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A História da Guerra Civil

Cine-Olho

Por João Lanari Bo

Durante o Festival É Tudo Verdade 2022

A História da Guerra Civil

Comprovando que o cinema, apesar da juventude – pouco mais de um século de existência – também é um objeto arqueológico, chega às telas um diamante recuperado da poeira do tempo, de autoria de Dziga Vertov, ou melhor, Dziga Viértov – “A História da Guerra Civil”, longa-metragem documental com cenas rodadas entre 1918 e 1921 na aurora da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS. A versão original do filme foi exibida apenas uma vez, em junho de 1921, no 3º Congresso Mundial da Internacional Comunista, a COMINTERN. O evento aconteceu em Moscou, e contou com a presença de cerca de 600 delegados. Não há notícias de qualquer outra exibição, até o presente restauro, o que transforma a nova versão em um grande acontecimento para cinéfilos, historiadores e pesquisadores. O trabalho de recuperação foi dirigido pelo russo Nikolai Izvolov, seguindo os textos deixados pelo diretor de fotografia, Grigory Boltyansky: consumiu dois anos de meticulosa pesquisa de diferentes partes do filme, guardados em locais distintos, com apoio da produtora israelense Grinberg Brothers. O resultado foi um longa-metragem de 94 minutos, altamente informativo de facetas da guerra civil, agregado de imagens de personagens marcantes do conflito, que funcionam como os retratos cinematografados de Andy Warhol – breves instantes de pose diante da câmera que desvelam traços pessoais. A guerra civil posterior à tomada do poder pelos bolcheviques em outubro de 1917 foi, como se sabe, um longo e sangrento enfrentamento do governo revolucionário com um conjunto diversificado de oponentes, desde remanescentes do exército imperial (os Brancos) a grupos anarquistas, passando por forças estrangeiras e resistências localizadas – a Rússia era um império, como dizia Václav Havel, onde ninguém, nem os próprios russos, sabia onde começava, muito menos onde terminava. A vitória bolchevique, conduzida pela mente brilhante (e implacável) de Lênin, e executada por uma cadeia de comandantes igualmente brilhantes – o destaque é Leon Trotsky – é sem dúvida um dos maiores feitos militares da História: uma vitória calçada em cálculos estratégicos, pontuados por terrorismo e crueldade, recursos utilizados também pelos Brancos.

Dziga Viértov – pseudônimo de Denis Arkadievitch Kaufman (versão “russificada” do nome de batismo David Ábielevitch), dziga significando pião em ucraniano (apelido dado pela babá) e viértov um substantivo formado a partir do verbo viertiet, que significa rodar, em russo – adquiriu uma aura especial no cinema soviético, balizada pelos filmes que concebeu e pela especulação teórico-poética que elaborou. Para ele, o cinema aparece como revelação – a metáfora recorrente é o conceito de cine-olho, ver através da câmera o que os olhos não podem ver. Viértov, que nasceu em Bialystok, hoje em território polonês próximo à fronteira com Belarus, era de origem judaica, filho de proprietários de uma livraria. O fato de sua cidade natal ter pertencido ao império czarista dá uma ideia do clima político que subsiste na região, pautado pelas relações do poder em Moscou com o entorno submisso – os atuais desdobramentos na Ucrânia atualizam o clima para o século 21. Inicialmente, Viértov foi para São Petersburgo estudar neuropsicologia: em experimentos pessoais nesse período, o cinema aparece como revelação, um compromisso radical de desvelar o processo de construção da imagem. Annette Michelson, exegeta da obra, lembra uma das primeiras experiências do futuro realizador: filmar a si mesmo pulando de uma marquise. O objetivo era projetar o filme em câmara lenta e analisar as sutis variações em seu rosto, imperceptíveis à velocidade normal, mas captáveis pela lente – descobrir-se, enfim, por meio do aparato cinematográfico. Na sequência foi para Moscou e engajou-se como redator e montador na equipe do Kino-Nediélia, o Cine-Semana, o cinejornal da Revolução. Logo estava nos trens agitprop, filmando, processando e projetando. Organizar as imagens para “A História da Guerra Civil” foi um corolário da sua atuação.

Muito provavelmente foi o destaque dado a Trotsky nas imagens da guerra a principal razão para o “misterioso” desaparecimento do filme por todos esses anos. Em 1923, a disputa pela sucessão de Lênin, entre Stálin e Trotsky, era feroz, a despeito das aparências – Lênin morreu em janeiro de 1924, debilitado, e consta que teria mencionado preferência por Trotsky, o que desagradava Stálin. De qualquer forma, é possível que uma das últimas aparições do líder do exército vermelho tenha sido no filme de Viértov (sua imagem foi suprimida no cinema soviético). Os “anarquistas” que comparecem, alguns até sorridentes, também podem ter feito no doc sua despedida do mundo das imagens: “anarquistas” era um termo genérico utilizado pelos bolcheviques para qualquer tipo de dissidência à esquerda, desde o Partido Socialista Revolucionário (PSR) a movimentos independentes, como o liderado por Nestor Makhno, na Ucrânia. Em novembro de 1917, logo depois da tomada do Palácio de Inverno em São Petersburgo, o PSR foi o partido mais votado nas eleições democráticas realizadas, pela primeira vez na Rússia, para a Assembleia Constituinte: no dia seguinte da eleição Lênin deu o golpe, fechou a Assembleia e decretou a “ditadura do proletariado”. Na dispersão que se seguiu, vários membros do PSR foram executados. Nestor Makhno – que contestava autoritarismos em geral, Brancos e Vermelhos – promoveu experiências ousadas de gestão e distribuição de renda na área que controlava, até ser reprimido. Makhno é uma das raras imagens de “A História da Guerra Civil” – outras celebridades são Vasily Chapayev, também um pouco independente demais para os olhos de Moscou, mas fiel aos bolcheviques; Alexander Kolchak, o poderoso almirante dos Brancos que estabeleceu um governo anti-comunista na Sibéria entre 1918 e 20; e Sergei Kirov, que veio a ser o popular chefe do Partido em Petrogrado, assassinado misteriosamente em 1934.

A sequência final do longa é sobre a rebelião de Kronstadt, que envolveu marinheiros, soldados e civis soviéticos em 1921 contra o governo bolchevique, na cidade portuária de Kronstadt, perto de Petrogrado. Como informa a Wikipedia: decepcionados com a direção do governo, os rebeldes, que haviam sido elogiados anteriormente como “orgulho da revolução” pelo próprio Trotsky, exigiram uma série de reformas: redução do poder bolchevique, conselhos soviéticos recém-eleitos para incluir grupos socialistas e anarquistas, liberdade econômica para camponeses e trabalhadores, dissolução dos órgãos governamentais burocráticos criados durante a guerra civil e a restauração dos direitos civis para a classe trabalhadora. Foram batalhas das mais sangrentas da Guerra Civil: no final Trotsky aprovou uso de armas químicas para acabar com a resistência. A versão do conflito em “A História da Guerra Civil” obviamente não trata dessas contradições, atendo-se ao discurso dominante de vitória contra revoltosos. Uma tradição oral identifica no clássico “Encouraçado Potemkim”, que Eisenstein realizou em 1926, uma homenagem secreta aos marinheiros de Kronstadt, mesmo que o filme tenha se limitado a tratar de eventos ocorridos em 1905.

A obra de Dziga Viértov, sobretudo na década de 1920 e início dos 30, quando produziu notáveis experimentos de linguagem, pode ser lida como uma espécie de solução dialética para as contradições emanadas do processo revolucionário-institucional soviético. Seus filmes iriam adquirir uma veia poética muito além da compilação de cinejornais – seu talento de organizador de imagens, entretanto, aparece de modo fulgurante no filme em tela. A exibição da versão restaurada coincide com o lançamento da excepcional coletânea “Cine-Olho: manifestos, projetos e outros escritos”, pela Editora 34, organizada e traduzida direto do russo – pela primeira vez no Brasil – por Luís Felipe Labaki. A trajetória de Viértov é dividida em sete partes, cada uma com textos ilustrativos de sua atuação, ele que era um polêmico nato, além de poeta frustrado. Os comentários de Labaki são preciosos: dispor de um trabalho como esse no mercado editorial brasileiro “é um verdadeiro privilégio”, como observou o decano dos críticos, Ismail Xavier, na orelha do livro.

5 Nota do Crítico 5 1

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