A Montanha Mágica

Petrus e suas alturas

Por Fabricio Duque

Ano de 2009. Petrus Cariry filma seu primeiro curta-metragem em 35mm. “A Montanha Mágica” apresenta-se como um filme memória de fragmentos “contados” de que o realmente aconteceu, “foi desse jeito”, em que a narrativa ficcional apropria-se livremente da realidade. Tudo por causa da movimentação do elemento tempo, quase etéreo e metafisicamente imagético, quando atravessa a própria percepção do cotidiano.

Sim, o conhecimento empírico já nos mostra que todo e qualquer início se estabelece pela invocação do passado. De se tentar reproduzir fielmente lembranças, sons, cores e rememorar o lugar de parte da infância, que não mudou e que ainda é possível “sentir o cheiro da gráfica que ficava próxima”.

“A Montanha Mágica” que remete uma roda-gigante, talvez pela liberdade desmedida e pelo medo (aquele frio na barriga) protegido de se estar no alto. Seu realizador quis “falar dos parques de diversões que estão sumindo, falar da infância da nossa infância e de um tempo perdido mesmo”. Pois é, há quem diga que o tempo não existe, porque quando estamos nele já não é mais presente. A complexidade peremptória é a linha condutora do curta-metragem em questão aqui.

Sua narrativa convida o espectador a vivenciar uma experiência. Uma epifania compartilhada. Uma viagem por sensações. Por uma imagem desfocada, cotidiana, espontânea, orgânica e meticulosamente estética, especialmente pela fotografia de Ivo Lopes Araújo que em película ganha a forma atemporal de um realismo mágico transcendental acoplado a uma poesia lúdica do lembrar. Talvez seja mesmo sobre “o medo de subir e ficar lá em cima para sempre”.

É inevitável não referenciar o livro “A Montanha Mágica”, escrito por Thomas Mann em 1924, uma literatura classificada como Bildungsroman (algo como romance de formação), e que se expõe, de forma detalhista, o processo de desenvolvimento psicológico e estético de uma personagem, geralmente desde a sua infância. Não se sabe se este foi uma influência direta. E está aí a maravilha do cinema: a projeção desconexa de se chegar onde cada mente quer ir.

Nós espectadores somos imersos em uma terapia acordada de sonhos subjetivos de alguém. A memória daqui, por exemplo, é recuperada por artifícios de construção cênica que tentam religar o exato momento do antes, por meio de uma narração intimista, quase cósmica, e por imagens de arquivo (que se confundem entre ficção proposital e verdade provada). Tudo com o intuito máximo de ser o mais sensorial possível sobre o resgate dessa inocência perdida. Dessa felicidade genuína, incondicional e desmedida de uma época “alterada” pelo tempo.

O que a “A Montanha Mágica” tem de mágico é a instância da memória episódica em fragmentos estéticos, norteadas pela descontinuidade do olhar. Sim, e complementando aquele conhecimento empírico, podemos atestar que todo e qualquer primeiro filme de um cineasta é a sua essência. O que acredita. E, assim, sem mais delongas e análises técnicas-psicanalíticas, comprovamos que Petrus Cariry não perdeu sua raiz: a de filmar o tempo com o “rochedo” de seu nome significado. O tempo parou é porque parece que foi ontem”. 

Melhor Fotografia no Cine PE 2010; Melhor Montagem – 32º Festival Guarnicê de Cinema; Melhor Fotografia – 19º Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema.

 

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