Todas as Estradas Têm Gosto de Sal

O agridoce do passado

Por Letícia Negreiros

Festival do Rio 2024

Todas as Estradas Têm Gosto de Sal

“Todas as Estradas Têm Gosto de Sal” instiga-me um paradoxo: a urgência de paciência. Ao nos apresentar a vida de Mack (Zainab Jah, Kaylee Nicole Johnson), Raven Jackson decanta as experiências da personagem, gotejando uma riqueza de detalhes e sensações primordiais ao crescimento afetivo, mas que se acinzentam ao longo da transformação em adulto. 

O longa se divide entre infância e vida adulta, com Jackson posicionando a adolescência dos também como parte da vivência infantil. Não há uma especificação exata do que é passado e o que é futuro. A narrativa se alterna entre acontecimentos infantis e adultos de Mack acompanhada de sua irmã mais nova, Josie (Moses Ingram, Jayah Henry). A escolha temporal torna o acompanhamento da trajetória das mulheres um tanto confuso, por vezes fazendo com que nos percamos entre personagens e suas relações uns com os outros. No entanto, eventualmente nos situamos na narrativa. Acaba por se traçar um paralelo entre a montagem e a própria experiência de viver: se começa perdido, mas eventualmente aprendemos no tranco. 

Jackson opta por uma fotografia intimista e observadora, trabalha pela cinematografia de Jomo Fray com muitos planos detalhes e longos momentos de câmera na mão. A atenção às pequenas coisas nos traz uma memória da curiosidade e percepção infantil. Mack se atenta a essas nuances. As unhas pintadas da mãe, as mão do pai na pescaria, ao toque de Wood (Reginald Helms Jr.) em seu ombro. Os planos ressaltam, também, as sensações físicas e sentimentos dela em relação a esses detalhes. Sentimos a importância do toque, da terra da chuva com ela. Mack carrega consigo essa atenção na vida adulta, mesmo que não necessariamente carregue o carinho e o fascínio com que os via. 

Essa quebra de dá com a morte de sua mãe, Evelyn (Sheila Atim). Antes, havia um aconchego em viver. Era fascinante observar o desenvolver do mundo ao seu redor. O vermelho, apresentado no contexto do casamento e amor de seus pais, é o calor de um lar. O amarelado e a atmosfera quente se vão com a figura materna. “Todas as Estradas Têm Gosto de Sal” passa a ser um mais frio e Mack parece mais afastada de suas experiências de vida. O vermelho retorna, marcando momentos de alívio ou algum sopro de felicidade, mas sem nunca retomar o fervor daquele fragmento de infância. O calor tem um rápido retorno na presença de Wood, quando Mack o comunica que não criará a menina que espera. Há uma aproximação com a ideia de sua mãe  e uma ruptura com a mesma. Mack sente sua falta, mas não é como ela. 

Esses momentos se estendem em planos longos, nos quais a câmera acompanha os movimentos e os detalhes. É uma extensão da atenção de Mack, um prolongamento do que sente com as pequenas coisas. A instabilidade da gravação à mão ecoa a volatilidade da vida, a rapidez com a qual o tempo passa. 

A poesia de “Todas as Estradas Têm Gosto de Sal” está na imersão que seduz seu espectador. Muito disso se dá pela relação estabelecida com a natureza. As tradições e visões de mundo, passadas da avó para o pai, depois para Mack e a irmã, contemplam e percebem a natureza como um ser próprio, maior e mais eterno que tudo aquilo que os cerca. Se voltam particularmente para a personificação que fazem da água e do barro, apreciando o que provém de ambos. A vida, assim como a água, é cíclica. Os acontecimentos de sua infância refletem em sua vida adulta. Sua vida adulta traz previsões do que será a vida de sua sobrinha. Afinal, as pessoas também são fluidas e cíclicas como a água. Perde a sua mãe e a vê em sua sobrinha. Quando se for, sabe que será visto em uma outra menina que virá. 

“Todas as Estradas Têm Gosto de Sal” é contemplativo de um modo ponderado e tranquilo, sem instigar grandes reviravoltas filosóficas. Ressalta o que todos já tivemos dentro de nós em algum momento: a importância da paciência. Nos convida a apreciarmos nossas fases, desfrutar da melancolia e aprender a ver a beleza nela. 

Tendo estreado no Festival de Sundance em 2023, “Todas as Estradas Têm Gosto de Sal” está agora em exibição no Festival do Rio 2024. 

4Nota do Crítico51

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