A Nuvem Rosa
Um registro-crônica profético de uma época presente
Por Fabricio Duque
Durante o Festival de Sundance 2021
O mais curioso-assustador do longa-metragem “A Nuvem Rosa”, único integrante brasileiro da edição online do Festival de Sundance 2021, não é apenas por ser um filme-profecia, de prenúncio da crise pandêmica do Coronavírus, e sim, por listar literal e veridicamente as consequências do isolamento, com todas as suas especificidades. Dirigido e roteirizado pela estreante sulista Iuli Gerbase (após seis curtas-metragens), esta obra explicita na introdução de que foi “escrito em 2017 e filmado em 2019” e que “qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência”. Sim, mas é inevitável ao espectador que a referência com o presente cause espanto, devido o alto grau de realismo, ainda que traduzido como uma fantástica ficção-científica. E que também desperte a esperança de que “tudo poderia ser pior”.
“A Nuvem Rosa” conduz-se por uma narrativa naturalista. De estilização caseira. De realidade cotidiana. De dia-a-dia possível e coloquial, passeando, atravessando e permitindo acasos, aceitações, pessimismos, estágios depressivos, euforias, confissões, resiliências, desesperos, vulnerabilidades, impulsos e, principalmente, loucuras despertadas. O que assistimos é o próprio ser humano aprisionado em suas próprias vidas, sem conseguir exercer a função de indivíduo social. Sim, há quem acredite que se o Covid-19 não conseguiu trazer humanidade às pessoas, quem sabe a Nuvem do filme possa. Radicalidades à parte, busca-se aqui a sinestesia orgânico, pela ambientação claustrofóbica, que obriga a aproximação-intimidade. Nós somos imersos em um estudo-comportamental-cobaia de um casal que acabou de se conhecer. E que após a chegada “gás tóxico que mata em dez segundos” tornaram-se “casados” para a vida inteira. Ou até que o fim da Nuvem os separe.
Entre os anos do processo “A Nuvem Rosa”, o filme “O Último Suspiro”, de Daniel Roby, foi lançado e contou a história sobre um nevoeiro misterioso e mortal envolve Paris, sobreviventes se refugiam nos últimos andares e nos telhados dos prédios da capital. Assim como o francês, aqui, que ensaia uma sutil referência com a Torre Eiffel, também não suaviza seu final. É duro, direto, pragmático e realista. Ligações por vídeo-chamadas; compras pela internet (entrega pelo tubo e o aumento dos preços por demanda); memes de comparar a “nuvem assassina” a uma “cachaça de três reais” (e/ou a “noção do ridículo” de comemorar aniversário da Nuvem – mas talvez o Covid não mereça festa; e/ou o “encontro de almas-gêmeas”); aprender novas habilidades, como cozinhar; as questões consequentes, profissionais (de um quiropraxista que não tem renda se “não tocar nas pessoas”), de ter ou não ter filhos (“Ter um filho para cuidar de você quando você ficar gaga?”), de como fazer se morrer; e até mesmo discussões de relacionamento (ora para passar o tédio, ora por enjoar de estar junto o tempo todo com o outro), tudo importa a própria vida. E a atmosfera de Porto Alegre. É como se estivéssemos vendo um livro de Daniel Galera. “Nuvem é castigo?”, pergunta-se.
“A Nuvem Rosa” é sobre o medo de não poder viver os sonhos, como a existência de crianças, que se acostumaram a viver dentro e que já nasceram na “bolha”. Este é também uma parábola-crônica. Uma evocação espontânea de auto-ajuda. De que a vida é simples. De que não precisamos de quase nada para viver. De que o equilíbrio e manter a rotina ajudam. De que se pode fugir em realidades virtuais paralelas. De que tudo é possível. Nós aqui perdemos as rédeas de nossos limites e lógicas tradicionais. O confinamento é universo autônomo. Independente de regras e conservadoras convenções sociais. Fotografia (por Bruno Polidoro, de “Bio”, “Nós Duas Descendo a Escada”, montagem (por Vicente Moreno, de “Raia 4”, “Dromedário no asfalto”, música (por Caio Amon), desenho de som (por Kiko Ferraz e Chrístian Vaisz), todos os elementos amalgamam a própria técnica, cadenciando o ritmo sem “barrigas” e “buracos” narrativos por um potente encontro.
Mas nada disso funcionaria se não fosse a interpretação. Os atores não encenam seus protagonistas, apoderam-se deles. Renata de Lélis (a Giovana, de “Ainda Orangotangos”) e Eduardo Mendonça (o Yago, do seriado “Alce & Alice“) seguiram à risca os ensinamentos do cineasta soviético Sergei Eisenstein, em “O Sentido do Filme”, que define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. E como toda reação é um efeito-cascata, os coadjuvantes entregaram-se no mesmo nível, (des)amarrados da performance do criar. Não, nunca é demais para enaltecer a maestria de fluir tempo e movimento. Contemplação editada e agitação mise-en-scène. Com tensão e com nosso aprisionamento consentido. Quase cúmplice. Concluindo, “A Nuvem Rosa” é um documento obrigatório de confrontação-questionamento. Um registro de uma época. Mas uma pergunta fica fica no ar: a diretora Iuli Gerbase conseguiu viajar ao futuro ou recebeu uma ideia premonição?