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A Colmeia

Um pós-horror para chamar de nosso

Por Pedro Mesquita

A Colmeia

A migração é um tema que nunca deixou de render assunto para os filmes. Os Estados Unidos, país a primeiro empreender a transformação do cinema em indústria multimilionária, não cansaram de prová-lo; basta ver a quantidade de westerns que tomam por narrativa a “marcha para o Oeste” em busca de melhores condições de vida. John Ford, talvez o grande narrador dos mitos de formação norte-americanos, autor de “O Cavalo de Ferro” (1924), “No Tempo das Diligências” (1939) e sobretudo “As Vinhas da Ira” (1940) — do qual podemos nos lembrar durante a sessão de “A Colmeia” pelo fato de, assim como o filme de Gilson Vargas, retratar uma família e seus percalços vividos durante o processo de migração — nos mostrou o caráter multifacetado da sociedade norte-americana e a desigual garantia de direitos que cada segmento da população tem (principalmente os indígenas e os imigrantes).

É mais ou menos isso o que verificamos em “A Colmeia”. O filme do diretor Gilson Vargas retrata o processo de imigração alemã que aconteceu no Brasil sobretudo no início do século XX. Em seus letreiros iniciais, obtemos a devida contextualização: os imigrantes interessavam aos governantes brasileiros como mão de obra e como parte de um processo de embranquecimento da população brasileira. Somos, então, apresentados ao grupo de personagens nos quais o filme se deterá: uma família de seis — Werner, Christoffer, Uli, Kasper, Lila e Bertha — possuidora de uma pequena propriedade rural, da qual custam a extrair algo que lhes permita viver de forma digna. O trabalho manual torna-se, inclusive, ponto de discordância entre as gerações: Werner, o patriarca, é contra a educação dos filhos, enquanto estes detestam o trabalho que têm de desempenhar em casa e sonham em ir embora dali e dar início (ou, pelo menos no caso de Christoffer, dar prosseguimento) aos estudos.

Portanto, as condições materiais de vida dos imigrantes são pouco favoráveis. Isso vai ficando particularmente evidente quando Christoffer passa a tomar, sem o consentimento do pai, parte do estoque de comida da família para alimentar uma família indígena, que ele encontra em seus ocasionais passeios pelas matas da região. Como os meios de subsistência são escassos, o trabalho dos filhos se faz ainda mais necessário, e a relação entre pai e filhos vai progressivamente desgastando rumo a um clímax a partir do qual não existe mais possibilidade de reconciliação. O final de “A Colmeia”, então, não pode ser outra coisa senão trágico.

O aspecto excessivamente miserável do filme de Gilson Vargas é um ponto a partir do qual podemos começar a diferenciá-lo dos filmes supracitados de John Ford. Se nos filmes do diretor norte-americano, as personagens, por mais que submetidas às mais desfavoráveis condições, não perdiam a sua humanidade, isto é, não perdiam uma certa verossimilhança psicológica e uma certa leveza de espírito que permitia ao filme flertar com a comédia ou com o romance apesar do fundo dramático, em “A Colmeia” nada disso existe. O filme de Vargas observa as suas personagens quase sempre com um distanciamento que lhes nega a verossimilhança psicológica. Os atores — que, no geral, estão muito bem, apesar de serem conduzidos a um tal grau de artificialismo ao ponto de, em certos planos, mais se parecerem com autômatos — são postos em cena com o exclusivo objetivo de representar um sentimento de mal-estar; sentimento esse que não se altera e nunca se supera.

A mise en scène de Vargas é austera em uma tal intensidade que sufoca o filme. A fotografia é extremamente dessaturada; o ritmo da montagem é lento; a decupagem se dá numa predominância de planos estáticos, que enquadram as personagens quase sempre de longe, menos interessados na humanidade das personagens — como falamos acima — que no seu caráter irracional; o trabalho de som atém-se ao essencial, sofrendo eventuais modulações em momentos particularmente dramáticos ou aterrorizantes… 

Estamos, em suma, diante de um trabalho que se pode dizer plenamente conforme à tendência contemporânea do “pós-horror” —, principalmente na medida em que ele replica boa parte das estratégias formais de um diretor como Robert Eggers (“A Bruxa” (2015), “O Farol” (2019), “O Homem do Norte” (2022)). Gilson Vargas não tem, felizmente, o delírio de grandeza de Eggers, cujo virtuosismo desmedido parece trabalhar contra a própria dramaturgia de seus filmes, ironizando momentos que pedem por sinceridade emocional (basta lembrar da cena do ritual, mais ao início do recente “O Homem do Norte”, ou de qualquer coisa de “O Farol”). Verificamos, sim, alguns deslizes de similar natureza em “A Colmeia”, provenientes da mão pesada do diretor, ainda que o resultado final da obra seja inegavelmente superior aos filmes de Eggers.

2 Nota do Crítico 5 1

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