A Vida de Diane

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Devaneios da terceira idade

Por Michel Araújo

Os dramas da terceira idade costumam trazer um certo espaço vazio na narrativa, em vista da construção dos personagens partir de uma idade já avançada. Normalmente ele é preenchido com flashbacks, diálogos, ou mesmo ignorado em função de um drama que se passa no presente, o qual é muito mais relevante que o passado da personagem em questão. Entretanto, em “A Vida de Diane” (2019), nem o presente nem o passado parecem ser questões muito bem pontuadas. O filme se organiza de maneira episódica, com pequenos arcos que vão se fechando de maneiras não muito certeiras, ou impactantes. A rarefação da narrativa se mostra mais coerente em filmes cuja forma abraça a contemporaneidade da saturação da linguagem e do imaginário cinematográfico, o chamado cinema fluxo. Já se tratando de filmes que se enquadram na forma do clássico-narrativo, essa rarefação ou liquefação da narrativa, a qual não é total, mas apenas parcial, porém sem explorar os corpos e o espaço numa instintividade curiosa e fenomenológica.

Em “A Vida de Diane” (2019), dirigido por Kent Jones, acompanhamos a fase final da vida de uma mãe solteira, Diane (Mary Kay Place, “O Homem Que Fazia Chover”, “O Reencontro”), que luta para lidar com os estresses e o desgaste da terceira idade. Seu filho está imerso no mundo das drogas e uma de suas melhores amigas está com câncer. Ela trabalha ocasionalmente numa cozinha para pessoas necessitadas. Há uma conjugação de diversos fatores dramáticos que não são propriamente explorados num regime clichê, mas os quais remetem a diversas outras narrativas cinematográficas. A resolução desses arcos – e a maneira como a própria Diane eventualmente lida com sua sobrecarga de estresse e angústia -, não ressoa de maneira muito convincente ou sólida. O filho eventualmente se redescobre como um semi-fanático religioso. A amiga eventualmente morre e não parece haver um grande impacto nesse momento. Todos os eventos são acúmulos de pequenos vazios, os quais não são explorados na melhor potência do que constitui um “vazio cinematográfico”. É apenas uma narrativa clássica a qual não se estrutura com solidez em sua narratividade e nem num distanciamento da narrativa para a exploração da forma do filme pura e livre.

Mais adiante há momentos de torpor emocional e nulidade em que Diane abraçará o vazio e irá se entregar a autoflagelação e vício. Primeiramente há uma cena em que ela se embriaga e é expulsa de um bar, e fica a chorar na calçada. Depois, mais ao final, após brigar com seu filho crente, ela irá usar heroína. Há um quê de niilismo que paira sobre a personagem, o qual não se vende muito bem, considerando a índole da protagonista no restante do filme. A cena do uso de heroína se dá faltando cerca de dez minutos para o fim do longa, e no entanto, não há peso atribuído a mesma, não há consequências narrativas, e não há choques estruturais na história. O almejado talvez fosse um impacto visual, mas o resultado efetivo é um espaço em branco na narrativa. O que, não é propriamente um defeito, mas não fica muito claro a intencionalidade por trás.     

A história inicialmente parece que vai se encaminhar para alguma resolução quer trágica quer otimista, mas o que sucede são devaneios episódicos ao longo da vida de Diane nos quais ela irá se confrontar com problemas, estresses e angústias, porém não obtendo uma resolução – e o que aqui se entende por resolução não é sinônimo de “solução”, mas de um desfecho emocional definitivo para a personagem. Os momentos em câmera lenta parecem ambicionar novamente uma liquefação, dilatação do filme, mas não se empenham em enquadrar ou construir um movimento de câmera atrativo para desempenho da narrativa visual. A construção da personagem é o de um estado absorto, desprendido, a realidade ao seu redor não lhe afeta ou impregna de qualquer forma, porém o filme em si abraça com muitas moderações esse estado espiritual e torna demasiado complicada a conexão para com essa personagem ou essa atmosfera de dissociação. Quer o filme tivesse realmente arregaçado as mangas para na imagem do vazio dessa personagem diante do mundo o qual lhe era tão caro mas agora em seu momento derradeiro não lhe causa qualquer afeto, quer o filme esgarçasse a plasticidade do som e da imagem tal como a personalidade da personagem, o efeito sensório – mesmo que não propriamente dramático – seria muito mais intenso.   

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