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Por Vitor Velloso
Após “Invocação do Mal”, a The Safran Company, notou uma mina de ouro na mão. Na tentativa de competir com a Blumhouse, a produtora investiu massivamente na franquia, realizando uma continuação, mas acabou segmentando em diversas possibilidades os investimentos. “Annabelle” estreou em 2014 e popularizou ainda mais as história dos Warren, protagonistas de “Invocação”. A boneca tornou-se um ícone dessa “fase” do terror contemporâneo e desde então acumula uma bilheteria estrondosa. Porém, se o primeiro longa era frágil, mas decente, as outras tentativas deram luz aos problemas gerais. “A Freira” e “Annabelle 2” são um fiasco, contudo, a bilheteria de ambos, é astronômica. Logo, porque não continuar as produções? “Maldição da Chorona”, lançado este ano. Ano que vem “Homem Torto”. E agora, “Annabelle 3: De volta para Casa”.
Dirigido por Gary Dauberman, roteirista de “Annabelle” e “It”, o novo filme não busca trazer novos ares, mas tenta adicionar mais elementos para futuras franquias. A produção em si é tão secundária, que os personagens possuem um drama superficial apenas buscando a conexão do espectador. Não há expansão na forma como o terror se dá, todas as fórmulas são mantidas, enquanto o primeiro era extremamente genérico, o segundo era falho, mas tinha idéias boas, este terceiro vem na intenção de aproximar-se do primeiro e dar o gosto dos próximos passos da produtora. É uma cena pós-créditos de cem minutos.
Gary estreia na direção realizando o que há de mais formulaico no mercado, tentativas de criar referências dentro do próprio universo, uma busca incessante pela tensão pré-susto, demônios com o visual batido, quase reciclado, exemplo, a noiva. O diretor ainda tenta algum destaque, com planos que não são narrativamente necessários, mas provoca uma falsa tensão no público, pois enquadra locais da ambientação na expectativa de algo surgir. Além disso, insiste em uma trilha pouco usual, em momentos inusitados, um piano enquanto uma personagem tenta abrir uma porta etc. Porém, se entrega completamente à questão mercadológica, então apenas em alguns momentos poderemos ver Gary, de fato, dirigindo. Diferentemente de Annabelle 2, o mais problemático da franquia, mas o que ousa com frequência, Sandberg constrói planos que rompem com uma proposta mais ortodoxa do gênero, gerando uma abordagem inovadora ao terror.
O novo irá flexibilizar a própria identidade cultural e temporal, para gerar novas ameaças, até lobisomem tem. Demonstrando as intenções múltiplas dos produtores, além de flertar com a fantasia, o que aproxima os planos do que a Universal fez um dia.
A encenação vai buscar algumas referências clássicas em sua abordagem, até em Hitchcock, em seu posicionamento de primeiríssimo plano gerando tensão a partir do contexto e do cenário. Claro, realizando de maneira vulgarizada e pouco criativa a linguagem do diretor. Enquanto o longa busca fixar sua misancene em um objetivo esporádico, onde cada local da casa é assumido por uma entidade diferente, percebe-se que as falhas são graves. Não há tensão que auxilie a falta de espacialização da casa, não à toa, muito tempo se perde até que tenhamos, concretamente, o início do terror, pois o excesso de elementos, temporários, são clichês e não ajudam o próprio longa a compreender suas intenções.
Com um roteiro que encontra soluções fáceis e absurdas, buscando um pragmatismo maior, é possível rir de algumas falas e acreditar na demência generalizada dos personagens. Sem contar o design de produção que no clímax, torna-se uma piada constante, com um demônio chifrudo tosco que surge como uma ameaça intensa mas não é capaz de assustar o espectador. A fotografia prende-se ao básico dos anteriores, flat e blasé, com pouquíssima expressividade. Já a montagem, se esforça para manter uma coesão que o diretor não consegue. Acaba sendo medíocre, mas não incomoda.
Os personagens são de uma inexpressividade dramática tamanha, que é ampliada pelos atores pouco motivados. “Annabelle 3 De volta para Casa” é um retrato da incessante necessidade das cifras na indústria de terror. Irá faturar horrores, com perdão do trocadilho, mas prova que a criatividade em abordagem e história tá longe de ser o foco dos engravatados.