A Voz Suprema do Blues
Uma despedida carismática
Por Vitor Velloso
Netflix
“A Voz Suprema do Blues” de George C. Wolfe, exibido pela Netflix, é uma obra que se torna destaque no fim do ano de 2020, tanto pela ausência de grandes concorrentes no ano, como pela morte de Boseman. É claro que há muita gente lucrando em torno da fatalidade, mas o longa não faz questão de tornar-se homenagem, para além da própria interpretação de destaque do ator. O projeto é baseado na peça homônima e não busca se distanciar da estrutura teatral, pelo contrário, assimila a estética como uma espécie de espaço limitador para ação em estúdio se desenrolar. A escolha abre uma necessidade de sustentação da obra em torno de seus personagens, mais que apenas o texto, as interpretações.
E é exatamente onde “A Voz Suprema do Blues” consegue brilhar. O elenco composto por nomes como Viola Davis, Chadwick Boseman, Colman Domingo e Glynn Turman consegue sustentar a projeção até seu fim, concebendo esse palco/estúdio como única ação possível da forma cinematográfica. Dessa maneira, a linguagem se vê em necessidade de manter-se sempre próxima aos diálogos, transando o teatro e o cinema na misancene que detém suas próprias representações. Em verdade, a alternativa compromete um bocado o ritmo do filme, que apesar de manter-se interessante, se consolida majoritariamente em torno das intrigas e histórias contadas entre os membros da banda. Contudo, não há uma construção que consiga sustentar a imponência da personagem de Viola Davis, o tom teatral soa excessivo, sentimos o peso de Ma em cena, pela interpretação da atriz, mas o filme parece estar apenas a registrar as ações.
Contudo, se essa articulação não sustenta os esforços de construção da narrativa, a música solidifica um pouco a soltura do projeto. O tema que costura sua narrativa vai surgindo como uma projeção dramática e as cenas musicais passam a relacionar questões exteriores à esse palco/estúdio com as questões internas, que somadas aos acréscimos da oralidade, são os verdadeiros pilares de funcionamento de “A Voz Suprema do Blues”, mais uma tradição que o longa assume de sua transcriação teatral. E neste momento, Boseman passa a ser figura central na obra, que vai somando histórias e criando um mosaico de passados para cada um de seus personagens. As relações de poder são monumentos erguidos durante a exibição do filme, não apenas entre os embates sociais e étnicos, mas diretamente sobre a noção de poder em si, uma hierarquia que está no âmbito material, estrutural, reforçando os jogos de dominação.
E novamente, o excesso de recortes, por conta da peça teatral, acaba fragilizando parte dessa construção, pois não é possível sentir que Ma é a entidade que o filme busca. Por outro lado, é possível vislumbrar que Viola Davis é o trunfo do longa, sendo o maior pilar para a própria montagem, que encontra porto seguro sempre que a atriz entra em cena, se tornando centro de gravidade para o “caos” da banda. George C. Wolfe não faz questão de realizar um movimento de traição com a obra original, para poder distanciar-se brevemente da estrutura narrativa, pelo contrário, se apega cada vez mais às breves resoluções da cena a partir do próprio cenário. Não à toa essa noção do palco/estúdio remete diretamente à “Um Limite Entre Nós”, produzido pela Escape Artists, com intensa participação de Denzel Washington na produção.
Essas produções que transam com o teatro possuem uma força particular e única até, mas se veem facilmente seduzidas por um idealismo formal onde essa relação se fragiliza por não compreender os modos de se trabalhar com as distâncias entre as linguagens. Assim, os projetos vão se somando e possuem uma relação ambígua com o próprio texto, pois se curvam excessivamente às padronizações dessa estrutura narrativa. “A Voz Suprema do Blues” consegue cativar pelas atuações centrais e por uma questão memorial com a figura de Boseman, com desenvoltura ímpar e carisma retumbante, mas permanece frágil no modo como opera sua estrutura e na articulação de suas verves dramáticas com o próprio cinema. O destaque, como sempre, é Viola Davis que consegue se sobressair com vigor ao fim da projeção.