Amarcord

Onde vive a memória?

Por Roberta Mathias

O pôster de “Amarcord” talvez esteja no insconsciente de qualquer amante de cinema. Aquelas figuras coloridas e excêntricas já nos dão ideia da história que será apresentada. O diretor,aliás, tinha particular interesse por cores intensas e pela construção de personagens não tão convencionais( ou medíocres).

Nada na obra de Fellini, que contou com Nino Rota para elaboração do roteiro, passa pela mediocridade. Apesar de ,em um primeiro momento contar histórias que poderiam ser entendidas como simples, como a de um pequeno vilarejo, ele sempre prefere a intensidade. A dramaticidade em seus filmes beira quase , e, por vezes, ultrapassa o absurdo.

Portanto, acaba criando parcerias com atores que entendem sua maneira de transmutar a realidade em fantasia, como Magali Noël que também está em La dolce Vita (1960) e Satyricon(1973).

O neorrealismo italiano não foi construído apenas por Fellini ,mas ouso dizer que sem ele o próprio movimento e sua obra posterior não seria a mesma. Os caminhos que o diretor trilha após o movimento ainda reverberam algo do que aprendeu desse movimento emblemático.

Amarcord talvez seja um dos exemplos máximos de que uma narrativa pode ser construída de diversas maneiras, assim como a vida. Fellini desconstrói a necessidade de uma narrativa linear dando a ver que o caos também apresenta interessantes personagens.

É bem plausível que a experiência do leitor com “Amarcord” seja bem distinta que a minha. Consiste nisso, a riqueza da obra e do próprio movimento neorrealista italiano.  É importante destacar que, embora o filme tenha sido produzido após a guerra e o auge do movimento artístico seu caráter político permanece, pois é na década de 30 que a narrativa se passa.

Ainda que Amarcord não seja propriamente um filme do movimento neorrealista ele reflete ,quase como um daqueles espelhos de circo – ambiente adorado por Fellini- aquelas formas de deformam, ampliam remodelam. Ressignificam. Não eram esses afinal, um país e um mundo que precisavam pensar em sua reconstrução?

Fellini que, como dito adorava a atmosfera circense, se coloca entre o real e a fantasia. Não como um simulacro- o que seria simplificar bastante a obra do autor-, mas como uma das múltiplas possibilidades de realidades paralelas de reconstrução que habitavam sua cabeça.

No neorrealismo, ele começou a exercitar esses mundos, mas eles emergem com mais força e de maneira mais vigorosa a partir da década de 60.

“Amarcord” transita entre a comédia e o drama. A cidadela de “Amarcord” parece um sonho com personagens que falam diretamente ao espectador e atuam de maneira exagerada. Há sempre algum elemento estranho que, no cinema de Fellini, se encaixa perfeitamente.

O diretor brinca: seriam os personagens absurdos ou seria a nossa própria realidade absurda demais para ser replicada em uma tela?

O mérito do artista está em nos convencer de que em algum lugar vivem aquelas personagens. Ainda que a fotografia seja extremamente contrastada, as roupas ofuscantemente coloridas e as atuações amplificadas. Flautas, fogueiras, danças, roupas inadequadas para ambientes frios. Tudo é possível através das retinas do jovem Titta. Seriam memórias reais de um Fellini jovem?

Muito já se falou sobre “Amarcord” ser ou não uma autobiografia (Amarcord= eu me lembro). Porém, talvez ele simplesmente seja uma mescla do que apresenta: situações que já não podemos mais definir se foram ou não reais.

Afinal, a memória prega peças. O cinema de Fellini vive em um mundo no qual não cabem definições objetivas sobre real e imaginação. Durante toda sua obra, o diretor trabalha no limiar entre o consciente e o inconsciente (e aqui, um psicólogo poderia falar melhor que eu) , mas é dessa indistinção e do quase caos que se alimenta o diretor. Não seria diferente em “Amarcord”.

Por isso, acho que mais do que revelar o que foi vivido pelo garoto Fellini, ou não, o espectador deveria estar atento às experiências sensoriais que o filme possibilidade.

Se ainda assim, essa questão permanecer na cabeça você estará perdendo a oportunidade de experenciar algumas das obras mais sinestésicas do cinema. Pois, ver Fellini é TAMBÉM, isso: sair com o corpo esmaltado de experiências.

Agora, um pouco mais segura do percurso que tracei, digo: quiçá a memória viva na experiência. Acredito que “Amarcord” só pode ver vivido na experiência. O cinema de Fellini nos faz atravessar caminhos tortuosos para chegar ao final sem saber exatamente de onde saímos e onde iremos desembarcar. Não é um trajeto fácil e tampouco revela suas relações de imediato. É um cinema que, apesar de extremamente ágil, requer tempo para revelas suas simbologias e angústias. Tal qual a vaca nietzschiana, deveríamos ruminar Fellini, dar tempo para que seu cinema se transforme em outra coisa em nosso corpo.

Assim, chegaríamos não a uma resposta, mas ampliaríamos nossa própria experiência de vida como parecia querer o diretor.

Trailer

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