O verso da história política

Por Michel Araújo

Uma grande sombra negra paira sobre os embates da chamada Guerra Fria. Tanto na mídia jornalística em geral, como nas mídias de entretenimento: a televisão, o rádio, e – para nós agora mais pertinente – o cinema. Desde títulos de grandes franquias comerciais do século XX como “Rocky IV” (Sylvester Stallone; 1985) – representando metonimicamente a União Soviética sob a forma do atleta e quase produto de laboratório, Ivan Drago -, até filmes independentes como “A Confissão” (1970) do cineasta militante grego Costa-Gavras – o qual vai tratar de todo o processo de prisão e tortura arbitrários de um membro do partido comunista tchecoeslovaco pelo próprio partido, que o acusa de traição. A historiografia canônica de fato aponta para esses desdobramentos controversos da União Soviética, apesar de autores mais periféricos – à exemplo o teórico marxista Domenico Losurdo – denunciarem a construção falaciosa desse imaginário vilanesco. O cerne da questão para agora é que há um reflexo forte dessa representação midiática que se construiu de maneira dúbia sobre a postura soviética ante o momento da Guerra Fria. E assim como na historiografia, o cinema vai estabelecer uma vertente quase hegemônica de vilanização dos soviéticos e russos – mesmo confundindo um e outro.

O filme “A Espiã Vermelha” (2019), dirigido por Trevor Nunn, surpreendentemente se posiciona de certa forma fora dessa curva. A construção do drama não mais se pauta em um maniqueísmo entre os blocos capitalista e socialista, mas num drama pessoal, o qual está envolto e diretamente ligado ao contexto histórico e político da trama. Este procedimento é também comum, mas o filme se empenha em deixar o contexto bem claro, e a motivação não apenas ideológica como psicológica da protagonista, tão clara quanto. No longa, Joan Stanley (interpretada jovem por Sophie Cookson e idosa por Judi Dench), é uma jovem física que começa a trabalhar para o governo britânico no desenvolvimento do seu próprio projeto de armamento nuclear – após os Estados Unidos já terem demonstrado seu poderio bombardeando Hiroshima. Cinquenta anos depois ela é presa e acusada de ter agido como informante para o governo da União Soviética, ajudando-os a construir sua própria bomba, o que se prova verdade com o desenrolar da história. Ambos os tempos são contados simultaneamente, tanto o interrogatório de Joan já idosa, como sua época jovem quando trabalhava como informante.

A motivação principal para Joan repassar informações para o governo soviético – para além de seu romance com o jovem Leo (Tom Hughes), o qual a influencia a tal – é seu horror diante da hegemonia bélica estadunidense, que promoveu a catástrofe de Hiroshima. A jovem, horrorizada com o que a dominação política e militar norte-americana pode causar, crê que estabelecer a União Soviética no mesmo pé de guerra que o bloco capitalista poderá conter a ameaça de mais ataques nucleares pelo mundo, e equilibrar o cenário para que uma efetiva guerra não ecloda – o que, trocando em miúdos, resume o cerne da Guerra Fria, com ambas as potências evitando confronto direto.

O filme infelizmente coloca a lógica do drama muito acima da crítica, o que prejudica a profundidade de reflexão do tema, embora não a abula por completo. O conceito de drama pode ser colocado de acordo com uma certa linha teórica clássica como “expressar o máximo possível usando o mínimo”. Ou seja, uma situação pode condensar uma multiplicidade de questões as quais o filme não irá destrinchar, mas estão ali emocionalmente expressas pela cena em questão. Um momento que demonstra isso com clareza é quando a equipe de físicos está perto de concluir o projeto para a bomba nuclear, e enquanto Joan questiona os fundamentos éticos que os impediriam de auxiliar o bloco capitalista a promover mais massacres, o chefe da equipe – e também seu amante -, Max (Stephen Campbell Moore), afirma de forma rasa que “cientistas tem que se preocupar com a ciência, e a política deve ser deixada para os políticos”. E o embate entre ambos se encerra por aí, a questão está posta de forma crua e mesmo superficial, sem uma maior preocupação de articular a crítica por trás desse pensamento falacioso que visa expiar o campo da ciência de sua ética e de sua parcela de obrigações morais.

A questão do machismo escancarado da época é abordada com frequência, com vários personagens masculinos tentando diminuir Joan e colocá-la em funções secundárias – sem saber que se trata da verdadeira grande mente por trás do projeto científico. Essa discussão, entretanto, também mantém uma superficialidade, o que acaba sendo contraintuitivo pois esse tópico se sobrepõe quantitativamente ao do conflito ético da personagem, porém não qualitativamente. Logo a retórica do filme como um todo é comprometida. Apesar da crítica ser visível e clara, sua articulação é questionável, e mesmo a organização dramática não é sólida o suficiente para compensar tal leviandade. Embora ligeiramente fora da curva em termos da representação de um momento histórico deveras complexo, a organização do filme em si, de seu drama, e por consequência de sua forma clássico-narrativa, deixa a desejar algo mais abrupto.         

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=38Yp_YHJDeQ

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