A Segurança Interna

Vigiar e Punir

Por João Lanari Bo

Mubi

Christian Petzold alcançou com “A Segurança Interna”, de 2000, o prêmio de melhor filme no Oscar da Alemanha: no ano seguinte, levou o da associação de críticos alemães; antes, frequentou a academia de filme e televisão de Berlim, conhecida pela sigla DFFB, onde estudou com Harun Farocki (corroteirista de “A Segurança Interna”) e Hartmut Bitomsky, próceres de uma prática materialista do cinema. Petzold já havia feito três longas para a TV quando rodou o roteiro escrito com Farocki, cuja sinopse é esclarecedora:

Clara e Hans são terroristas de esquerda procurados pela polícia há quase quinze anos. Sua filha cada vez mais rebelde, Jeanne, começa a representar uma ameaça à segurança deles quando se apaixona por um garoto que conheceu na praia.

Hoje em dia a palavra “terrorismo” aparece, sobretudo em países europeus, associada a organizações muçulmanas. Não era assim, no passado próximo, em solo alemão: A “Fração do Exército Vermelho”, também conhecida como RAF ou Grupo Baader-Meinhof, foi uma organização de extrema-esquerda, fundada em 1970, na antiga Alemanha Ocidental, e dissolvida em 1998. Seus integrantes se autodescreviam como um movimento de guerrilha urbana comunista e anti-imperialista. Durante três décadas de operações, o grupo foi responsabilizado por 34 mortes, incluindo altas autoridades e danos colaterais (motoristas e guarda-costas), além de sequestros, ataques a bomba, e assalto de bancos. A maioria de seus cerca de 2 mil integrantes, divididos em três gerações, era de jovens de classe média. Algumas dessas ações utilizaram dispositivos sofisticados, como fotocélula infravermelha para detonar carros blindados; em 1991, a autoridade que comandou a privatização dos ativos econômicos da Alemanha Oriental (RDA) foi uma das últimas vítimas da RAF. A unificação alemã, em outubro de 1990, neutralizou o apoio que a Stasi, polícia secreta da RDA, prestava ao grupo, e contribuiu para sua dispersão.

A descrição é longa, mas fundamental para vislumbrar a atmosfera que permeou a dramaturgia de “A Segurança Interna”. Ela, a atmosfera, paira sobre as decisões dos personagens em sua rota de fuga; sobre as alternativas imaginárias de escape, que arrolam um exílio no Brasil; e até sobre as expressões corporais dos atores, suas falas, momentos afetivos, dores, medos. É como se o olhar que organizou a narrativa fosse uma versão digital do panóptico, aquele termo concebido por Jeremy Bentham, em 1785, para designar uma penitenciária em que um único vigilante vigia os presos, sem que estes percebam – Michel Foucault ampliou o conceito para descrever o sistema moderno de poder, um estado de vigilância permanente que prevalece no corpo social, sem zonas de obscurantismo. No filme de Petzold, a pressão da vigilância invisível aguarda Clara, Hans e Jeanne em cada esquina, em cada quarto de hotel: as interações sociais dos personagens são mostradas muitas vezes com a perspectiva de câmeras de vídeo, algumas ostensivamente a partir de câmeras de vigilância. A linguagem adquire uma função política – o objetivo é recordar ao espectador a onipresença da vigilância estatal e do controle automatizado na vida diária. Estamos em um road-movie político: em deslocamento permanente, a família vê-se perseguida pelo panóptico foucaltiano, acumulando a paranoia do exterior policialesco com a intimidade afetiva de vidas sob tensão. A ação de punir aparece sorrateiramente, inesperada: mal dá tempo de fugir. Mas o rosto da repressão nunca se revela: sem rosto, sem olhos, sem boca.

Quem procura, afinal, Clara e Hans? É o Estado, certamente, a entidade responsável pela atmosfera repressiva cujo modus operandi de controle passa pela captação e circulação de imagens, em contínuo processo de aperfeiçoamento graças aos avanços da tecnologia digital – basta lembrar as soluções contemporâneas de reconhecimento facial, que permitem identificar suspeitos em um estádio lotado de futebol. “A Segurança Interna” traz para o primeiro plano a contiguidade de consumismo e vigilância estatal: Jeanne move-se em shopping centers, enquanto seus pais planejam assaltar o banco, local óbvio de vigilância. Talvez o aspecto mais contundente (e estranho) no filme de Petzold seja essa promiscuidade de registros visuais – até a conclusão do filme, que é quando os espaços dramáticos finalmente se cruzam, a emboscada final.

Petzold e Farocki escreveram um roteiro que evita romantizar situações e personagens: seria fácil fazê-lo, em um tema de alta sensibilidade como esse. Optando por uma narrativa linear, “A Segurança Interna” sugere um melodrama político, entendido como expressão histórica das negociações afetivo-emocionais da classe média, imerso em uma época conturbada. Com esse belo longa, o diretor logrou seu breakthrough no cinema.

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