Rompendo Rochas
Necessidades contextuais
Por Vitor Velloso
Festival do Rio 2025
Diante do cenário internacional atual, a presença de uma produção iraniana em um evento tão midiático quanto o Oscar revela uma dualidade curiosa. Por um lado, pode ser interpretada como um gesto simbólico da Academia diante das políticas externas dos Estados Unidos; por outro, mantém a lógica já conhecida de abrir espaços pontuais para obras do Oriente Médio e do Sul Global, o que dialoga com a circulação desigual de narrativas no contexto global. É verdade que a indicação de “Cutting Through Rocks” antecede a intensificação dos conflitos que hoje dominam o noticiário, mas, no cenário geopolítico recente, sua presença no circuito de premiações ganha uma dimensão política ampliada.
Dirigido por Sara Khaki e Mohammadreza Eyni, “Cutting Through Rocks” acompanha de perto sua protagonista, Sarah Shahverdi, e constrói um retrato forte e íntimo de sua trajetória pessoal, política e social. Ao partir da experiência individual para alcançar um quadro mais amplo, o filme costura relações e cotidianos a partir de situações concretas, como o casamento precoce, a dificuldade de acesso ao divórcio e a fragilidade da proteção legal para mulheres casadas. O desenvolvimento aposta nas contradições internas e nos conflitos familiares, revelando um ambiente em que tradição e mudança coexistem de forma instável, sobretudo quando a presença feminina na política ainda é encarada como uma ruptura.
Essa tensão surge de forma simbólica já na abertura de “Cutting Through Rocks”, quando Shahverdi tenta recolocar uma porta pesada em seu lugar, sem sucesso. A necessidade de intervir na estrutura ao redor para fazê-la caber novamente funciona como uma metáfora potente. Aquilo que antes parecia possível para as mulheres, como acesso à educação, maior autonomia e participação pública, passa a exigir esforço e enfrentamento diante de uma base social rigidamente patriarcal. O gesto, aparentemente banal, sintetiza o tipo de conflito que atravessa toda a narrativa.
Nesse sentido, “Cutting Through Rocks” se firma como um retrato relevante das condições enfrentadas pelas mulheres no Irã, atravessando questões políticas, religiosas e as brechas possíveis de transformação dentro de estruturas tradicionais. A trajetória de Shahverdi reforça esse embate. Criada pelo pai com acesso a espaços e práticas tradicionalmente masculinas, ela carrega uma formação que tensiona normas desde a origem. Adulta, divorciada e vivendo sozinha, sua própria existência já se configura como um desvio dentro daquele contexto, o que se intensifica com sua atuação política.
Sua eleição, longe de representar um ponto de chegada, inaugura novos conflitos. Ao tentar implementar melhorias concretas na comunidade, como a instalação de gás nas residências, Shahverdi condiciona essas ações à inclusão das mulheres como coproprietárias das casas, tensionando diretamente estruturas de poder doméstico. A reação é imediata, com resistência institucional, boicotes e conflitos que atravessam inclusive o âmbito familiar, como na relação com o próprio irmão. Em paralelo, sua atuação como referência para meninas da comunidade, ao incentivar educação, autonomia e adiamento do casamento, evidencia tanto o alcance de sua influência quanto os limites impostos por um sistema que frequentemente nega às jovens qualquer possibilidade real de escolha.
Há momentos em que o filme explicita essas engrenagens com mais força, como nas cenas em que adolescentes tentam negociar o direito ao divórcio em um sistema judicial atravessado por valores misóginos. Em outros, a própria protagonista se torna alvo direto desse controle, chegando a ter sua identidade questionada por não se adequar aos padrões esperados de feminilidade. Esse movimento evidencia o quanto sua presença desestabiliza normas profundamente enraizadas.
Ainda assim, do ponto de vista formal, o documentário opta por caminhos mais convencionais, sem grandes rupturas estéticas, o que por vezes o aproxima de uma abordagem previsível, apesar da potência temática. Há também certa dispersão narrativa na parte final, quando o filme parece oscilar entre diferentes focos sem aprofundá-los plenamente, o que acaba diluindo parte de sua força.
Por outro lado, permanece um eixo simbólico e narrativo bastante potente na figura de Shahverdi. O fato de ser a filha mais nova entre irmãos homens e, após a morte do pai, assumir o papel de provedora da família, desloca expectativas profundamente enraizadas e ilumina sua trajetória posterior. Sua atuação política surge, assim, como extensão de uma busca contínua por autonomia, algo que se manifesta tanto em decisões estruturais quanto em gestos cotidianos. Entre eles, talvez o mais emblemático seja ensinar meninas a pilotar motocicletas, um ato simples, mas carregado de sentidos ligados à liberdade e ao movimento. É nesse tipo de imagem que “Cutting Through Rocks” encontra sua dimensão mais potente, projetando, ainda que de forma contida, possibilidades de transformação.




