Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Entre comportamentos humanos insuportáveis

Por Fabricio Duque

Festival de Berlim 2025

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria

Sim, há filmes insuportáveis de assistir. Não por imprimirem temas difíceis, mas por conta da construção de suas narrativas pela forma vazia como traduzem seus propósitos e questões existencialmente sociais. Há assim uma potencialização bem mais de ideia ensaiada que propriamente a naturalidade de uma comoção coloquial da realidade, tornando então tudo excessivamente enfadonho, numa experiência entediante, como é o caso do filme “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, dirigido e roteirizado pela norteamericana Mary Bronstein (que realizou “Yeast” em 2008 com Greta Gerwig, junto dos Irmãos Safdie – que por sinal nesta obra em questão um deles, John, também age como produtor). Exibido na competição oficial ao Urso de Ouro do Festival de Berlim 2025, este longa-metragem (que venceu Melhor Atriz para Rose Byrne) preocupa-se tanto em expor ao extremo o drama de uma mulher sob influência dos outros, em uma sociedade contemporânea totalmente egoísta e sem um mínimo de empatia, em que todos que a compõem são igualmente insuportáveis, existindo como robôs IA em interação humana.

“Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” busca ser uma experiência crítica ao novo comportamento humano enquanto indivíduo social não “preparado” para se viver no coletivo (entre pessoas chatas, julgadoras e crianças também insuportáveis, em total instabilidade emocional), tudo direto, dilacerante e visceral à percepção da realidade intimista da personagem. Mas tudo aqui pede o excesso e ao mesmo a cumplicidade do espectador em aceitar (e relevar) todas as obviedades, clichês, definições filosóficas-existencialistas de efeito e gatilhos comuns de um roteiro mais perdido “que cego em tiroteiro” (parecendo mais uma sucessão de arquétipos, num que de fenótipo metafórico – até mesmo com o vazamento da casa e a sonda), como super close no rosto da protagonista e as constantes incursões ao universo mais cósmico, sensorial, etéreo, para talvez buscar os porquês em fragmentos de memórias, que funcionam como cordões umbilicais aprisionados entre o sobrenatural e a aparição de uma loucura congênita.

Este longa-metragem é acima de tudo um filme feminista. E todo construído pela interpretação. É um filme-ator, de alerta-manifesto, por um estudo de caso, de mulheres que precisam ser perfeitas em tempo total e atender todas as “demandas” de como é ser uma mulher, mãe, esposa e trabalhadora. Sim, o filme quer trazer a ideia do sofrimento da mulher-mártir, que está no limite e sobrecarregada, a ponto de começar a  explodir resignação em catarse e em colapso total. E que até para se embebedar encontra “adversários” papeando sobre “cérebros mortos” (melhor analogia até agora a este filme). Como disse, toda essa atmosfera vazia soa como se tudo fosse um sonho e/ou uma extensão invadida da loucura contra todos os outros que se comportam intolerantes e sem paciência alguma. A sensação que nos passa é que a personagem principal não pertence ao mundo que habita, ainda que trabalhe como terapeuta.

Como também disse, talvez o principal problema de “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” é de se levar à sério demais e elevar muito o tom do sofrimento do drama muito mais gritado e histérico, que sempre complica mais e mais com mil reviravoltas aleatórias, entre a toxicidade da culpa e vergonha que envolvem o ser mulher. Sim, a impressão que temos é que tudo no roteiro aconteceu no meio da filmagem, visto que todo o filme foi feito em 27 dias. Pois é, isso pode sim explicar muita coisa. Mas sim. Felizmente, o filme tem uma cena em particular que poderia ser usada como modelo a todos os pais da geração Z: que é a do terapeuta que levanta a voz e confronta o paciente mimado. Confesso que essa passagem lavou a minha alma. Pois é, mas só isso salva este filme insuportável? Não.

E sim, outra coisa que incomoda muito em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria” é a pretensão em afirmar sua veia independente, em especial por ser o novo produto da A24, mas que na verdade só quer replicar todas as formas e estruturas do cinemão mais hollywoodiano, ainda que sugira, por lacunas abertas de percepção subjetiva (ou não), que talvez tudo ali aconteça mesmo pelos efeitos psicodélicos de uma mãe, uma esposa e uma trabalhadora em colapso mental total. Quem está doente? Será delírio? Substituição do sofrimento como forma de cura? Contudo, até para provocar essa confusão proposital, o filme precisa de direcionamento e direção. Não apenas “jogar” pontas soltas. Isso não é nem um pouco respeitoso com os espectadores, que recebem uma das obras mais insuportáveis, com a criança mais chata da história do cinema e com coadjuvantes que parecem ter saído de uma novela mexicana. Sim, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Chutaria Esse Filme.

1 Nota do Crítico 5 1

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