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Um Sonho de Amor

Um filme que está nos detalhes

Por Fabricio Duque

Um Sonho de Amor

“Um Sonho de Amor” homenageia um dos maiores diretores italianos de todos os tempos, Luchino Visconti. O espectador capta a referência desde o início do filme. As primeiras cenas acontecem em Milano, lugar o qual Visconti nasceu, viveu e dirigiu seus longa-metragens e da presença da atriz Marisa Berenson (que trabalhou em “Morte em Veneza”). É complementado pela narrativa clássica e pela fotografia gelo, quase sem cor, buscando a dicotomia da nostalgia com a atualidade. O diretor do filme em questão, Luca Guadagnino, ganhou notoriedade em “Mellissa P”, baseado no romance escandaloso por Melissa Panarello. A sua antiga parceria com Tilda Swinton (de “A Praia” e musa do cinema de Derek Jarman), gerou até um curto documentário sobre a atriz em 2002, “Tilda Swinton: The Factory Love”.Não poderia ter escolhido melhor seu elenco. A protagonista transmite elegância natural e não conquistada, permitindo conviver com regras sociais (e hipócritas), sem o abalamento de uma iniciante. A camera interage com quem assiste por assumir o status de espectador, observando ora se intrometendo na imagem, ora se afastando do que se vê, ora gira ao redor dos personagens. Os elementos para que se possa montar o entendimento da trama são apresentados. A narrativa é de construção. Caso a caso. Uma ação gerando uma próxima. A história nos mostra a preparação de um jantar de família. Quando o filme realiza a sua abertura, com os créditos iniciais, a imagem não possui coloração, por causa do gelo que cobre o lugar. Já dentro da casa, há cor, mas apagada, seca, fria, quase artificial. O roteiro deixa-se acontecer. A naturalidade é quase um pré-requisito para que a ação aconteça. Os familiares chegam, elegantemente.

O papel da câmera em “Um Sonho de Amor” é recorrente, aproximando sutilmente. Os convidados conversam sobre banalidades, nada muito aprofundado. A construção clássica ambienta para aprofundar. Aos poucos, as rachaduras, fragilidades, futilidades, defesas, crueldades são desmascaradas, mesmo envoltos numa aura inteligente e extremamente culta. O comportamento demonstrado soa falso, superficial. A montagem opta por ser direta. Não suaviza, não cria excessos e ou dramas. Corte seco. No momento do jantar, a forma rude da matriarca deixa todos desconcertados. Ali, discutem quem irá substituir o patriarca na empresa, gerando a rixa familiar (contida dentro destas regras impostas). Algum tempo depois, a trama passa-se em Napoli. Há o desejo de transmitir uma atemporalidade, mesmo fornecendo elementos da modernidade. A grua chegando à personagem, a narração interativa com a tela, isso direciona o espectador a um outro universo: o da manipulação. Desde esse momento, o roteiro não transpassará a certeza se é sonho, se é realidade, se a ação aconteceu ou se apenas foi um delírio, uma vontade e ou um desejo. O filho inicia uma amizade com um chef, que o ganhou em um campeonato. Neste início, ainda há a percepção das imagens surreais, desencadeadas por sonhos. O tom blasé e lounge intensifica a elegância nata. Ao provar a comida do amigo do filho, ela apaixona-se, ocasionando orgasmos gastronômicos. Esse ato a muda, inclusive a cor de seu vestido: vermelho. A atriz (Alba Rohrwacher, de “O que mais posso querer”) interpreta a irmã lésbica. “Não é um capricho, tenho certeza”, diz. Já em San Remo, a manipulação entre realidade e fantasia ganha força. Daí, a incerteza sobre algo é a única coisa que resta ao espectador.

Assim, clichês óbvios para resolver reviravoltas podem acontecer, já que não se tem mais domínio sobre nada. Há a música de perseguição ao personagem, depois a música romântica que insinua o que poderá acontecer. A protagonista, com a libido extremamente aguçada, procura, flerta, vivencia plenamente o tesão. Porém a imagem perde o foco. Será que aconteceu algo? As elipses temporais confundem ainda mais. “Um Sonho de Amor” torna-se um jogo de tentativa e erro para quem assiste. Há a imaginação dele. Há a imaginação dela. Outros personagens são manipulados também. Troca-se de tempo, propositalmente, como se o lado da verdade se misturasse com o outro não verdadeiro. Os detalhes transformam-se nos principais personagens. A atenção tem que ser dobrada e redobrada. A cena lembrando uma pintura, com o sol incidental, supõe um sexo sem pudor, extremamente natural. Ela é uma estrangeira.

“Uma russa que aprendeu a ser italiana”, diz. A natureza, o corpo respirando, a natureza, o corpo do homem, a natureza, novamente a respiração humana. Indica-se: London. É um filme de instantes, como o filme exibido na televisão “Filadélfia”, na cena da “La mamma morta”. Outro jantar acontece. A comida mostra a verdade ao filho e a mãe. Uma dica: preste muita atenção ao prato apresentado. Isso gerará a revolta, a tragédia, a culpa, o silêncio, o sofrimento, o choro e a loucura. Após os créditos finais, há uma cena com a velocidade da imagem lenta e não tão visível assim. Loucura? Realidade? Concluindo, um filme que está nos detalhes, que busca a naturalidade intrínseca da elegância e que manipula até o último minuto se é ou se não é. É estranho, avoado, arrastado. Valendo a pena assistir. Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Figurino e indicado ao Globo de Ouro 2011 de Melhor Filme Estrangeiro.

3 Nota do Crítico 5 1

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