Testamento
Pessimismo frente às mudanças
Por Pedro Sales
Sentados em uma sala pequena, idosas e idosos ouvem um pianista tocando. A câmera observa esta ação com a mesma ternura deles para depois se aproximar da parede ao fundo, estampada com uma pintura. Quanto mais perto, mais clara a imagem: europeus e indígenas têm seu primeiro acordo firmado, conforme sugere o movimento de aperto de mãos. Uma pretensa cordialidade disfarçada do prenúncio de um genocídio, uma personagem define. É com a ambiguidade desse mural que se inicia “Testamento”, novo longa do canadense Denys Arcand. Vinte anos após o premiado “Invasões Bárbaras” (2003), o diretor propõe uma sátira irregular “contra tudo isso que está aí” que mal consegue se estabelecer entre comédia e drama. Pelo contrário, expõe uma clara discrepância entre o exagero do humor e a tentativa de emocionar e uma tendência ao discurso reacionário.
Jean-Michel Bouchard (Rémy Girard) é um idoso que vive em uma casa de repouso localizada em Quebec, província predominantemente francófona no Canadá. Aos 73 anos, ele lida diretamente com a iminência da morte em uma espécie de autoaceitação disso e com as mudanças culturais da contemporaneidade que genuinamente o perturbam. Diante da velhice e sua eventual rabugice, trazida pela idade, o sr. Bouchard enfrenta ainda o desejo de se aproximar de Suzanne (Sophie Lorain), a diretora do lar. Ela, por sua vez, é colocada em uma sinuca de bico envolvendo a pintura da introdução e os discursos progressistas que pedem pela remoção de uma imagem que ofende os povos originários do Canadá. Toda a questão das mudanças e dos avanços é trazida sob um verniz cínico e muitas vezes conservador. Soando como um desabafo pessimista de quem sente que o próprio tempo já passou.
Esse tom descrito acima é observável desde a introdução de “Testamento“. Um casal muçulmano pergunta à diretora se a alimentação se aplica às restrições impostas pela religião, ela responde que sim, e o casal sai aparentemente feliz da visita à casa de repouso. Logo depois, Suzanne explica a um homem que minorias devem equivaler a uma porcentagem dos residentes, após resolução do governo. Nessa simples cena, o diretor implica que essa é mais uma imposição do “politicamente correto”. Essa ojeriza a transformações sociais se mantém ao longo da obra. Na cena em que Jean-Michel erroneamente é premiado na categoria “Homenagem a Nossos Idosos”, o alvo da sátira é o feminismo. Por meio de um humor físico genuinamente engraçado, o texto faz de mulheres ocupando o espaço um símbolo do que “há de errado” para a visão conservadora do protagonista. Portanto, a tarefa de se dissociar do que pensa o personagem não parece existir para Denys Arcand, que, por meio do exagero nas representações, acena na mesma direção de Jean-Michel frente ao novo.
Aliado ao tom escrachado para a sátira, que abarca feminismo, militância branca – mesmo quando a preocupação é válida -, mídia e política, o diretor de “O Reino da Beleza” (2014) ainda tenta articular o drama e o romance. Por meio de dollys e zooms, a câmera, nos momentos dramáticos, aproxima-se dos personagens para acessar suas emoções, seja no desabafo introspectivo da narração ou em uma confissão na sessão de terapia. Denys Arcand, neste sentido, até consegue envolver o público com as preocupações e questões dramáticas que permeiam a narrativa. O cineasta, no entanto, jamais consegue encontrar o equilíbrio entre esse tom e a comédia. Quando um personagem morre, ele mistura uma decupagem puramente dramática, o plano zenital – a câmera totalmente acima do personagem, apontando para o solo -, com o texto que recorre ao humor com a recém viúva falando mais do que devia, mas acaba a cena com um corte na careta do morto. É um exemplo simples que demonstra o mau gosto e a incapacidade de propor efetivamente passagens tragicômicas.
Portanto, “Testamento” é uma obra calcada em um pessimismo autocondescendente das antigas gerações diante das mudanças contemporâneas. Em uma sátira que procura atirar para todo lado, Denys Arcand esvazia a problemática real de muitas questões. A militância branca ridicularizada aqui porque só quer “causar”, apesar de não possuir o lugar de fala, como o próprio filme evidencia, ainda tem seu valor. “Cidadãos preocupados”, diz a mulher indígena que visita a casa de repouso para ver a pintura. A temática da tecnologia integrada aos idosos tem uma cena com uma mulher “atendendo” um mouse. Enfim, o uso do exagero e da caricatura para crítica é, e sempre foi, um recurso muito eficaz para satirizar. O diretor, porém, muitas vezes perde a mão e usa disso para dar voz a um discurso conservador e por vezes retrógrado. Até tenta uma espécie de morde-e-assopra com a inserção dos nacionalistas caquéticos ou da própria personagem indígena para evidenciar o problema do mural. Mas, no fim, a tentativa de se contrapor ao que o protagonista considera ser “a estupidez do mundo” faz do filme um arremedo irregular, reacionário, que não consegue transitar bem entre humor e drama.