A Cidade dos Piratas

A solidez moral e espirituosa de uma "velha"

Por Fabricio Duque

Durante a Mostra de São Paulo 2018

Há uma regra quase absoluta de que todo e qualquer cartunista é por si só um transgressor por natureza, tudo por causa do humor, que, ao mesmo tempo, é irônico e critico acerca dos comportamentos político-sociais. O diretor “porralouca” Otto Guerra (de “Até que a Sbórnia nos Separe”, “Wood e Stock”, “Rock e Hudson”) é um deles quando busca em “A Cidade dos Piratas” uma revolução de imagens e palavras desconstruídas de ordem e pululadas de orgânicas anarquias. Sim, inquestionavelmente, o sarcasmo consegue ser o melhor remédio, uma arma eficaz do discurso pela animação conto que se passa em 1546 no Rio Tietê. “Quem faz sentido é soldado”, diz-se com suas ingênuas piadas de “tio pavê” que inocentam o pensar quase infantil com incisiva inocência.

“A Cidade dos Piratas”, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018, não faz sentido e não é para fazer, optando propositalmente por uma narrativa “despirocada” de Laerte Coutinho, que recria paródias do conhecimento com “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. É sobre o “vírus do ódio”, sobre a violência incitada pelo atual presidente Jair Bolsonaro. E ou a crítica ao ensino quando uma professora leciona e a metáfora-metalinguagem da mensagem nos mostra que a “História não para em pé”. É a jornada de um “capitão anti-herói”, do próprio pai (quer dizer da própria mãe que renegou seus filhos – referência à mudança de sexo de Laerte).

É um filme de vanguarda. De auto-sacanagem. De picardias testosteronas e primitivamente humanas. Que imprime a essência do humor Pasquim. É um desenho animado underground, que caminha para se manter à margem, algo com um que de Charles Bukowski e com um que de “Rê Bordosa” de outro cartunista, Angeli. Entre charges, quadrinhos e sequências de identificação pop coloquial, o longa-metragem questiona o próprio existir quando insere o real (o carne e osso), como o “funk do estadista pelado” e/ou a “revolução conservadora”. “Ficará tudo como está”, determina.

“A Cidade dos Piratas”, livremente inspirado na vida e obra de Laerte Coutinho, embrenha-se no realismo absoluto com sua graça ácida-agridoce, em que a esperança, quando acontece, só consegue ir da alienação conformista à resiliência. “Sonhar com o filme é foda. É, usar o Fernando Pessoa é uma boa”, pensa alto o criador ao escolher caminhos. “Piratear o filme por ser de pirata”, complementa-se com perspicácia natural quase infantil.

“Como definir Laerte afinal? Erudito? Louco? Travesti? Um labirinto?”, alfinetam-se auto-análises cúmplices e pilhérias  retro-alimentadas em uma entrevista a Abujamra. É ficção real com ficção dos quadrinhos. Grita-se ao ler a Folha de São Paulo. É catártico, escatológico, passional e fisicamente sintomático. Aborda-se a ditadura gay, o sonho da mudança e a aceitação da homossexualidade. É também dramático sem pieguices quando “vê a vida passando pelos olhos”.

“A Cidade dos Piratas” é uma crítica surtada. Uma “algazarra de jovens virgens” entre “Minotauros enrustidos” (criaturas “filhos malditos” que habitavam num labirinto na Ilha de Creta) e “genitálias flutuantes”. Sobre ensaiar e viver. É sobre um “caminho novo”. Sobre a “solidez moral”. “A crise é feita de crise e oportunidade”, conduz-se entre o limite de “panelas de pressão” e de ditados chulos e populares. Há aqui um refinamento desgovernado e delirante.

Laerte “sobrevive” às perguntas agressivas da mídia para “construir essa velha que quero ser”. E cita Simone de Beauvoir: “Mulher se aprende a ser”. Tudo com deboche espirituoso de sutileza quase imperceptível. É sua arte de “desembaralhar a filosofia” e transpor o medo de deixar tudo e ser “condenado no tempo ou em tempo nenhum”. O filme aprofunda as crises existenciais de ser um travesti e lida com verdade os preconceitos com a figura “demonizada”.

“A Cidade dos Piratas” é também um filme “ladainha”. Um epitáfio. De confrontos e de mundos urgentes. Laerte “fechou os olhos e se passaram cinquenta anos”. É a história de um “invertido”, de um ser que não se enquadra neste planeta. “Não nos inventaram ainda”, fecha com força e efeito. É tudo sobre Laerte, mas principalmente sobre o que há a seu redor. Um mundo estranho, fofoqueiro, sádico, cruel, que se preocupa mais com a vida do outro que com a própria. Sim, é um universo de provas e expiações. Alguns dizem que o próprio inferno. Que este é nosso juízo final. Só que no fim de todo pessimismo resignado, há uma chama pulsante que empurra Laerte a ser a “velha” que sempre desejou ser. E dessa forma nos impulsiona a acreditar que nosso hoje e o iminente futuro não será tão sombrio assim.

 

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