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500 Mil Quilômetros

Milestone

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2020

500 Mil Quilômetros

500 Mil Quilômetros”: é o que marcava o odômetro do caminhão de Ghalib, um caminhoneiro de meia-idade apegado ao seu job, no entorno de Nova Delhi, na Índia. É também o título que a Netflix cunhou para o segundo longa do diretor indiano Ivan Ayr. Entorno denso, mas nada que impeça a locomoção do velho caminhão, nas vicinais e estradas principais, o mais cedo possível para escapar dos policiais corruptos, sempre à espreita do pedágio-propina. Odômetro: sistema de contagem da distância percorrida pelo veículo ao longo de sua existência. A existência de Ghalib orienta-se pela inserção na engrenagem do sistema de transporte – ele é um sujeito calmo, ponderado. Quando alguém pergunta, esclarece: faço este trabalho porque é quem eu sou. Taciturno, parece estar mais à vontade pilotando na rua ou na estrada, raramente dorme no seu apartamento, onde a poeira acumula.

Toda essa rotina é descrita em três ou quatro takes, sem edição apressada, sem excitação – o tempo é o tempo mental do personagem, o tempo para contar e embarcar os pacotes, a carga, a espera por uma nova carga. O sistema de produção precisa do transporte como elo final de distribuição da mercadoria, Ghalib está lá para fazer a sua parte. Seus contatos com carregadores, patrões e populares é cortês, respeitoso, jamais subserviente ou arrogante. Uma tal neutralidade em um país marcado por uma longa e profunda separação de castas, uma espécie de luta de classes enraizada numa tradição milenar, não é pouca coisa: é um mundo onde a mobilidade social é suspensa, onde os lugares e as funções sociais estão definidas há séculos, mas onde também a fricção e a revolta podem eclodir a qualquer momento.

O que sobressai nesse belo exercício cinematográfico – quase uma categoria à parte, um cinema social ao pé da letra, no melhor estilo Ken Loach – é a ausência de estratégias de romantização do “herói”, usando ou não trilhas musicais ou luz artificial, ou o que seja. Tudo é seco e imediato na vida do caminhoneiro, que se preocupa sobretudo em entregar sua carga: o caminhão parece ser seu relacionamento mais gratificante. Mas, como dizia o filósofo, o tempo existe: uma dor nas costas e o avanço dos anos conspiram para substituí-lo por um motorista mais jovem e faminto, Pash. “500 Mil Quilômetros” intercala cenas de contemplação silenciosamente poderosas, onde o público é convidado a decidir sobre um homem que enfrenta a sua obsolescência.

Seu amigo, motorista veterano chamado Dilbaug, foi demitido depois que a notícia de sua visão deteriorada chegou aos donos da empresa. O incidente agrega uma espiral de dúvidas, também silenciosas, mas crescentes. São poucas palavras a sair da boca de Ghalib, mas a inquietação vem à superfície em um curto ato falho, logo com o jovem aprendiz. Em paralelo – mas não menos visceral em sua existência, naturalmente – é a morte recente da esposa. O casamento tinha acabado, ele nunca parava em casa – não se falavam mais, nem comiam juntos. O luto, não obstante, é incontornável, Ghalid é um homem de princípios.

O diretor Ivan Ayr escreveu o roteiro de “500 Mil Quilômetros” imaginando o caminhoneiro em um caldeirão, um entroncamento de personagens lutando com deslocamentos, literal ou metaforicamente. O entorno de Delhi, território autônomo na Índia, atrai imigrantes de várias origens e culturas, obrigando-os a uma convivência de alteridades: Ghalib vem de Punjab, seu vizinho é da Caxemira, a esposa é de Siquim, três estados ao norte da capital. O patrão de Ghalib, por sua vez, é sikh: ou seja, indivíduos, em geral com turbante enrolado por cima da cabeça, que professam a religião monoteísta fundada em fins do século 15 no Punjab, perto do Paquistão – o sikhismo ou siquismo. As tensões ali também são milenares, e ainda presentes nas rusgas eventuais entre Índia e Paquistão: o sikhismo, verdadeiro algodão entre dois cristais, é por vezes retratado como o resultado de um sincretismo entre elementos do hinduísmo e do islamismo. A Índia é um caldeirão: pelo menos três línguas são faladas no filme, com predominância do hindi.

Completando a galeria de coadjuvantes improváveis, destaca-se Amir Aziz, poeta/músico contemporâneo, no papel (breve, mas contundente) de líder da greve dos carregadores – Aziz ganhou projeção nacional em dezembro de 2019, logo depois de fazer a ponta no filme, quando sua poesia foi emblemática dos protestos que explodiram em várias cidades contra legislação discriminatória de muçulmanos proposta pelo atual governo hindu, conservador até a medula. Roger Waters, o politizado baixista do Pink Floyd, tem recitado o poema de Aziz em seus shows:

Se você nos matar, iremos como fantasmas e ainda escreveremos.

Vamos escrever para mencionar as provas que revelam os assassinatos que você cometeu.

Você pode gostar de piadas, sentado nos tribunais,

Mas vamos escrever nas paredes e estradas sobre a justiça que precisamos.

Vamos falar alto para que até os deficientes auditivos possam nos ouvir.

Vamos escrever com clareza para que os cegos possam ler.

 

4 Nota do Crítico 5 1

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