A Suspeita

Memórias e realidades vulneráveis

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Gramado 2021

De fato, o maior bem que um ser humano enquanto indivíduo social pode ter é sua memória, ainda que expressada dubiamente entre os campos cerebrais do que é realmente verdadeiro, do que é mascarado por proteção e do que é projetado do querer ser. A neurociência é quase categórica em afirmar que a maioria do que pensamos se constitui em mentira. Nossa mente prega peças, desconstrói atalhos, duplica sinapses, confunde caminhos. É uma confusão só. E o vilão desse tesouro acumulado que guardamos pode chegar sem avisar: o Alzheimer, uma doença neurodegenerativa, causando deterioração cognitiva e da memória de curto prazo. Essa vulnerabilidade mental “rouba” a razão. Agora, imagine a cena: uma comissária da inteligência da Polícia Civil começa a sofrer esses sintomas durante uma investigação de seu último caso antes de se aposentar. Mas Luiz Eduardo Soares não quis deixar isso somente na ideia e escreveu o argumento que serviu de base a seu roteiro, junto de Thiago DottoriNewton Cannito, do filme “A Suspeita”, estreia na direção de Pedro Peregrino, e que abre a competição oficial do Festival de Cinema de Gramado 2021.

Exibido no Canal Brasil, “A Suspeita” não quer só a parte neurocientista e sim amalgamar paralelos críticos sobre a corrupção na polícia do Rio de Janeiro, lugar em que o filme se ambienta. Ainda que a estrutura narrativa se dobre aos gatilhos-artifícios comuns e característicos do gênero policial; ainda que busque a facilitação didática da compreensão por explicar tudo (especialmente por reiterar falando o que se vê e/ou se lê), soando como um capítulo de uma novela; ainda que caia nas próprias armadilhas estéticas criadas para se diferenciar, como ângulos espelhados e câmeras lentas desfocadas, respiradas e acompanhadas; ainda que haja urgência afobada em vários momentos interpretativos, ainda assim, este longa-metragem mostra muitos pontos positivos. Um deles é sem dúvidas a construção do papel da protagonista Lúcia, encarnado por Gloria Pires, que em 2013 recebeu o troféu Oscarito do Festival de Cinema de Gramado. A atriz, assumindo também a função de produtora, molda detalhes e particularidades da personagem, internalizando o papel, ainda que, expressão esta que um tanto quanto recorrente, traga vícios práticos e saídas fáceis para ter que lidar com seus coadjuvantes (muito provavelmente do seriado “Segredos de Justiça”, interpretando uma juíza e dirigida por Pedro, o diretor daqui). Algumas contracenas soam mais naturalistas, como por exemplo, com Charles Fricks e Gustavo Machado. Outras não tanto.

Outro ponto positivo mostra-se pela montagem, de Joana Collier, que trilha a atmosfera mental, em super close, pela perspectiva de Lúcia, criando elipses e lapsos temporais, frutos da doença diagnosticada cedo demais. “A minha memória vai reviver através destas palavras; estarei mais aqui enquanto escrevo, do que lá enquanto leio; escrevo para minha memória resistir”, a cena inicial, ainda que queira “reinventar a estética roda” com um que de informação chave prévia, soa ingênua e deslocada. “A Suspeita” parece que incorporou as sinapses desestruturas também na finalização do próprio filme. Nós entendemos que o objetivo é tentar manipular o espectador e aceitamos o desafio. Mas o roteiro acha que não somos capazes de ligar os pontos e chegar ao resultado. Assim, mastiga tudo e muito, impedindo até que paremos de pensar. O próprio longa-metragem faz esse trabalho. Contudo, outra expressão bastante usada aqui, por mais que os clichês novelescos (digressão autoexplicativa), os literais arquétipos maniqueístas e as “drogas pesadas do adoçante” queiram arrombar a porta e sequestrar a mente do público, Gloria Pires, ou melhor, Lúcia, não deixa. Mesmo com o Alzheimer em rápida evolução, mesmo sozinha, mesmo segurando nas costas uma investigação inteira a fim de proteger sua reputação, a policial comprova o poder que tem. A maestria de ser atriz. A força de se transmutar. Em descobrir que sem sua memória não há mais nada. Toda uma vida entrando em um vazio. “Quanto tempo de lucidez ainda tenho?”, pergunta e recebe  a resposta que “ficará muito vulnerável na sua integridade física”.

“A Suspeita”, com um que de “O Outro Lado da Rua”, de Marcos Bernstein, cria uma natural tensão iminente de quando ela se esquecerá. De quando tudo mudará. O apagão virá quando estará dirigindo? Em casa? É aí que mora todo o mistério e todo o timing do filme. Ainda que continue mostrando a favela como um “antro” de errantes e traficantes; ainda que apele ao “jornalismo e memória” (“Sem memória não existe país”); ainda que os diálogos piorem beirando o piegas; ainda que o plano final soe como um exercício de uma aula de cinema de uma faculdade (indicando uma metalinguagem “Quando Anoitece”, argumento original de Luiz Eduardo Soares), ainda assim “A Suspeita” mantém os méritos montanha-russa desse Thriller policial, que inclui filmagens na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

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