Suporting Role
Ego fracassado
Por Vitor Velloso
Assistido online no Festival de Roterdã 2026
Com uma estrutura que transita entre a melancolia e uma comédia desajeitada e imediatista, “Supporting Role” é uma grata surpresa na seleção do Festival Internacional de Cinema de Roterdã. O projeto, dirigido por Ana Urushadze, carrega fortemente uma tendência particularmente visível em produções do Leste Europeu: uma certa decadência que culmina na necessidade de redescoberta, repleta de melancolia, arrependimentos e um último suspiro redefinidor. Esse movimento conduz a narrativa de forma quase errante por um drama que parece minar a esperança de seus personagens com uma crueldade particular.
Remetendo ao projeto de Ulrich Seidl, “Rimini” (2022), o filme se estrutura a partir dessa desesperança intrínseca para debater temas centrais à narrativa e ao protagonista. Há uma reflexão sobre o envelhecimento, a morte iminente e uma interessante metalinguagem entre a produção artística e a necessidade de reencontro consigo mesmo enquanto artista e ser humano, além de toda a carga social imposta aos personagens. Se, no filme de Seidl, há uma aproximação familiar carregada de ecos históricos, decadência física, moral e perda de dignidade, em “Supporting Role” o foco recai sobre uma busca interior marcada pelo orgulho inerente ao ator, por um certo egocentrismo que precisa ser alimentado, mas que encontra no tempo seu maior inimigo.
A retomada de relações explicita o quanto esse universo já se apresenta desgastado ao espectador. São personagens quase moribundos, que procuram em hobbies e outras atividades uma forma de suportar a vida, o peso do tempo e as relações que se desfizeram ao longo dos anos. Seja por meio de um jogo de memórias que associa sobremesas a pessoas, representadas por sabores e apresentações, seja pela evocação de sonhos, pela recusa em aceitar a própria aparência ou por diálogos que expõem o “como você mudou”, o filme parece retirar de seus personagens qualquer esperança de uma retomada saudável ao topo ou mesmo de uma manutenção minimamente estável da própria vida.
Aqui, há uma exposição de conflito geracional, que categoriza se alguém está pronto ou não para um papel, como a projeção de uma determinada imagem deve ser refletida em um determinado projeto e como o destino artístico dos personagens parece ser ridicularizado a cada nova cena. Em determinado momento, o protagonista vê seu “futuro”, em clara analogia com o projeto que procura participar, servir de papel para embrulhar pão. Nessa perspectiva, deve ser destacado o trabalho de Dato Bakhtadze, interpretando Niaz Ninua, ator que já viveu seu auge e que apesar de ser reconhecido por uma parcela da população, surge como uma figura pesada, que se arrastada pelos cenários, com respiração de chumbo e um cansaço que parece irremediável. Apesar de tudo isso, ele se sente acima de suas ofertas, ridiculariza determinadas questões, se sente protagonista de um mundo que parece ter deixado ele para trás. A atuação de Dato consegue transmitir esse pesado fardo, que nunca vemos, apenas temos breves pistas, mas que parece envergonhado de admitir a passagem do tempo, procurando culpa nas demais pessoas para sua própria derrocada.
Desta forma, “Supporting Role” é um filme cansativo, que se arrasta propositalmente para que toda essa carga possa ser compreendida pelo público, sentida até a exaustão. Há respiros maiores dentro da narrativa, pois existe algo de surrealista que vai flertando com o drama carregado do protagonista, que se vê dentro de uma trama confusa, de seu papel ambicionado e de convites estranhos. A fotografia, assinada por Rein Kotov, é eficaz ao retirar dos planos qualquer possibilidade de vida, com imagens (des)saturadas e enquadramentos que deslocam os personagens, reforçando a sensação de inadequação constante. Os ambientes parecem sempre amplos demais ou estreitos em excesso, como se o mundo não estivesse mais calibrado para acolher aquele corpo e aquela presença. A câmera observa Niaz com uma distância quase clínica, evitando sentimentalismos fáceis e apostando em silêncios prolongados que ampliam o desconforto. A montagem acompanha esse ritmo rarefeito, permitindo que as pausas falem tanto quanto os diálogos.
“Supporting Role” é sobre fracassos, decepções, tempo e o peso de nossas escolhas. Uma bela surpresa da curadoria de Roterdã, que não teve uma fraca seleção, mas carregou fortes características específicas em seus projetos, com uma certa repetição formal.


