10+ Netflix 

Uma Lista pessoal de um de nossos vertenteiros

Por Daniel Guimarães

Minha lista não tem a pretensão de trazer obras “escondidas” na plataforma, nem de recomendar as mais desconhecidas possíveis. Listei boas obras, que independem de serem cults ou famosas. Entretanto, procurei evitar os extremamente óbvios. Enfim, esta é uma lista que contém filmes de diferentes épocas e estilos na Netflix, que acredito serem, no mínimo, curiosos, divertidos ou reflexivos.

SEM DESTINO (Easy Rider, 1969, 95 min, de Dennis Hopper)

O clássico de Dennis Hopper é uma recomendação obrigatória no catálogo do site. Além de uma representação icônica da contracultura norte-americana, é uma das mais fortes críticas ao sistema social americano. Wyatt (Peter Fonda) e Billy (Dennis Hopper) rodam de moto pelo país em busca do Estados Unidos idealizado, vendido como livre e o lugar onde todos podem crescer.

Em sua viagem encontram o verdadeiro Estados Unidos, o que limita a liberdade dentro de uma imposição de valores morais e convenientes. O “sonho” não existe e, quem é mesmo livre, não possui espaço. Para além da incrível perspectiva moral e sistêmica, o filme possui uma trilha sonora marcante, atuações excelentes e é um marco de mudança em uma nova Hollywood.

RÁPIDA E MORTAL  (The Quick and the Dead, 1995, 108 min, de Sam Raimi)

Um faroeste de Sam Raimi. Somente isso deveria ser o suficiente para instigar curiosidade a assistir o estrelado longa. O filme está longe de ser um faroeste perfeito que discute os valores morais e míticos da sociedade e sua inerente violência como faz John Ford, Howard Hawks ou mesmo Sergio Leone. Entretanto, encontra-se um filme extremamente divertido e muito particular do diretor de “Evil Dead”.

“Rápida e Mortal” passa em uma cidade típica de faroeste dominada por um ditador local que se impõe sobre a população através da violência. Nesse cenário, Lady (Sharon Stone) chega com um objetivo misterioso e entra no torneio de duelos da cidade. Planos holandeses em excesso, zoom extravagantes, duelos caricatos e irreais são marcas em um filme que passa longe de se levar a sério. Despretensioso e eficiente, a estética de Sam Raimi é sempre curiosa de assistir.

A IDENTIDADE BOURNE (The Bourne Identity, 2002, 119 min, de Doug Liman)

Talvez uma recomendação muito conhecida, porém minha impressão pessoal é de que a saga de ação está caindo em certo esquecimento. O primeiro da franquia, em particular, é um ótimo filme do gênero. Aqui conhecemos Jason Bourne (Matt Damon) e seu universo de espiões. O protagonista é encontrado no meio do mar sem qualquer memória de sua identidade. Porém, suas habilidades físicas não são esquecidas e agem naturalmente, enquanto aparentemente todos querem matá-lo. A partir disso, ele precisa descobrir quem é e o que faz.

A simplicidade desse primeiro longa é muito atrativa em um filme que não possui a pretensão de grandes temas e sim de explorar um universo de ação que trabalhe o espaço e os movimentos de forma a fazer o público sentir ao máximo sua estética. O uso da câmera é o melhor dentro da franquia, visto que é o único que a mantém estabilizada. A encenação e os cortes são articulados da melhor forma, evitando a artificialidade que incomoda nos próximos da franquia.

ELENA (Elena, 2012, documentário, 90 min, de Petra Costa)

Petra Costa utiliza do cinema como forma de descoberta e revelação pessoal. A documentarista, através dos arquivos de sua própria família, juntamente com a forte figura de Elena, sua irmã, busca descobrir sua própria história e identidade. A influência que sua falecida irmã possui sobre si mesma é enorme e, no fim, narrativa. Quem foi Elena, essa figura de alguma forma misteriosa, mas que está tão presente em sua formação como indivíduo, é a pergunta que Petra decide responder. Nada mais justo que utilizar da narrativa do cinema como uma forma de montar e revelar esse retrato, que acaba por ser também, de si.

Imagens e narrações extremamente poéticas na voz de Petra se juntam a melancolia inerente desse documentário. O pessoal no filme é materializado e sentido como se a cineasta estivesse se abrindo e, somente assim, conseguindo se entender. Por fim, todos entendem e exaltam o que é Elena e Petra, enquanto filme e pessoa. Leia a crítica completa AQUI

JOVENS, LOUCOS E REBELDES (Dazed and Confused, 1993, 103 min, de Richard Linklater)

Richard Linklater aborda a juventude. Um dos diretores mais incríveis a falar de relações humanas encena jovens que não se encontram em nenhum espaço e, nesse caminho, aproveitam a vida em meio a angústia do futuro. Não se trata do melhor, mas é um dos primeiros longas do diretor responsável pela fantástica trilogia “Antes”.

O olhar de Linklater para entender, em minúcias, como nos expomos e nos reprimimos através de símbolos, gera um prato cheio para explorar a época que mais dúvidas sentimos. Floyd (Jason London) nos conduz na narrativa das inconstâncias sobre o futuro pós colegial nos anos 70, enquanto é espelho para Mitch (Wiley Wiggins), seu irmão mais novo, que acaba de entrar neste meio. Nada mais universal que mais novos se espelhem nos próximos mais velhos. O interessante, porém, é perceber que Floyd, mesmo como inspiração e já tendo passado por certas experiências, encontra-se tão perdido quanto Mitch. 

PRINCESA MONONOKE (Mononoke-Hime, 1997, animação, 134 min, de Hayao Miyazaki)

Hayao Miyazaki é um mestre de criação ficcional. Poucos conseguem criar universos e ambientes completamente novos para falar de temas relevantes do mundo “real”. Aqui, uma humana que cresce em meio ao mundo de animais míticos, luta em favor destes para que a industrialização e o mundo trabalhista não destruam a natureza e a riqueza que advém dela.

Muitos exaltam o filme pela (excelente) crítica que faz. Porém, o que beira o surreal é o quanto o diretor consegue criar, em pouco tempo, a impressão crível daquele mundo. Tornando-o de certa forma naturalista, animais que possuem líderes e reinos com sua própria cultura e personalidade visual e textual tomam vida. Quando, dentro desse entendimento ficcional, consegue-se através de sua fluidez temática criar uma obra que fale sobre assuntos urgentes e atuais, o filme se torna transcendental. As obras do estúdio Ghibli e do próprio Miyazaki estão badalados no momento, justamente por terem entrado no catálogo da Netflix. O momento é excelente para assistir a ótima animação.

O SOM AO REDOR (O Som ao Redor, 2012, 131 min, de Kleber Mendonça Filho)

Este se tornou escolha árdua para a lista. Longe de se tratar da qualidade do filme, porém optei por colocar apenas um de Kléber Mendonça Filho. Na disputa com Aquarius, escolhi O Som ao Redor por ter a impressão puramente pessoal de que o primeiro se tornou mais popular. Aqui, o diretor cria, no ambiente do recife, um cenário de paranoia urbana aliada a crítica de classes. A violência e a segurança se mostram como uma preocupação abundante, exalando a incapacidade de entender os espaços que cada um está inserido.

Antes, menos catártico e mais minucioso que Bacurau, Kléber já estava falando desse conflito inerente nos ambientes em que as camadas sociais imperam. Metafórico sem ser arrogante e pretensioso, o diretor explora como as classes mais altas, mesmo que críticas e cientes de sua posição, jamais sentirão a realidade de classes mais baixas. Por vezes, seu senso de moralidade pelos menos favorecidos é somente uma vontade de fugir da culpa inerente que sentem e não de fato por um exercício genuíno de eliminação da categorização que vivemos. Leia a crítica completa AQUI! 

TODO MUNDO QUASE MORTO (Shaun of the Dead, 2004, 100 min, de Edgar Wright)

Edgar Wright em seu melhor trabalho. Como poucos, o diretor utiliza de recursos do pop para criar uma narrativa que insere a comédia e o horror de maneira escandalosa e absurda, criando genuíno entretenimento. No primeiro longa da trilogia “Cornetto”, Shaun (Simon Pegg) vive uma vida urbana rotineira e simples. Até que os mortos voltam a vida e o protagonista precisa lutar pela sobrevivência em meio a um apocalipse zumbi.

Leve e descompromissado, soa como uma conversa nos bares que são tão importantes dentro do filme. Combatendo zumbis com discos de vinil, Queen tocando ao fundo, videogames em meio ao caos, é o que se encontra no “terrir” pop do diretor de Baby Driver.

MONTY PYTHON EM BUSCA DO CÁLICE SAGRADO (Monty Python and the Holy Grail, 1975, 92 min, de Terry Jones e Terry Gilliam)

O grupo de comédia inglês dispensa apresentações. A recomendação é, para os que não assistiram, reparem esse erro. As opiniões divergem sobre o melhor longa-metragem do grupo, geralmente alternando entre este e A Vida de Brian. O Cálice Sagrado me parece mais inspirado e, curiosamente, menos “calculado” que A Vida de Brian. Isso porque o grupo, apesar de extremamente criativo, insere a própria falta de ideias dentro do filme. Com isso, gera-se sequências absolutamente antinaturais, que não deveriam fazer parte de um filme que preza pela “coesão” de sua história. Com isso, geram-se cenas icônicas e hilárias.

Um filme que aborda a lenda de Rei Arthur e da távola redonda, mas que começa com os personagens batendo cocos para emular sons de cavalgadas, passa longe de se importar com o naturalismo da história. A falta de recursos possibilita esquetes que não se prendem a conexões narrativas e isso, como já é sabido, funciona como forma de exalar a criatividade. O final, por exemplo, é impagável e somente Monty Python Flying Circus poderia ter realizado.

O ENIGMA DO OUTRO MUNDO (The Thing, 1982, 110 min, de John Carpenter)

John Carpenter é um cineasta brilhante em diversos gêneros. No terror, no ambiente urbano, na sátira e em outros, o diretor é um mestre. Aqui, porém, alcança seu auge. Utilizando do clássico ambiente isolado nos árticos para elaborar o terror, acompanhamos R.J MacReady (Kurt Russell) e seu grupo de pesquisadores entrarem em pânico por descobrirem que uma coisa (como o título original) se apossa de corpos como um parasita.

O clima de desconfiança entre a equipe transcende até o espectador, transformando a tensão em constante até os últimos minutos, na dúvida de em quem confiar. O gore e o grotesco é um espetáculo à parte, através de seus efeitos práticos, adicionando ao terror psicológico, o horror corporal e visual. Trata-se de um dos melhores filmes já feitos dentro e fora do gênero.

 

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