A Fabulosa Máquina do Tempo

Sem limites para sonhar 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026; Festival de Berlim 2026

A Fabulosa Máquina do Tempo

Não tenho medo de dizer que o Brasil hoje domina ao menos um gênero na árvore genealógica do Cinema: o documentário. Essa predominância não vem de hoje, mas temos enfim uma base concreta para afirmar essa máxima. De uma linhagem que já nos trouxe mestres como Eduardo Coutinho e Vladimir Carvalho, Eliza Capai é uma herdeira cujos frutos não cansam de aparecer. Seu novo filme, “A Fabulosa Máquina do Tempo”, fez sua estreia mundial no Festival de Berlim, antes de aportar nas telas do É Tudo Verdade 2026. Não é surpreendente que, mais uma vez, ela dê um nó nas expectativas do espectador e entregue mais uma produção que não se conecta com o que já fez até aqui, ainda bem.

Após “Espero tua (Re)volta” e “Incompatível com a Vida” (que venceu exatamente o É Tudo Verdade há três anos), seu olhar parte para um universo absolutamente novo para sua filmografia, em formato igualmente inédito para si, o que configura mais uma sugestão de sua versatilidade. Capai desenvolve assim, uma terceira maneira de radiografar o tempo, dessa vez desenvolvendo uma reflexão sobre ele, na linha narrativa que é apresentada e para o que está implícito. No sertão do Piauí um dia considerado o povoado mais pobre do Brasil, encontrar a infância e o início de um novo tempo é um trabalho mais que minucioso, mas uma síntese, através da sensibilidade, das profundas (e invisíveis) mudanças sócio-econômicos nas profundezas do país.

Se a imprensa não realiza o trabalho de mapear essas mudanças estabelecidas através das políticas públicas a partir de 2002 (e com o intervalo do horror do qual fomos testemunhas entre 2016 e 2022), a Arte o faz sem sublinhar didaticamente o que está acontecendo. Nas entrelinhas, hoje existe uma maneira concreta de nos aproximarmos do que sonhamos, um país que esteve durante tantos anos dentro do mapa da fome mundial. O grupo de meninas que Capai descobre em seu filme ainda sofre os típicos percalços de uma infância restringida pelas dificuldades econômicas, mas hoje esse grupo de meninas tem condições de realizar seus desejos mais recônditos, como o seu desfecho imagina com brilho. Parte deles já estão na tela, de uma maneira que a metalinguagem acaba também servindo a um fim social.

Não dá pra negar a exuberância de “A Fabulosa Máquina do Tempo”, como se sua autora tivesse avançado um espaço fora do comum de sua direção anterior para cá. São fatores essenciais para compreender a elaboração visual que o filme carrega consigo, e perceber como a interação com o público virá fácil devido a essa estética que mistura uma tentativa artesanal de fábula, com a metalinguagem sempre rasgando a tela. Afinal, Capai não pretende (como podemos notar) encerrar suas discussões mediante categorização de gênero; não há um recorte possível no filme, e sim uma tentativa bem-sucedida de conectar o maior número de aspectos formais em cena.

Como lida com um número ilimitado de meninas em cena de maneira ininterrupta, crianças e pré-adolescentes, a diretora optou pela saída mais instigante: aboliu as regras cinematográficas, e deu prioridade a entender suas personagens por dentro de suas motivações e ações, apostando inteiramente no grupo. Apesar de sua aparência, “A Fabulosa Máquina do Tempo” então passa a seguir as diretrizes de seu elenco, o que faz com que seu formato sempre encaminhe para o hibridismo. Estamos assistindo um documentário (e as perguntas e respostas das mães nos recorda disso)? A ficção sequestrou suas decisões (as encenações das meninas para os roteiros que escrevem)? O maior prazer de aproveitar a inventividade de Capai e suas “companheiras de ação” é não limitar o registro, e se deixar levar pelo movimento das ondas que o filme promove.

Se existe algum excesso em cena, é nas possibilidades apresentadas pelo trabalho de banda sonora. O design de som nem é um problema, pelo contrário, a questão é sua união com a trilha sonora composta para o filme, que praticamente não deixa nossa percepção tirar suas próprias conclusões. Está onipresente quase em toda a projeção, quando muitas vezes o filme comunicaria ainda mais, com catarse ainda melhor acabada, sem indução – inclusive à fofura. Quando adquire o equilíbrio, e suprime a malha de áudio, ainda que de maneira brevemente suspensa, o trabalho de Capai salta da tela com a qualidade de suas imagens. “A Fabulosa Máquina do Tempo” é um convite ao rolo compressor da infância, em condições peculiares, com um olhar delicado para uma ascensão social que precisa ser celebrada.

4 Nota do Crítico 5 1

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