The Salt of Tears

A vivacidade da cinefilia pela simplicidade desmedida

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020.

Há quem diga que o francês Philippe Garrel faz sempre o mesmo filme. Não, meu caro leitor, não é verdade. O que o realizador bebe essencialmente da fonte do classicismo da cinefilia, em que a simplicidade do conteúdo sobrepõe-se à forma, mitigando multi-artifícios ilusórios (parafraseando o realizador português Manoel de Oliveira) e dando lugar à pureza do “prazer dos olhos”, como já dizia o cineasta François Truffaut. É a reverberação da Nouvelle Vague, que nos conduz por tempos, passionalidades, espaços, ansiedades, esperas, impulsos, liberdades, erros, egoísmos, utopias, ingenuidades, vulnerabilidades, urgências e amores, enfim, a própria vida como ela é.

Em seu mais recente longa-metragem “The Salt of Tears” (no original”Le sel des larmes” e em uma tradução literal de “O Sal das Lágrimas”), a experiência visual acontece mais uma vez pelo preto-e-branco, cuja monocromia serve para intensificar uma pausa da realidade com atemporalidade, desencadeando a autonomia do olhar. Integrante da mostra competitiva ao Urso de Ouro do Festival de Berlim 2020, o longa-metragem é uma história de amor pela visão libertária e anti-moralista dos franceses. Não podemos julgar com nossas sensibilidades aguçadas e conformismos hesitantes. É uma importação nostálgica adaptada aos tempos modernos.

Há quem diga também que o filme é “velho” pelos mesmos temas universais, pela trilha sonora “brega” e pelo excesso de “fades“. Não, não há embasamento, visto que se analisarmos toda e qualquer obra, perceberemos que o amor é o fio condutor principal que permeia as tramas, que no fundo, são e serão todas iguais. Até porque já foi dito que todas as histórias já foram contadas. Sim, a música é excessivamente sentimental, mas que se torna um mero ponto quando a precisão da direção ganha corpo, ritmo e cadência. A câmera Stalker, a espera no ônibus em direções diferentes. Um flerte. O interesse dela pelo amor. O dele pelo sexo. Ela permite. Ele muda de direção. Os dois estão tímidos no primeiro encontro. Ele investe. Ela cede por já estar encantada. Tomam coragem. Conversam amenidades. Ele “já foi, mas não é mais local”. Ela está indo ao trabalho e a “mobilização contra a repressão sindical”. Ela o acha legal. Conversam mais. Hesitam no final.

Pode soar simples demais a descrição da cena anterior, porém é a forma e “jeito” que potencializa camadas psicológicas-existencialistas sobre vidas em literatura e à mercê dos acasos. É um filme de situações, que podem ou não mudar de acordo com as escolhas. Do platonismo à consequência natural da paixão vivida. De “Jules e Jim” a “Acossado”, este de Jean-Luc Godard. A predileção pelo analógico é tanto que o nome do personagem principal, um mulherengo inveterado, chama-se Luc. Situações continuam a se desenrolar, como novas formas de amar: o poliamor, que sempre funciona mais para um que ao outro. “A mulher que espera o homem vai para o túmulo sozinha”, diz-se com verdade ultra verdadeira.

A narrativa de “The Salt of Tears” corrobora outra característica da cinefilia: o naturalismo da nudez das cenas. Banhos são captados de forma orgânica, livremente e sem pudores. “Portas abrem, aí é com você”, conselho de um mais velho a um jovem ainda inocente. O que pode incomodar aos mais puritanos é a mitigação dos tabus e do politicamente correto. Não há podas e freios no pensar. Por isso são livres e se “pautam” pelos relacionamentos e seus instantes com data de validade.

The Salt of Tears” é uma crônica do individualismo. Do belo que encanta, que é “traído” por uma gravidez. Que segue mulheres por carência e desafio. É uma odisseia de idas, vindas e voltas, à moda sugestiva das obras do realizador Hong Sang-soo. Garrel constrói um caminho da leveza, como a cena dos jovens dançando diversão desmedida, assim, com essa cena, nós podemos assistir a vida, traduzida em sua plenitude essencial: a de ser humana. Falhas, consertos, repetições de erros antigos, novos vícios, acertos, decisões equivocadas, confusões criadas, tudo deixa a vida mais verdadeira e é por isso que este longa-metragem não é descartável, pelo contrário, deve ser enaltecido, por impulsionar a existência com a recuperação da simplicidade da nostalgia e seus valores-princípios brutos, não lapidados e ainda sem o engessamento condicionado que a sociedade tem de sempre querer padronizar em caixas prontas do mesmo tamanho.

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