Mostra Online Premiados Super Curta 2025

Vulgo Jenny

O sexo e a cidade 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Vulgo Jenny

A cidade está em cena; aqui no caso, Goiânia e suas contradições. O centro da cidade está exposto em primeira pessoa, sem qualquer sinal de fortalecimento. É a tensão gerada pelos embates nas ruas e nos locais públicos que “Vulgo Jenny” se posiciona dentro da Mostra de Cinema de Tiradentes, revelando uma geografia que não está restrita ao mapa emocional no centro, mas principalmente a relação de seus personagens com as ruas e cores de uma cidade que revela múltiplos tons de falência. Seguir tais seres de maneira indiscriminada é exatamente a opção dada ao espectador, que precisa mergulhar em proposta narrativa diversa para revelar as caras verdadeiras de um festival e seus diálogos. Mais que isso até, de um outro recorte de país.

E isso não precisa ser debatido de maneira genérica; muitos Brasis são expostos no nosso cinema, cada vez mais e com maior propriedade. Mas existem ainda vários exemplos de nação que ficam escondidos, e não apenas geograficamente. Estamos falando de personagens marginalizados para além de suas origens, e que seguem nas bordas das conversas e da atenção. São mulheres exploradas pelo seu valor sexual agregado, homens que naturalizam e expandem tais laços, um recorte social marcado pelas relações entre sexo e cidade, no que um aspecto reflete o outro e potencializa suas demarcações sociais. “Vulgo Jenny”, ainda que aponte dados para outros recortes, se centraliza para o lado dos desvalidos, e na exata proporção de que tais personagens não se veem como tais.

Essa é a estreia na direção em longa-metragem de Viviane Goulart, no qual ela expande o universo de “Um Homem Nu” (inspirado no conto de Marco Coimbra), para observar outros personagens de maneira mais aguda. Essa passagem em específico dentro do filme é um dos seus melhores momentos, no sentido das resoluções dentro do tema se desenvolverem à perfeição. É um arco que, de tão fechado, acaba por realçar o que não se realiza tão bem, e que justamente está atrelado à sua personagem-título. Com uma apresentação certeira, que rasga as fronteiras entre um possível documentário e a ficcionalização daqueles relatos, a Dani precursora de Jenny se monta na nossa frente, para desmontar-se em suas múltiplas subjetividades.

Apesar disso, a dispersão narrativa de “Vulgo Jenny”, que soa orgânica de verdade, atravanca nosso olhar para essa personagem específica. O que Jenny tem de esfuziante, perde o valor quando o filme decide abarcar outros campos de olhar. Acaba caindo em uma estranha contradição, em que vemos o mundo que cerca Jenny mais que a mesma, e isso não necessariamente reverbera as características da mesma. Logo, o filme transforma-se em um painel sobre o lugar dos desvalidos nas cidades, em momentos onde a cidade acaba por ocupar o espaço de voz principal. Essa percepção está na marcha do homem nu, na rodoviária onde Jenny vende suas pipocas, na veemência do caldo de cana, na busca noturna por ruas que parecem nunca chegar.

Todos os holofotes, no entanto, nos levam a Gilberto. Vivido por Arthur Cintra, sua transformação em cena acontece em ordem reversa: vemos seu desfecho logo nos primeiros minutos, em expressão verdadeiramente apavorante. Gilberto retorna a trama quase para o desfecho do seu arco, onde o ator tem uma nova leitura dos eventos. Seu corpo de ator é acertado, porque demonstra o exato oposto do que vemos inicialmente; um homem relaxado na posição social que diz ocupar, ou que pretende performar. A violência da misoginia está impressa em cada gesto seu, e tudo tem sutileza rara, porque não se trata de uma abordagem do horror, mas de uma outra forma de apavoramento crescente, acabando por aplacar os intentos. É um ator cheio de recursos, que guarda momentos de díspares de olhar, cuja progressão de desconstrução acontece em reverso, revelando ainda mais do seu talento.

O experimento empreendido por Goulart é acertado quando analisamos friamente o filme que ela realiza; nesse sentido, o saldo positivo é conseguido ao sentar para escrever. A sensação durante a sessão, no entanto, escapa de uma certa admiração, porque suas propostas narrativas seguem atravancando os resultados, ainda que no âmbito emocional. “Vulgo Jenny” é uma ferramenta coletiva que não se completa, incluindo a despretensão da produtora Dafuq para o jogo cênico que é sua arma nos lugares por onde passa. A finalidade do projeto está na linha de observação dos habitantes de um grande centro urbano, cujas decadências mútuas se confundem e dialogam entre si.

3 Nota do Crítico 5 1

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