoria: narrativa ficcional simbólica que o espectador só pode compreender por meio de um processo interpretativo. Corria o ano de 1985, Gorbachev assumiu o poder na poderosa URSS e começou a planejar a transição para um regime mais liberal, política e economicamente. Junto com o Comissário cultural Alexander Yakovlev criou duas estratégias, duas faces da mesma moeda, glasnost e perestroika: a primeira, uma relativa abertura política, seria a “cenourinha” para atrair a intelectualidade e a juventude alienada ao projeto da segunda, a perestroika, uma (também) relativa liberalização econômica. A “União dos Cineastas da União Soviética” rapidamente aderiu às novidades – em dois anos dezenas de filmes proibidos saíram da prateleira para lançamento nas salas de cinema. Na Geórgia, Tengiz Abuladze contou com o suporte de um dos principais aliados regionais de Gorbachev, Eduard Shevardnadze: o filme foi produzido pela TV georgiana para escapar da vigilância direta dos olheiros de Moscou. Exibições nas grandes cidades do país, principalmente para os chamados formadores de opinião bem relacionados, ocorreram esporadicamente. Por um desses mecanismos mágicos do cinema, “Arrependimento Sem Perdão” acabou galvanizando a atmosfera prevalecente nesses anos de abrupta transição – e logo a parábola política sobre os males do totalitarismo encarnou o Zeitgeist da época. Faltava a grande audiência, e mais uma vez Shevardnadze interveio: “devo a muitas pessoas e não posso pagar a todas agora”, disse a Gorbachev, “mas há uma dívida que devo pagar de qualquer jeito, e você pode me ajudar”. Uma sessão especial foi organizada para o líder soviético, cujo avô foi preso durante a era Stalin, e o filme foi liberado para distribuição sem restrições. Sucesso de público e crítica.

Afinal, que nervo é esse que a narrativa, uma alegoria cheia de firulas, tocou? Lembrando as famosas matrioscas, bonecas-russas colocadas umas dentro das outras, da maior até a menor, “Arrependimento Sem Perdão” é uma história dentro de uma história dentro de uma história: a principal delas refere-se à morte (natural) do líder-tirano, Varlam Aravidze (em georgiano a raiz da palavra “aravin” significa “ninguém”). No dia seguinte ao funeral, seu cadáver reaparece encostado em uma árvore, situação que se repete em circunstâncias inusitadas: até que uma mulher, filha de uma das vítimas de Varam, é acusada dos “desenterros”. Seguem-se situações farsescas, acompanhadas por bufões e muita rasgação de seda. No funeral, alguém leu um poema comparando a morte do líder a uma “cambalhota para a eternidade”, e lembrou que Varlam poderia, num piscar de olhos, “transformar um amigo em inimigo e um inimigo em amigo”. Em seguida, um longo flashback de 75 minutos, metade da duração do longa, condensa a alegoria do terror dos anos 30 na URSS – perseguições e assassinatos arbitrários, entre eles o do artista Sandro, pai da profanadora de túmulos. Abuladze, que menciona uma lembrança da infância sobre cadáver desenterrado para denunciar uma injustiça, inspirou-se na “fantasmagoria” tradicional do folclore georgiano para construir seu roteiro. A despeito do estilo barroco, algo enigmático, o filme logrou traduzir a passagem do clima obscuro e persecutório da sociedade na era Brejnev para o ambiente mais arejado dos tempos de Gorbachev.

Arrependimento Sem Perdão”, com sua representação estilizada do terror de Stalin, mostrou-se certeiro em relação ao assunto: “realidades absurdas e fantásticas”, observou Abuladze, “requerem meios de expressão correspondentes.” Cinema, enfim, como mediação entre Sociedade e História. E disponível no MUBI.

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