A Vida Íntima de Pippa Lee
Entre artificialidades
Por Fabricio Duque
“Eu quero ser entendida”, diz a protagonista desejando não mais ser a mulher enigmática para ela e para os outros. A atmosfera de “A Vida Íntima de Pippa Lee” é nostálgica, como uma vida politicamente correta e plastificada. Com direção de Rebecca Miller (que traz nas costas ser filha do dramaturgo Arthur Miller de “A Morte do Caixeiro Viajante” e “As Bruxas de Salem” e também de ser casada com o ator Daniel Day-Lewis), o filme tem produção executiva de Brad Pitt e aborda a vida de Pippa Lee, com 50 anos, que mora em um bom bairro de Nova York, é casada com um brilhante editor 30 anos mais velho que ela, e “atua” como mãe orgulhosa de gêmeos bem sucedidos. Mas quando seu marido decide que está na hora de se aposentar e sair da cidade, e ainda arruma uma amante bem mais jovem do que ela, Pippa vê seu mundo, sua vida, sua família e tudo o que ela mais ama correr perigo.
A mise-en-scène do longa-metragem potencializa cores vibrantes e iluminadas para narrar a vida do presente e das memórias do passado. Logo percebemos que essa felicidade toda é forjada e que as rachaduras são (re)coladas a todo momento. A crença hipócrita, tipicamente humana, impulsiona os personagens a seguir adiante, cada vez mais aprofundados na solidão resignada da satisfação pessoal ao próximo. “O humor dela governa a minha vida”, sobre a mãe com problemas.
Aqui, há uma linha imaginária dividindo a loucura real e a percepção e ou desejo de tudo estar aparentemente bem. Há o sarcasmo irritado prestes a explodir. “A Vida Íntima de Pippa Lee” explica como Pippa tornou-se tão enigmática. As frustrações e desapontamentos geram ações impensadas e inconscientes de ligação com o passado, implorando por libertação. A atmosfera é infeliz e com a sensação de tudo está perdido, com uma trilha sonora melancólica para depressiva.
Em “A Vida Íntima de Pippa Lee”, as personagens precisam de carinho e atenção, que evitam fornecendo o poder ao controle da verdade desacreditada deles mesmos em suas vidas. “Todo dia eu tentava ser boa para apagar o passado, como uma dançarina que ensaia um novo número, acreditando na repetição para educar o meu cérebro”, diz.
Mas quando tudo estava perfeito (as interpretações e os aprofundamentos), a diretora coloca tudo a perder quando simplifica o que não conseguiu abordar (e finalizar), muda-se assim o rumo narrativo e até mesmo as próprias sensações de imersão com o espectador. Transfere-se uma artificialidade ao instante do confronto e busca a todo momento a felicidade de seus personagens. Neste momento, este final é outro filme. Urgente, afoito, apressado, nervoso e corrido para que tudo aconteça da melhor forma e que tudo seja feliz enquanto dure, querendo mesmo que nenhuma ponta fique em aberta. Essa decisão desaponta o público, que, mesmo com determinação e vontade, segue firme até o final. Vai que algo acontece e o surpreenda!