Amor Maldito

Cápsula do Tempo

Por Jorge Cruz

Mostra Sesc de Cinema 2019

O resgate de “Amor Maldito” pela cinefilia nacional cada vez mais encontra pertinência em duas frentes. A primeira, que já se revela o suficiente para conduzir o espectador dedicado a uma sessão do filme, se localiza na História do Cinema Brasileiro. Trata-se de primeira produção dirigida por uma mulher negra e da primeira trama de temática LGBT a ser lançada comercialmente. Adélia Sampaio não apenas conquistou tudo isso na marra, como ainda o fez apenas seis anos após a revogação do Ato Institucional nº 5 e cinco após a Lei da Anistia. O governo civil-militar autoritário respirava por aparelhos quando essa cineasta fincou todas essas bandeiras.

A segunda é a de que todas as abordagens de “Amor Maldito”, verbalizadas em forma de discursos diretos dos personagens, caminham assustadoramente para um retrato tão atual em nossa sociedade, que a certeza de que estamos diante de uma obra de 35 anos se dá apenas pelo envelhecimento flagrante deste produto audiovisual. Sampaio não apenas alcança uma posição negada aos grupos societários silenciados (quando não invisibilizados), como se utiliza da linguagem consagrada pelo sistema para fazer valer seu discurso.

Ao isolar o roteiro como elemento de “Amor Maldito”, podemos observar que a pornochanchada como gênero cumpre o único objetivo de tornar a obra mais comercial, satisfazendo quem gosta de dividir em gavetas de gêneros e temas manifestações artísticas tão inquietas e provocadoras que não é possível nem a ela se autodefinir. Na análise mais bruta, o filme se enquadra mais em um “filme de tribunal”. Sob essa ótica, o roteiro José Louzeiro, a partir de argumento da própria  Adélia Sampaio, é brilhante. Quando aquele entregou seu trabalho para esse projeto, a construção de personagens envolvidos criminalmente com eventos já era uma prática por ele dominada, vide obras como “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), “O Caso Cláudia” (1979) e “O Homem da Capa Preta” (1980).

Por isso que nos é permitido tratar como ironia ou deboche toda a farsa que parece ser o julgamento de Fernanda (Monique Lafond). A cena inicial não deixa dúvida do suicídio de sua companheira Sueli (Wilma Dias), uma informação compartilhada com o espectador para que não se perca energia com tergiversações acerca de dúvidas sobre um suposto assassinato. Mais do que isso, a maneira como a cineasta entrega com detalhes o desfalecimento da personagem torna impossível acreditar que não se comprovasse de forma simples a inocência de Fernanda, bastando para isso uma máquina judiciária isenta e uma sociedade menos sedenta de sangue.

Essa forma do filme se estabelecer como um debate acerca da discriminação sexual do casal só não é menos impactante por conta do abraço apertado que o longa-metragem dá na pornochanchada. As interpretações exageradas, a objetificação do corpo para cumprir a função de cenas de sexo fácil – ainda que menos invasivas e incômodas que o habitual – são usadas de forma reiterada para agradar a um público que hoje não existe. Nesse sentido de incorporação de linguagens, há um vínculo com a maneira como Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles desdobram seu “Bacurau” no celebrado faroeste que não é spaghetti e sim uma pizza mezzo tarantinesca e mezzo glauberiana.

A história tem força e avança quando deixa de lado essa função e passa a tratar de temas que antecipam debates urgentes na atualidade. Há um entendimento da dupla Sampaio-Louzeiro que, de certa forma, rompe com o puro entretenimento sexual da época. Um exemplo é o personagem de Emiliano Queiroz, pai de Sueli e pastor neopentecostal. Ao contrário da maioria das produções do período, que antagonizava as condutas dos protagonistas com personagens ligados ao Catolicismo (padres tarados ou carolas lazarentas), a crueldade se dá em outro líder religioso cristão, de grupos protestantes que ainda se mostravam minorias àquela época. Um afastamento da impureza rodriguiana que imputava à aliança entre os escritos sagrados e as bulas papais a repressão de desejos da sociedade brasileira.

O que mais chama a atenção é que “Amor Maldito” não se vale de intenções, subterfúgios, alegorias ou metáforas. Todos os personagens que participam do processo de Fernanda – e que deveriam servir na qualidade de testemunhas e não julgadores – propagam seus discursos de ódio de forma clara e direta. Uma falta de pudor discriminatório que nos faz pensar os rumos que nossa sociedade está tomando. É até inebriante a maneira como tanto chorume é despejado da boca dos vizinhos e familiares inconvenientes e intrusos ao longo de todo o julgamento, como se estivessem aguardando subir àquele palco para vomitar seus preconceitos materializados na acusada.

A montagem de Eduardo Leone faz com que os flashbacks, responsáveis pelos esclarecimentos acerca do passado do casal em narrativas episódicas, emule o ritmo de um flerte entre pessoas que, mesmo convictas de sua sexualidade, temem a recepção dessa revelação por parte do outro. A opção por seguir os códigos cinematográficos aceitos na época terminam por datar esteticamente o material e o deixam mais próximos de produções moralmente questionáveis. Ultrapassada essa constatação “Amor Maldito” é um caso raro de filme que dialoga com dois grupos: consolida as visões de uma geração questionadora, que não pode ir além por força de uma repressão ignorante; e outra que, perto de atingir respeito em seu autoconhecimento, passa a viver sob o risco de novos silenciamentos. Em tempos onde o julgamento da vida íntima se faz mais importante do que os mais graves crimes, Adélia Sampaio nos conforta com um empoeirado manual de sobrevivência a um mundo intolerante.

 

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