Anna

O teatro como essência da condição humana

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2019

Exibido na mostra competitiva de longa-metragem ficção do Festival do Rio 2019, “Anna”, novo filme do realizador Heitor Dhalia, é acima de tudo uma ode à arte de atuar. Uma declaração energética, visceral e catártica aos atores, não só aos que integram esta obra cinematográfica. É sobre a preparação de um papel por um diretor de teatro duro e perfeccionista, fazendo que o público, inevitavelmente, infira explicitamente a Natalie Portman em “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, e/ou “Whiplash: Em Busca da Perfeição”, de Damien Chazelle. E principalmente à fama da preparadora de elenco Fátima Toledo. Há sim, não e talvez ao mesmo tempo. Sim, porque as referências são válidas e condizentes. Talvez por ecoar mais “Vermelho Russo”, de Charly Braun. E não devido que este filme em questão aqui desnuda campos e aprofunda camadas pela sensação metafísica.

“Anna” é uma experiência que se conduz fora do padrão. Sua narrativa invoca a percepção híbrida do documentário e fantasia, ainda que saibamos que tudo apenas espelha a tentativa do real. É um filme sobre a paixão da criação. Sobre mostrar a verdade. Sobre atores em ação que adentram no limites de suas defesas técnicas para assim construir com Método e emoção não encenada seus papéis da peça “Hamlet”, que “fracassa na montagem e é sempre um sucesso”. O “cruel e sádico” diretor do longa deseja o “nirvana” da “essência da condição humana” com a espontaneidade mais pura e primitiva da interpretação, que atinge níveis de “humilhação” e cortes de cabelo “contra atores impostores desrespeitando o palco sagrado”.

O longa-metragem quer nos imergir no limite tênue do etéreo realista e do lúdico projetado, nos adentrando assim na observação analítica (quase sinestesia psicossomática) da loucura absoluta para “encontrar” a personagem, reverberando o Sistema Stanislavski e desconstruindo o acesso condicionado. É suave, intenso, conflituoso, claro, escuro, desestruturado, trovador, moderno, silencioso e histérico ao mesmo tempo. É saltar no vazio. É elevar a máxima do artista francês Yves Klein em gerar autopsias neo-dadaístas. É se perder e ir além até o fundo.

“Anna” também acontece por seu apuro técnico em recriar interação intimista, expondo seus atores ficcionais a quebrar as próprias barreiras, como por exemplo, o que o realizador fez com a atriz Nicole Kidman em “Dogville”. Qual é o limite do permitido que um ator pode ir? Será que conservar a dignidade indica fracasso? O cineasta soviético Sergei Eisenstein talvez consiga responder em seu livro “O Sentido do Filme” quando define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção.

O filme é um semeador do questionamento crítico por mesmo sem pontuar elenca a máxima de o que é ser um ator e para que serve. Será um fetiche de um corpo bonito ou um veículo de acesso à organicidade sensorial de personagens? “Anna” mexe em outra casa de maribondos. Conversando informalmente com atrizes no final da sessão, pude perceber um distanciamento do gostar pelo fato da “exploração comportamental”. O diretor daqui não diretamente foi chamado de misógino por ser homem e por lógica estar mais próximo da figura do diretor de lá. Caros leitores, vamos ligar o menos e tentar aproveitar ao máximo uma obra de qualidade. Sim, há em “Anna” uma sequência de maestrias, especialmente pelos precisos, espirituosos, irônicos, sarcásticos, perspicazes, maduros, embasados, funcionais, utópicos, libertários, sinceros e reacionários diálogos, que constroem uma ponte de ultra-realismo, saudável, resignado, resiliente e mitigado de sensibilidades aguçadas. E aqui a prática “humilhante” pode levar sim à perfeição.

“Anna” também é muito mais que uma simples abordagem sobre os bastidores de um teatro, que podemos lembrar de “Teatro de Guerra”, de John Walter, e/ou “Górgona”, de Pedro Jezler e Fábio Furtado. É muito mais. É sobre a linha imaginária que transforma pretensiosos atores em encarnações vivas e pulsantes de suas personagens. Em “O Comediante Desencarnado”, de Louis Jouvet, sobre suas reflexões de um ator itinerante, a palavra de ordem é vocação. De ator. A primeira que se traz no espírito. “Que mania, que estranha anomalia, que desregramento me reduziu a essa condição de querer e imitar? Qual estranho gosto de inventar, de provocar? É uma desordem humana organizada, um mal entendido fraternal. Pode-se hesitar antes de colocar seu coração nas mãos do público?”, diz seu “fantasma ” ator. Sim, é sobre tudo isso com seus ensaios-epifania e suas suspensões de tempo. Há quem acredite que a perda do equilíbrio imposto como proteção pela vida nos liberta e nos insere em uma novo cosmos, como se fossemos dotados de lucidez e esquecimento. Quando não somos mais nós mesmos, adestrados pelo mundo, podemos ampliar e vivenciar todos os outros.

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