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A Sala dos Professores

Zero Conduite

Por João Lanari Bo

Festival de Berlim 2023

A Sala dos Professores

A utilização das salas de aula como espaço dramático no cinema não é novidade – Jean Vigo fez um clássico nesse filão, lá pelos idos de 1933. As salas funcionam como microcosmo social, lugar onde pairam, adormecidos ou não, conflitos étnicos, conflitos de gênero e luta de classes, para usar um jargão marxista. As escolas, instância muitas vezes criticada, mas, pelo menos por ora, insubstituíveis – a não ser para os adeptos do polêmico homeschooling – seguem como instrumento básico de formação educacional. Agora, imagine-se uma escola secundária alemã de médio porte, sem problemas financeiros visíveis, embora com fissuras latentes que podem espraiar-se com a velocidade de um incêndio devastador. Esse é o cenário de “A Sala dos Professores”, terceiro longa-metragem do diretor alemão-turco Ilker Çatak – um thriller dramático, que provoca no espectador uma familiaridade estranha e eficaz, uma quase-memória sensorial que remete a carteiras escolares, mas também a relações de poder, entre alunos e alunas, professores e professoras, e a infalível diretoria.

Talvez a principal diferença de “A Sala dos Professores” com as demais produções desse subgênero seja – o mais óbvio possível, o roteiro. Çatak e seu antigo colega de escola Johannes Duncker inspiraram-se em um incidente real dos tempos de estudantes – uma acusação de roubo, que irradiou uma onda de desarticulação estrutural, rompendo liames pessoais e educacionais – para escrever o arcabouço do filme. Inteiramente focada no ambiente escolar, a narrativa é puxada pela professora idealista Carla (Leonie Benesch, excelente atuação), personalidade carregada de boas intenções e princípios disciplinares, a um só tempo rígida e afetuosa – mas também vulnerável emocionalmente. No primeiro episódio de um suposto furto, a suspeita caiu sobre aluno filho de pais turcos – Carla, polonesa e também imigrante, dividiu-se entre a possibilidade de viés preconceituoso na suspeita, alertada pela mãe do aluno, e a necessidade da manutenção da ordem, cobrada por colegas professores intransigentes.

A opção de fazer com que tudo acontecesse em um só lugar, a escola, se impôs: eliminamos toda a exposição e entramos direto na ação, disse o diretor. Para conseguir uma consistência estética dentro dessa limitação, optou também por restrições nos demais níveis, como na fotografia – câmera ágil com variação cromática contida e expressiva – e na música, construída apenas com um tipo de instrumentos. Quero que você crie algumas músicas, bem reduzidas, apenas instrumentos clássicos, não mais que quatro. E quero que você crie tensão, como uma neurose, foi a orientação dada por Çatak ao compositor da trilha, Marvin Miller.

Nessa toada, corredores e banheiros tornam-se locais desconfortáveis, de contornos chapados, eventualmente com excesso de luz, como se o espaço não comportasse qualquer possibilidade de revelar alguma saída, algum esclarecimento. A coisa se complica com o segundo roubo, na sala dos professores – desta vez a vítima é a própria Carla, que deixa o notebook ligado e flagra o braço de alguém no exercício de pickpocket. A sala estava vazia, a câmera do aparelho ligada e é possível identificar a roupa de quem executou o ato. Confrontada, a suspeita nega enfaticamente a acusação – e, pior, transfere a sua indignação para o filho Oscar, que vem a ser o aluno preferido de Carla. A deterioração do ecossistema escolar se instala em todos os seres que compartilham aquele espaço – a turma, que se engaja numa solidariedade a Oscar, logo amplificada no jornal estudantil do estabelecimento; e os professores, que hesitam na adoção de medidas enérgicas, em função de constrangimentos legais, como captar imagens não-autorizadas de funcionários, e se desentendem. Afinal, quem detém a verdade?

Nessa altura do campeonato, a trama de “A Sala dos Professores” escala para um suspense de solução imprevisível. Todas as decisões tomadas são, aparentemente, as piores decisões, não apenas da Professora Carla, mas de todos os envolvidos. É como todos estivessem sendo atraídos para um poço sem fundo, onde o que prevalece é a ruptura do tecido social da escola. Daquelas situações-limite onde não existe frieza racional para analisar saídas, somente um grito primal coletivo é capaz de interromper o turbilhão desagregador.

Ninguém é apenas vítima ou apenas perpetrador. Todo mundo é as duas coisas e é assim que ele (Ilker Çatak) vê a vida. Ele nunca está interessado em apenas uma cor – diz a atriz Leonie Benesch sobre o diretor. O mundo não é mais o black & white moral que balizava o sistema de educação – o mundo agora é o da pós-verdade, cheio de nuances, até mesmo na sala dos professores.

3 Nota do Crítico 5 1

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