Mostra Um Curta Por Diq mes 13

Air: A História Por Trás do Logo

O Ar do Corpo

Por João Lanari Bo

South by Southwest Film Festival 2023

Air: A História Por Trás do Logo

Por que falo, respiro e contemplo o astro solar, posso eu ser ingrato e não ser reconhecido?

Foi ele quem fez com que a minha vida não acabasse nas fauces de Ciclope

Metamorfoses, Ovídio

Air: A História Por Trás do Logo”, finalizado em 2023, foi lançado nos cinemas das capitais desse mundo globalizado em que vivemos – globalizado e hierarquizado, sublinhe-se – e é resultado da parceria de longa data de Ben Affleck e Matt Damon, desde os tempos em que ambos circulavam no estrato working class da periferia de Boston. Dirigido pelo primeiro e estrelado pelo segundo – Affleck é um dos coadjuvantes – o filme tem um enredo simples e direto: trata-se de um convite para o público entrar na sede da Nike e conhecer a história por trás do popular tênis que foi construído exclusivamente para o lendário atleta que fornece o nome, Michael Jordan.

Air Jordan, o nome do tênis – hoje são 37 variações com a mesma marca disponíveis para os ávidos consumidores, seduzidos pela promessa de flutuação aérea para quem calçar o divino calçado, simples promessa, tal como nas narrativas míticas em que os gregos excediam, sempre vibrantes na cultura ocidental. Se focalizarmos na cultura oriental, também não faltarão alusões a mitos voadores – o mito da levitação é global, ninguém escapa. De alguma forma, o ar do tênis transmuta-se em ar do corpo e seremos todos capazes de alçar voos espetaculares tal como Michael Jordan. Estamos no reino da mitologia: não é coincidência que Nike, a detentora da marca, era uma deusa grega que personificava a vitória, força e velocidade, representada por uma mulher alada, filha de Palas e Estige.

E não é coincidência também que é o cinema, no caso o norte-americano, quem vai revisitar esse mito fundador e celebrar o … capitalismo! Sim, porque o que move a narrativa é a celebração de um deal, um contrato comercial, ocorrido em 1984, que gerou bilhões e bilhões de dólares, influenciou comportamentos e hábitos de consumo, e ajudou a construir essa percepção difusa de globalização que anima campanhas publicitárias ligadas ao esporte mundo afora. O volume de recursos em torno dessas, digamos, atualizações mitológicas, é assustador: um pouco antes da Copa do Mundo de 2022 – esse sim, o futebol, esporte globalizado – a Nike lançou o comercial “Footballverse” simulando um embate entre os craques Ronaldinho Gaúcho e Mbappé, com vários extras igualmente célebres. Quem financiou “Air: A História Por Trás do Logo”, por seu turno, foi o magnata Jeff Bezos, da Amazon: não se tem notícia de participação da Nike, pelo menos não consta dos créditos. Uma celebração do capitalismo, enfim, como sistema gerador e distribuidor de riqueza: Air Jordan foi um dos primeiros, senão o primeiro, contrato que garantiu percentual sobre vendas para o atleta – no caso um negro – que banca o nome da marca. Segundo informa cartela ao final do filme, Michael Jordan fatura 400 milhões de dólares por ano com o acerto que sua mãe exigiu.

E o filme? A direção de Affleck acerta nos planos aéreos e closes que permitem performances de artistas carismáticos como Viola Davis e Chris Tucker, eficientes como Jason Bateman e Chris Messina. Para sintonizar a época, incluiu hits musicais e cenas de comerciais famosos, videoclipes e, naturalmente, jogos de basquete, com destaque para as façanhas de Jordan. Mas reservou o papel principal e condutor da trama ao amigo Matt Damon: é ele quem personifica Sonny Vaccaro, o guru do basquete, perito em descobrir talentos e transformá-los em máquinas de ganhar dinheiro. Quando o conselho da Nike começou a questionar a relevância de sua posição na Nike, Vaccaro procurou fazer algo altamente arriscado: contratar o novato do Chicago Bulls, Michael Jordan, para mudar o jogo. Em um dos melhores papéis de sua carreira, Damon passa boa parte do tempo no telefone com o agente e a mãe de Michael. E dialogando com seus superiores na empresa, Rob Strasser (Bateman) e Phil Knight (Affleck), o bilionário fundador e principal acionista da Nike.

Air: A História Por Trás do Logo” é dessas produções em que tudo parece estar no lugar certo. Não faltam ironias: rápidos interlúdios revelam os princípios filosóficos estilo autoajuda que nortearam a ascensão da empresa, sacados da cabeça fake zen de Phil, tais como:

nosso negócio é mudança

estamos no ataque o tempo todo

você será lembrado pelas regras que quebrou

se fizermos as coisas certas, ganharemos dinheiro quase automaticamente

etc

Ao fim e ao cabo, só resta a adesão, diria a sabedoria popular.

4 Nota do Crítico 5 1

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