Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Yellow Cake

Febre e mal-estar nos trópicos

Por Vitor Velloso

Assistido online no Festival de Roterdã 2026

Yellow Cake

Existe uma característica das produções nacionais contemporâneas que é interessante de se pensar. Uma parcela dos filmes tem dificuldade de lidar com a representação de seus debates concretos de forma mais materialista e acaba recorrendo a estruturas narrativas que apresentam algum grau de digressão da realidade. É o caso de “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que recorre a uma projeção de Brasil inexistente, mas calcada em uma base histórica bastante deturpada e destituída de um referencial religioso, apresentando uma população pagã no sertão brasileiro e uma articulação de ficção científica. Ou de “Pasárgada” (2024), de Dira Paes, que aborda a exploração de recursos naturais por empresas estrangeiras em solo brasileiro, utilizando intermediários para movimentar uma indústria que acontece debaixo dos panos. Para além da presença imperialista, colonialista ou de termos similares, há uma predileção por uma distorção da realidade por meio de elementos tidos pelos europeus como “exóticos”. A motivação dessas similaridades não é possível de afirmar, mas parece que debater a realidade a partir da materialidade não é suficiente, e existe uma espécie de febre dos trópicos que atinge o Sul Global nessas formas de representação.

“Yellow Cake” é um exercício parcialmente interessante, pois compreende a literalidade de alguns desses debates, levando a febre ao extremo, as “mazelas” de forma metafísica e estabelecendo uma ligação intrínseca entre a terra e essas presenças naturais, que atingem comportamentos sociais, culturais, econômicos e políticos. Trata-se de uma simplificação difícil de medir, pois, à medida que existe um objetivismo, há também uma inclinação à recusa de um positivismo mais barato, que apela para argumentos holísticos, com base em particularidades exteriores à realidade ou em uma argumentação fluida. Porém, existe uma muleta argumentativa nesse tipo de estrutura, pois, à medida que a realidade não basta, enveredar a representação por um caminho quase distópico e cósmico pode ser… delirante. Não por acaso, a base da narrativa caminha para essa febre nuclear, cósmica e natural, já que discutir a materialidade de processos reais é sempre mais difícil. Sair da particularidade para o todo demanda um exercício extensivo, que cobra do realizador uma análise capaz de sacrificar essa base quase metafísica. A saída para as múltiplas referências acaba sendo a analogia, recurso tão eficaz quanto limitante, especialmente quando se abordam reflexões concretas. Ainda assim, há uma espécie de sintoma, com o perdão do trocadilho, que parece dar uma tônica comum aos projetos: uma base que compreende suas forças a partir da suspensão e entende informações fragmentadas, reproduzindo questões históricas por meio de menções superficiais, como o Césio e afins, mas que não parece disposta à reflexão, e sim ao fatalismo.

É interessante também como “Yellow Cake” parece dar alguns passos atrás para retomar debates da década de 1970 e aplicá-los à conjuntura contemporânea, abraçando expressões pandêmicas, formas de resistência, diretas e indiretas, além de dualidades morais e políticas. O problema é que as discussões não são novas, as reflexões também não, e a forma parece muito dependente dessa formulação popularizada por Kleber em “Bacurau“, tornando tudo uma espécie de imagem e semelhança do filme de 2019. Aliás, até a necessidade de criar uma catarse de gatilho fácil nos minutos finais tem suas origens ali.

Ivo Lopes Araújo e Gustavo Pessoa, que assinam a fotografia, conseguem fazer um bom trabalho ao tornar literal a “febre” na imagem, por mais que exista um caráter expositivo nessa proposição. Aqui, existe um jogo de abarcar uma certa plasticidade entre o científico, o natural e o ancestral, que até funciona, mas torna-se repetitivo com o passar do tempo, por mais que Ananias de Caldas e Avelino los Reis façam um bom trabalho na direção de arte.

Por fim, com parte da equipe de “Azougue Nazaré” renovada, Tiago Melo faz um filme com inclinações notáveis, que não consegue se desvencilhar de um certo sintoma padronizador dessa representação brasileira contemporânea, apelando para signos repetidos, discussões um tanto esgotadas e uma necessidade de afirmar a particularidade por meio de uma base reproduzida por um certo padrão estético e estrutural que tem classe bastante definida. Parece que temos um novo-velho incômodo nos trópicos, o que é ótimo, mas esse mal-estar ser drenado para uma base holística que suspende a discussão para uma certa superficialidade de meias-respostas enxutas não vai dar liga. Ainda assim, me parece que é uma vertente que tem se expandido. Vamos seguir acompanhando esse debate, por mais que já haja sinais de saturação precoce e importações desnecessárias.

2 Nota do Crítico 5 1

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