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Pluribus

Ser ou não ser um humano, eis a questão!

Por Fabricio Duque

Pluribus

O que tem de tão maravilhoso assim em existir como ser humano? Somos vulneráveis, contraditórios, paradoxais, instáveis emocionalmente, intransigentes, entre humores bipolares, irracionalmente sentimentais e sádicos solitários (que encontra no “barulho do trem o mais solitário do mundo”),  sempre “vomitando” “teorias infundadas, palavras vazias, ideais usurpados e sistemas inflexíveis” (trecho definidor do livro “Kafka à Beira Mar”, de Haruki Murakami). Nossas ações afetam tanto os outros próximos quanto o próprio planeta em que estamos. Escolhemos comida de “plástico” por prazer do gosto, vivemos estressados por ter que cumprir metas impossíveis, lidamos com os problemas da forma mais impulsiva possível. Somos extremamente egoístas, somente empáticos por cordialidade social. Queremos tudo na hora, como crianças mimadas e ricas que mandam e o universo precisa obedecer. Sim. E se pudéssemos melhorar? Evoluir finalmente, ganhando a verdade absoluta de não mais poder mentir e ser o mais patologicamente prestativo, não como sacrifício, mas por um querer incondicional de ajudar?

É por esse plot derivativo que a nova série “Pluribus”, da Apple Tv, acontece e já se tornou um fenômeno por evocar um preciso estudo de caso micro de nós terráqueos macros. Sua narrativa nos conduz por uma distopia, mas ao mesmo tempo também utópica, porque esses novos seres, perfeitos em virtudes comportamentais, representam todos os princípios e projeções que os humanos buscam construir em toda uma vida. Nos é ofertado uma opção radical de colocar em prática todas as regras coletivas, tópicos coach autoajuda e mandamentos religiosos em vivência plena das liberdades existenciais, sem julgamentos, críticas, sarcasmos e jogos. Ah, e não só isso: a transformação nos faria mais inteligentes, mais conscientes e com todo o conhecimento disponível no mundo, como Neo em “Matrix”. E também nós não mais sentiríamos o individual solitário, mas quase tudo do todo, o coletivo (“quase, senão seria insuportável”, num que de “Superman” e/ou dos seres de “Sense8”, que estão mental e fisicamente conectados, permitindo-lhes partilhar sensações, habilidades e até mesmo a dor uns dos outros).

Mas se é assim tão maravilhoso, porque ainda há resistência de pessoas que querem conservar a vida antiga, limitada, mais conservadora, que causa o medo da violência interpessoal, que tem vinganças e competições para que o ser sempre seja o melhor? Pois é. “Pluribus”, uma ficção científica pós-apocalíptica, criada por Vince Gilligan (de “Better Call Saul”, “Breaking Bad”, “Arquivo X”), é a melhor serie do momento por bugar literalmente nossa cabeça. Quem nunca pensou em virar um novo eu “nós” que atire a primeira pedra? O último episódio da primeira temporada, dividida em nove de uma hora de duração, busca nos imergir sensorialmente de forma naturalista e existencialista, nos detalhes mais cotidianos, coloquiais e idiossincráticos de como é ser um humano, cujas vontades, a maioria delas, são estimuladas por desejos imediatistas, instantâneos e que têm resultados com data de validade ultra curta.

Assim, “Pluribus” é uma análise-reflexo lente de aumento cognitiva, psicológica, psicanalítica, filosófica, neurocientista, política (especialmente por confrontar imigrantes tendo ideias contra eles mesmos) e popularmente verossímil com a realidade nossa de cada dia, entre acasos e consequências, que mais parece uma experiência cênica-onírica de “mau gosto” de um grande BBB de algum outro planeta que nos tem como cobaias para entretenimento. Quando esses novos seres “dominam” a Terra e os “corpos” dos “integrantes locais”, tudo então vira uma submissa razão questionada ao antes que era um caos automatizado e programado de movimentos e missões diárias. Será mesmo então que nós os “velhos” seres temos mesmo livre arbítrio sobre nós mesmos? Ou vivemos sobre uma liberdade imposta por uma sociedade padronizada? Bug, bug, bug. Toda moralidade, ética, conceito já pré-definido, tudo “cai por terra” e nos faz pensar. Logicamente, com toda a estrutura narrativa mais hollywoodiana, ainda que o ritmo seja quase perfeito ao conjugar iminência de perigo, silêncio de entendimento, ação de movimento, num que ainda mais equilibrado de “Breaking Bad” e/ou mais fluido de “Mad Men”.

Outra questão que “Pluribus” traz é sobre essa nossa liberdade. Se nós somos dependentes do outro para comer e viver, então realmente não temos mesmo nenhum domínio sobre nós mesmos. Alguns optam ir muito além e tentar a vida de “caubói solitário”, mas “cansa” estar sempre em alerta como se tivesse em constante estágio de sobrevivência da auto-suficiência. Aqui, os “salvadores” para conservar o mundo antigo são seres humanos insuportáveis, rabugentos, chatos e arrogantes, quase “Karens”, que gritam ao invés de dialogar. Por que então ainda torcemos por eles? O que nos faz escolher os “imperfeitos” que buscam conflitos o tempo inteiro para se manterem vivos, em um mundo tóxico, cheio de desigualdades e guerras (preferem criar uma aventura na própria vida e morte até o limite por orgulho para provar que podem)? Por que não torcer pelo outro time que está a construir um mundo mais pacífico? Essa “Karen”, a personagem principal Carol Sturka, encarnada pela atriz Rhea Seehorn (de “Better Call Saul”), se retroalimenta da própria destruição, reverberando seu circo a todos os outros.

Em “Pluribus”, o espectador é convidado a descobrir junto e a tirar suas próprias opiniões, lados e conclusões. Uma série que fica na cabeça e demora muito a sair. Na verdade, nunca nos deixa, porque o bichinho semente da dúvida já foi implantado no nosso cérebro. E você, aceitaria “trocar” de vida e ser eternamente “perfeito”, que aos olhos dos outros são vistos como “lobotomizados”? Então, como Tostoi escreveu “a felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história”, quem então está realmente satisfeito com o agora em que vive? Quem quer mudar? O título da série faz referência a e pluribus unum, uma frase que significa “de muitos, um”.

5 Nota do Crítico 5 1

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