Unerasable!

O rasgo na costura

Por Vitor Velloso

Assistido online no Festival de Roterdã 2026

Unerasable!

Aparentemente, a atual edição do International Film Festival Rotterdam, em sua competição principal, estabeleceu um certo padrão curatorial acerca dos longas-metragens da seleção. Seguindo as duas últimas obras debatidas aqui no Vertentes do Cinema, “La Belle Année”, de Angélica Ruffier, e “Variation on a Theme”, de Jason Jacobs e Devon Delmar, “Unerasable!”, de Socrates Saint-Wulfstan Drakos (nome fictício), é um filme que não se categoriza de forma simples no escopo de uma certa tipificação de produção cinematográfica.

O documentário ensaístico possui uma série de características particulares que o transformam em um produto de interessante trânsito de gênero, pois, à medida que se apresenta enquanto um relato sobre a própria trajetória do realizador — um cineasta independente torturado por sua participação em um movimento pró-democracia, forçado a deixar seu país em 2018 e a viver por cinco anos na Tailândia, sem documentação — também se revela uma reflexão aguda sobre deslocamento, identidade e as engrenagens invisíveis do poder. Posteriormente, ao migrar para o Ocidente em busca de uma vida minimamente digna, o diretor se vê enredado em uma nova forma de violência: a burocracia, mecanismo frio que substitui a brutalidade física por um sufocamento institucional contínuo.

Como explicita o texto de apresentação no site oficial do International Film Festival Rotterdam, não é por acaso que Sócrates Saint-Wulfstan Drakos seja um nome inventado. O pseudônimo não surge como um capricho conceitual, mas como gesto de autopreservação. Um realizador que enfrenta, de maneira tão frontal, tanto os limites das liberdades civis sob um regime autoritário do Sudeste Asiático quanto as engrenagens de um colonialismo interno entranhado em uma nação europeia marcadamente neoliberal dificilmente poderia se expor sem consequências. Ao término da sessão, compreende-se que o anonimato não funciona como ornamento simbólico, mas como efeito direto das estruturas de poder que o próprio filme se dedica a desvelar.

A narrativa se organiza a partir de um mosaico de imagens que assumem, sem constrangimento, suas diferenças de textura: registros brutos, trêmulos, quase clandestinos, convivem com planos de acabamento mais depurado. Do choque entre essas superfícies nasce, gradualmente, uma serenidade poética inesperada — algo que, à primeira vista, pareceria incompatível com a urgência política que atravessa o projeto. “Unerasable!” afirma-se, assim, como uma obra movida por um impulso íntimo e por uma dedicação que se evidencia em cada escolha formal, articulando memória pessoal e análise estrutural em um gesto de resistência que nunca abdica de sua dimensão humana.

Drakos também mobiliza, com evidente consciência, um repertório de referências cinematográficas para pensar o próprio ato de fazer cinema, sobretudo em um contexto no qual essa alteridade se manifesta simultaneamente como forma estética e como modo de vida. Suas influências ganham corpo em um percurso que transita entre Dziga Vertov, Luis Buñuel e outros mestres, convocados não como citações vazias, mas como ferramentas de fricção. É a partir desse diálogo que o filme explicita o conflito entre diferentes paisagens políticas, sociais e econômicas, todas atravessando uma trajetória marcada por impasses que parecem, do ponto de vista pragmático, insolúveis.

Trata-se de um cinema que acumula ruídos, internos e externos, e que não demonstra qualquer receio em “sujar” a própria imagem com manchas, rasuras e interferências que protegem identidades, deslocam sentidos e reconfiguram interpretações antes cristalizadas na história do Cinema. Essa base referencial não permanece estática: ela é tensionada, deslocada e, por fim, re-inscrita na realidade concreta que o espectador acompanha, fazendo do gesto ensaístico não apenas uma reflexão estética, mas uma tomada de posição diante do mundo.

Em “Unerasable!” há uma guerra de imagens, narrativas e contextos políticos, que deslocam para um “não lugar”, de identidade pessoal e cinematográfica, como se esse grande arquivo fosse uma permissão para que a multiplicidade de atravessamentos despertasse uma nova verve de reprodutibilidade. É um interessante exercício que em novas revisitações pode provocar novos olhares e perspectivas acerca de uma costura tão aberta, propositalmente volátil, como Socrates Saint-Wulfstan Drakos permite. E esse jogo de permissividade é uma importante chave para o funcionamento de uma obra que encontra brechas em si para caminhar em direção ao seu desfecho, por mais que a sensação seja de uma permanência inquieta e circular, a exterioridade infringe aqui um funcionamento tão caótico quanto controlado. É nessa calmaria que a tempestade vai se moldando.

3 Nota do Crítico 5 1

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