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A Boa Mãe

Que horas Nora volta?

Por Bernardo Castro

Festival de Cannes 2021

A Boa Mãe

Premiado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2021 com o Ensemble Prize,  “A Boa Mãe” apresenta uma abordagem que foge do convencional. Centrado nas periferias da cidade de Marselha, acompanhamos Nora, uma mulher batalhadora de ascendência árabe, que trabalha como faxineira e cuidadora, e sua insólita e relativamente extensa família. Ao mesmo tempo em que, por falta de melhores opções, se submete à uma jornada de trabalho extenuante, nossa protagonista tem que lidar com os incontáveis problemas trazidos pelos filhos e com o ambiente insalubre onde reside e vê a sua prole constantemente tentada pelas atividades ilícitas, comuns no ambiente no qual estão inseridos.

É um retrato sensível da marginalização dos imigrantes, com enfoque na força de uma mulher periférica, que permanece firme, com uma serenidade inextrincável mediante a todos os percalços encontrados em seu caminho. Antes disso, a representação do amor incondicional de uma mãe, que nega a si mesma para prover para os filhos. Tudo isso mostra o quão acertada foi a escolha da personagem como objeto de estudo e ponto fulcral desta obra. Este é o segundo longa-metragem da realizadora Hafsia Herzi (de “Tu mérites un amour”), que, como atriz, recebeu o César de Melhor Atriz Revelação em 2008 e o prêmio Marcello Mastroiani no Festival de Veneza, em 2007. O fato impressiona pela maturidade com a qual o longa é concebido.

A fotografia, com auxílio da montagem, é incisiva ao tirar o foco da beleza idílica das paisagens do Sul da França e pôr no centro da trama indivíduos em situação de vulnerabilidade social e lugares negligenciados pelas autoridades – pouco se vê da Marselha turística. Tecnicamente, a direção de fotografia também escolhe seguir por um caminho um tanto disruptivo, se apossando de close-ups além do que normalmente é visto e a trepidante câmera na mão. A primeira sequência exemplifica muito bem o que foi dito. Nela, a realidade de Nora é apresentada cruamente com sua câmera móvel e o seu uso exclusivo de sons diegéticos.

Um fato interessante a evidenciar é a dificuldade de se filmar nos cenários onde a maior parte do longa é centrado. O alto nível de periculosidade, similar ao ato de gravar dentro de uma favela no Rio de Janeiro, aumenta não só o risco de as filmagens não serem concretizadas, como põem em risco a vida dos atores e da equipe de filmagem. Há um grande mérito por parte dos responsáveis, que conseguiram se adaptar e dar vida à esta ideia – certamente que tais esforços não foram em vão, uma vez que agora estão imortalizados nas grandes telas e na história de um dos maiores festivais de cinema do mundo.

O roteiro de “A Boa Mãe”, também assinado por Hafsia Herzi, se destaca das produções recentes. Pouco é informado diretamente quanto ao enredo. Como em todo roteiro bem escrito, o essencial é revelado nas entrelinhas e as atitudes não vêm como sussurros, mas gritam. Essa escrita amplia o alcance da transparência da câmera e, mesmo que haja um estudo técnico, que torna um pouco menos fidedigna à realidade, trivializa, no bom sentido, os diálogos e imerge o espectador em uma série de acontecimentos cotidianos, criando um vínculo temporário com as personagens e com a rotina deste núcleo familiar.

Em uma inversão incomum no cinema contemporâneo, o elenco é composto majoritariamente por atores de origem árabe ou imigrantes e pouco tempo de tela é destinado à população francesa caucasiana – um triunfo para a diretora. O destaque vai para Halima Benhamed, que dá vida à protagonista da trama e entrega uma atuação consistente e excepcional. Apesar dos poucos momentos de desconstrução e catarse, ela faz uma leitura primorosa do tropo. Outros nomes que compõem esse elenco são Sabrina Benhamed, Jawed Hannachi Herzi e Mourad Tahar Boussatha.

Apesar de se tratar de um filme quase documental pela verossimilhança, somos instigados a interpretar certos planos, sequências e enquadramentos. No final de “A Boa Mãe”, há um vislumbre do ciclo se repetindo quando observamos o jovem Jawed repetindo as atitudes do tio e as suas tias se encontrando em uma situação de desemprego e ócio após terem perdido uma oportunidade de emprego. O tão ansiado rompimento deste ciclo é mais uma vez adiado, mas a sempre inexorável Nora não se deixa abalar. Como a mesma diz nos minutos finais: “enquanto estiver de pé, estarei firme”.

4 Nota do Crítico 5 1

Trailer

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