Apresentando os Ricardos

Todo mundo aqui é comediante

Por João Lanari Bo

Apresentando os Ricardos

Apresentando os Ricardos”, lançado pela Amazon Prime, ataca mais uma vez um dos sets favoritos do audiovisual norte-americano: os bastidores, o drama que se passa por detrás dos artefatos culturais, seja filme, TV, Broadway, sitcom ou qualquer outro espetáculo veiculado por essa poderosa indústria do entretenimento. Aaron Sorkin, diretor e roteirista premiado, é um obsessivo do gênero: enquanto escrevia trancado em um hotel uma das histórias que lhe granjearam fama, “Meu Querido Presidente”, de 1995, deixava a televisão ligada em programas de esporte, a noite toda – e não deu outra, na sequência criou uma série de sucesso, “Sports Night”, sobre…os bastidores de um programa de esportes! Anos depois, escreveu “The Newsroom”, onde uma redação de jornal televisivo é dissecada, revelando os bastidores da notícia: mesmo “A Rede Social”, seu roteiro premiado com o Oscar, joga com essa desconstrução dramatizada, no caso um dos produtos mais corrosivos e bem sucedidos da indústria de escape que o capitalismo inventou – Facebook. Com as devidas “licenças dramáticas”, o espectador é apresentado a um projeto de interconexão de pessoas criado para preencher limitações individuais e almejar o bem-estar, digamos, social – ou seja, entretenimento. No filme em tela, Sorkin tenciona desvendar um dos ícones da TV do seu país, o programa semanal “I love Lucy”, que foi ao ar entre 1951 e 57, sempre na segunda-feira, alcançando até 60 milhões de espectadores semanais – número absurdamente alto, obtido na primeira década da televisão aberta, quando a concorrência, além da própria TV, eram as salas de cinema e o rádio. A ideia foi isolar uma semana crítica da produção do programa, focando nos seus protagonistas – Lucille Ball e seu marido, o cubano/americano Desi Arnaz – e concentrando acontecimentos cronologicamente dispersos neste curto intervalo de tempo.

Lucille e Desi, interpretados por Nicole Kidman e Javier Bardem, são os âncoras desse mergulho nas entranhas do espetáculo. Tudo o que acontece em “Apresentando os Ricardos”, portanto, realmente aconteceu, mas não nessa ordem. Utilizando diálogos francos e diretos, sem rodeios, o filme – a exemplo de “Os 7 de Chicago”, do mesmo realizador – comprime personagens e situações de tal maneira que a velocidade da narrativa remete a um verdadeiro sprint, uma explosão de energia, energia de afetos e desencontros, medos e ansiedades. Os ganchos emocionais espalham-se pelo estúdio da produção: seria Lucy comunista? seria Desi adúltero? O patrocinador, Philip Morris, e a emissora, CBS, aceitariam que a gravidez de Lucy seja incorporada à ficção?  Afinal, estamos em uma comédia sobre casamento, dramatizada em dois níveis, interno intrafamiliar – Lucy e Desi estão sempre à beira do sexo ou do conflito a tapas – e externo grande público, sobre a alegria tóxica que infesta os bastidores do showbiz. Mas também estamos em um filme-homenagem a Lucille Ball, a “rainha do filme B”, como era conhecida antes do estrelato de “I love Lucy”. E também, é preciso reconhecer, em uma aula sobre história da televisão – e aqui Desi teve um papel significativo. A configuração com múltiplas câmeras e iluminação inovadora, articulada por ele com o diretor de fotografia Karl Freund, foi pioneira na geração do espaço cênico da situation comedy, a sitcom: e a gravação ao vivo em 35 mm, ao invés do cinescópio, permitiu que o material ficasse imediatamente disponível para produção e distribuição de novas cópias, ampliando o consumo nas estações locais e garantindo a longevidade do produto, por meio do rerun. A empresa-produtora do casal, Desilu, pôde exibir um alto padrão ao longo dos anos: Lucy também tinha um olho arguto – programas da década de 1960 tidos como cult, como “Star Trek” e “Missão Impossível”, passaram pelo seu crivo antes de serem aprovados para produção. A Desilu foi vendida em 1967 por uma fortuna e seu catálogo de filmes e séries pertence hoje à Paramount.

Apresentando os Ricardos”, em última análise, atualiza o espetáculo (e o consumo) da televisão nos seus primórdios para a era do algoritmo, a televisão por streaming de dados. Lucille Ball passou o resto da vida como celebridade, sem perder o tino dos negócios, claro. Aos 68 anos, encontrou tempo para dar aula na California State University, Northridge: sua disciplina era “Estética do Filme e da Televisão”. Foi contratada como professora assistente e doou o salário para instituições de caridade. Abria suas aulas com o sorriso característico: todo mundo é um comediante aqui esta noite. Eu amo isso. Pelo menos vocês estão relaxados, dizia.

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