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A Casa e o Mundo

Nacionalismo Raiz versus Cosmopolitismo Liberal

Por João Lanari Bo

A Casa e o Mundo

A Casa e o Mundo”, filme que o indiano Satyajit Ray realizou em 1984, quase lhe custou a vida: o diretor sofreu um ataque cardíaco em plena produção, e conseguiu fechar a finalização dando instruções para seu filho diretamente da cama do hospital. Ray, que tinha um pique de produção impressionante, ainda fez mais quatro longas, vindo a falecer em 1992. Começou em 1955, com “A Canção da Estrada”, que conta a história de um garoto chamado Apu, que vivia com a irmã, mãe e tia num vilarejo indiano, enquanto o pai, poeta, saiu a procura de emprego para tirar a família da pobreza. Foi selecionado para o Festival de Cannes de 1956 e faturou logo o prêmio da OCIC – acrônimo de “Organização Católica Internacional para Cinema e Audiovisual” – àquela altura bastante prestigiado. Foi a senha para uma carreira internacional de peso, participação e premiação em inúmeros festivais, além de distribuição mundo afora, sobretudo nas décadas de 50 e 60. Satyajit Ray até hoje é talvez o cineasta globalmente mais conhecido da Índia, inclusive no Brasil – para a audiência brasileira, o cinema indiano ainda é uma categoria exótica, restrito a salas habituadas a filmes egressos do world cinema, filmes de “valor artístico” bem recebidos no circuito de festivais. O mainstream da produção, como os filmes de Bollywood, era (e é) algo raríssimo por essas e outras plagas, a despeito do enorme sucesso que alcançam no país natal e adjacências asiáticas. Com o streaming, a situação tende a mudar: a oferta de títulos já é bastante significativa, apesar de obviamente longe de abarcar a imensa variedade da produção daquele país. A Índia, cumpre registrar, é uma nação multiétnica, multilinguística e multicultural: a razão ocidental (e cartesiana) é simplesmente insuficiente para dar conta dessas múltiplas dimensões, sedimentadas há milhares de anos e distribuídas em mais de 1 bilhão e 300 milhões de habitantes.

Posto isso, não resta dúvida de que a estupenda obra cinematográfica de Satyajit Ray fornece várias entradas para um mergulho nesse universo: uma delas é “A Casa e o Mundo”, baseado em um livro do início do século 20 – o autor, Rabindranath Tagore, foi o primeiro não-europeu a ganhar o Prêmio Nobel de literatura, em 1913, e era uma celebridade mundial naqueles anos em que a Índia ainda vivia sob o jugo do Império britânico. Ray tinha escrito o roteiro no início da carreira, mas só conseguiu materializá-lo três décadas mais tarde. Ambos, Ray e Tagore, são originários da região de Bengala, nordeste da Índia, hoje dividida entre Bengala Ocidental, em território indiano, e Bangladesh, um país independente. A divisão política e territorial começou em 1905, proposta pelo então Governador-geral inglês da Índia, Lord Curzon: a ideia, dividir para conquistar, era separar Bengala em duas unidades administrativas de acordo com a confissão religiosa, hindu e muçulmana. Os personagens centrais do enredo – Nikhil, grande proprietário de terras, culto e gentil; sua jovem esposa, Bimal; e Sandip, demagogo revolucionário, amigo de Nikhil – têm suas vidas fortemente abaladas com a separação proposta. A turbulência política mescla-se com o triângulo amoroso que se insinua na trama. Nikhil quer fundir liberalismo europeu e Hinduísmo: ansioso por ser cosmopolita, sua posição é ambivalente, de certa forma ele permanece mergulhado em seu próprio passado. Desejoso de permitir à sua mulher contato social com outros homens, como acontece na Europa liberal, convida Sandip para hospedar-se em seu palácio. Sandip – que empreende uma luta política pelo boicote de mercadorias estrangeiras em favor de produtos indianos, um nacionalismo econômico eloquente e oportunista – acaba, é claro, seduzindo Bimal, que chega a desviar dinheiro do patrimônio familiar para apoiar a “causa revolucionária” do amigo do marido.

Um melodrama histórico, enfim. Satyajit Ray começou como artista gráfico para publicações comerciais até encontrar Jean Renoir, que visitava a Índia para rodar o fabuloso “Rio Sagrado”, em 1951. Ray ajudou nas locações e o francês estimulou-o fortemente a embarcar na expressão audiovisual. Em seguida, numa temporada de três meses na Inglaterra a serviço da editora que trabalhava, assistiu a 99 filmes, exultando com o neorrealismo italiano, De Sica e Rossellini. “A Casa e o Mundo”, realizado na reta final de sua vida produtiva, tem uma ressonância clara com a insolúvel fratura religiosa que assombra a Índia, entre muçulmanos e hinduístas, geradora do nacionalismo exacerbado que por vezes se manifesta naquele imenso e complexo país. Sobre o cineasta indiano, ninguém menos do que Akira Kurosawa disse: não ter visto os filmes de Ray significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua.

3 Nota do Crítico 5 1

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