18 kHz

Espaço no tempo

Por João Lanari Bo

Durante a Mostra de SP 2021

18 kHz” é o terceiro longa-metragem do realizador cazaque Farkhat Sharipov, filmado na principal cidade, Almati, desse imenso e vazio país: o território do Cazaquistão é maior do que a Europa ocidental, mas a densidade populacional é baixíssima – cinematograficamente, é um espaço a perder de vista, uma linha do horizonte que se mistura com montanhas, estepes, pradarias e gelo. Este é o imaginário cazaque: morfologia adequada para produções “eastern”, o gênero que os soviéticos inventaram para contrapor ao “western” dos americanos. “18 kHz”, entretanto, foge do clichê: é um drama social, é a “frequência do som que os adultos não conseguem ouvir”, as realidades que aconteceram com adolescentes no Cazaquistão no final dos anos 90, durante o boom da heroína em Almati. Um filme urbano, quase minimalista na construção de personagens e situações, facilmente reconhecível para espectadores contemporâneos acostumados a catarses sócio/comportamentais deflagradas pelo excesso no consumo de alucinógenos. Exceto pela saudação diária entre as pessoas – educadamente se usa o “salam” muçulmano – os diálogos reproduzem dramas universais, mães preocupadas com filhos, pais ausentes ou omissos, adolescentes à deriva. Inconscientemente, elaboramos um espaço mental de recepção em que se alinham os fantasmas habituais da moral cristã – ansiedade, culpa, sofrimento, penitência. Só que dessa vez estamos nos confins da Ásia Central, terra de Gengis Khan: o espaço é o tempo.

Ou seja, uma terra de nômades, em constante movimento – até a chegada dos russos, que ocuparam o país ainda no século 19, logo convertido em república socialista com os desdobramentos da revolução bolchevique de 1917. Em meados do século 20, habitavam o Cazaquistão praticamente todos os grupos sob a esfera de influência russa, graças a sua localização central e seu uso histórico pela Rússia como destino de colonos, opositores políticos e grupos minoritários de seu território. Dos anos 1930 até os anos 1950, centenas de milhares de dissidentes e certas minorias (especialmente alemães do Volga, poloneses, ucranianos, tártaros da Crimeia) foram internados em campos de trabalho na região, muitas vezes meramente devido à sua herança ou crenças, por ordens de Stalin. Isso tornou o Cazaquistão um dos poucos lugares no mundo em que grupos germânicos, indo-iranianos, coreanos, chechenos e turcos normalmente díspares viviam juntos em um mesmo ambiente. Os maiores grupos étnicos, de longe, sempre foram cazaques e russos: se em 1926 a proporção era 60 % de cazaques e 27 % de russos, em 1959 o quadro se inverteu – 42 % de russos e 30 % de cazaques. Com o fim da União Soviética em 1991, muita gente aproveitou para emigrar, em geral de volta ao país de origem (inclusive russos). Hoje, são 69 % de cazaques e 18 % de russos. Se adicionarmos a essa paisagem humana o atual percentual majoritário de muçulmanos – em torno de 75 %, com 21 % de cristãos ortodoxos – dá para ter um vislumbre das premissas que movem “18 kHz”: uma sociedade multiétnica instalada a fórceps, em si mesma um projeto multiétnico confinado nos limites do império soviético, sob a égide do Partido Comunista russo.

O filme – inspirado no livro “Hardcore” da jornalista Zara Yesenaman – acompanha as desventuras de dois adolescentes de etnia cazaque, portanto asiáticos, na década de 1990, quando prevaleciam na arquitetura urbana de Almati os conjuntos habitacionais padrão União Soviética. Ambos convivem com DJs e garotas de feições caucasianas, portanto europeus. A sedução do rock – poster de Jim Morrison surge em uma parede – e a escalada no consumo das drogas entram na vida da dupla, empurrando-os para o limite: a saída é a liberdade, desejo abstrato e inefável. A primeira década pós-URSS, pano de fundo de “18 khz”, foi traumática para todos que orbitavam em torno de Moscou, política e economicamente. Na economia das drogas, mais ainda: as fronteiras tornaram-se mais porosas, o que era antes um sistema fechado, o mundo soviético, passou a produzir e comerciar as mais variadas substâncias, sintéticas ou não, em escala inédita. De acordo com ONU, o uso de drogas está mais disseminado e crescendo mais rápido no Cazaquistão do que em qualquer outro país da Ásia Central: a maconha é cultivada abertamente, a papoula do ópio e efedra (para a droga efedrina) de forma ilícita, mas intensa. A heroína teve um surto de produção na década de 1990, no momento em que nossos protagonistas a experimentavam. E o pior: o Cazaquistão tornou-se rota de trânsito de drogas para a Rússia, onde a importação disparou depois da queda do comunismo, e a Europa, notório mercado de alto poder aquisitivo. O Afeganistão, maior produtor mundial de ópio, matéria-prima usada na produção de heroína, está logo ali, embora não tenha fronteira direta com o Cazaquistão.

A súbita desestabilização do Estado afegão muda o cenário e aumenta as incertezas. A ordem global impacta os cidadãos ordinários residentes em Almati: “18 kHz”, por ironia da história, parece estar cada vez mais atual.

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