Antártica Por Um Ano

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Distantes, Porém Não Exilados

Por Michel Araújo

Uma viagem para o continente antártico que foi adiada por mais de um ano por conta de um incêndio na Estação Antártica brasileira que matou dois oficiais que tentaram contê-lo e destruiu 70% da estação. Se inicia uma espécie de prólogo sobre esse vazio e a possibilidade do “não filme”. Após um passeio da câmera pelo vasto continente gelado, conhecemos a equipe brasileira – composta por militares e não militares – que irá passar um ano inteiro numa expedição científica. O que se estereotipou como imagem do documentário de exploração, ou expedição, é algo de uma grandiosidade mítica e extremamente dramatizada. Os documentários clássicos como “Nanook – O Esquimó” (Robert Flaherty, 1922) ou “O Grande Silêncio Branco” (Herbert Ponting, 1924) parecem ter consolidado esse fundamento de uma extrema dramatização em detrimento do apreço não só pela realidade dos fatos, como pela realidade capturada pela câmera. O que sucedeu nessa linha de docu-dramas norte-americanos e europeus não parece caber no terceiro mundo – em especial no país donde vieram Eduardo Coutinho e João Moreira Sales. Nesse sentido, é possível ver em “Antártica Por Um Ano” (2019), de Júlia Martins, uma tendência maior ao apreço deste estilo mais fidedigno à realidade, do que de uma elaboração de todo um drama de ficção o qual usa da realidade como mera matéria bruta a ser quase inteiramente retrabalhada.

Diferentemente do que se veria há quase cem anos atrás numa época em que as condições tecnológicas para uma expedição ao continente antártico eram muito inferiores, hoje não há uma saída quase total da realidade mundana. É possível telefonar, enviar fotos, enviar vídeos, e ainda se manter atualizado quanto ao que decorre no Brasil. A fala de um dos personagens demarca bem os limites de glamorização da expedição científica quando diz “os verdadeiros heróis são os que continuaram lá, onde os bandidos ainda estão assaltando, onde os preços estão subindo e as compras do mês tem que ser feitas, onde os filhos tem que ir pra escola”. Existe algo de muito mais sóbrio e materialista nessa perspectiva de que mesmo há centenas de quilômetros, num cenário geográfico completamente avesso ao de um país tropical, a realidade ainda está caminhando, a história ainda está se fazendo, os trabalhadores ainda estão trabalhando. Não há como fugir do caminhar da sociedade.

Os membros todos possuem suas questões pessoais com as quais lidar nesse distanciamento do mundo. A que parece tomar mais profundidade é a médica, Fátima Iyetunde. Fátima lida com duas questões de fortíssimo peso, primeiramente uma quebra de fé em decorrência de seu contato com a filosofia de Nietzsche num curso sobre o pensador, e a questão da sua feminilidade reprimida, em vista de estar num ambiente majoritariamente masculino. A primeira questão pesa pois Fátima diz que esse ceticismo soa demasiado intimidante e assustador para a maioria de seus colegas, e mais interessante, seu irmão lhe diz que esse momento não é o momento para afirmar que “Deus está morto”. Sua fé, sua crença, são necessárias para a própria estrutura emocional e psicológica que ela precisa ter para sustentar o desafio desse isolamento físico extremo. O que remete a uma problematização muito comum que é erradamente colocada por grupos elitistas intelectuais da fé como meramente alienante. Aqui a personagem recebe uma dose forte de verdade quando seu irmão lhe diz que a fé em Deus é necessária para sua estrutura nesse momento. Para um trabalhador que depende somente de sua força de trabalho, o que lhe resta se não ter fé? Deve ser criticado como um “alienado” pela religião? Logicamente não. E a questão da feminilidade traz a tona um ponto crucial. Apesar de todos serem colegas de trabalho, não muda o fato de que ela é uma entre poucas mulheres no meio de dezenas de homens que estão há meses longe de suas famílias, suas mulheres, e esse ainda é um cenário assustador de estar. A todos os momentos, questões sociais quer internas ao grupo, ou quer referentes ao mundo de cá, da vida urbana, irrompem na narrativa, explicita ou implicitamente. Não há como desviar de uma certa materialidade dos fatos, de que os membros da equipe tem histórias, de que vieram de uma mesma sociedade, a qual traz diversas implicações em suas origens. Não se faz mais possível um exílio da realidade social.

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