Palco Cama
Homem-Teatro
Por Francisco Carbone
Festival de Brasília 2025; Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Uma trajetória como a de José Celso Martinez Corrêa não pode ser definida em poucas palavras ou ações; talvez nenhum longa metragem pudesse encapsular tamanha pulsão de vida e paixão pela arte. O que o cineasta Jura Capela faz, então, é a anti-biografia; um filme definido por Zé Celso, por suas vontades, por suas palavras e suas ideias. Tudo o que “Palco Cama” é, conta com a organização de Capela, mas com os desígnios e olhares do próprio dramaturgo e diretor; parte dele inclusive as decisões que concernem o contorno da obra, mostrando sua predileção pelo controle, ainda que de maneira sutil. Na tela, doçura e tesão dividem espaço com o homem por trás do mito, desconstruindo ambos; saem modificadas nossas dimensões para os dois personagens.
Este é um documento feito em 2007, quando Zé Celso preparava a montagem de “Os Sertões”, e concedeu essa entrevista para Capela. Não é um diálogo habitual entre entrevistador e entrevistado; Capela simplesmente filma as divagações sobre arte que Zé Celso empreende em sua cama, e que na visão dele, não passa de um palco para diferentes performances, como a que ele realiza na frente das câmeras. Existe essa liberdade para o improviso que o acomete no verbo, mas entre as ideias da direção, não se encontram muitas diferenciações. O que temos é essa sequência de planos que se sucedem, com o protagonista nos fornecendo as reflexões completas, sem relação com a obra filmada.
Se a cama pode ser transformada em palco, tanto para apresentações pessoais, como para metaforizar o ato sexual em processo celebratório, porque o Homem não pode ser o Teatro? O que vemos, por assim dizer, é uma performance, até com pouca elaboração. Porque um texto prévio não é declamado ali, e sim vemos o ser transmutado em personagem e vice-versa. A partir do que é dito, e isso quase duas décadas antes de seu falecimento, Zé Celso exibia muito do que se convencionou acusá-lo: extravagante, exagerado, em extremo overacting na vida. Ainda assim, sua porção em “Palco Cama” é mais ponderada, onde suas posições criam uma defesa sutil de sua persona.
Com as limitações óbvias, o filme se concentra no discurso do Homem, e esse homem em especial é uma máquina de pensamento, restringindo o olhar da realização. Existe uma restrição do material imagético: cama, quarto, janela, rosto. Dessa forma, “Palco Cama” transforma-se em exercício da palavra e da reflexão, sempre propondo que o espectador se envolva com Zé Celso, que capture as sutilezas do que ele comunica, e não solte sua mão. É um jogo de complexidade evidente, aquele que propõe ir além da construção do plano para fixar nosso olhar para além do espaço cênico. Imaginar o que está por trás de cada gesto e de cada palavra, é doar a tal da soberania imaginativa não ao diretor da obra, mas a direção da cena.
Diante da potência da voz, como elaborar esteticamente o resultado do que foi planejado? “Palco Cama”, de todas as formas, é o resultado possível entre o cinema e a palavra: provavelmente ele consegue ser o máximo possível dentro de um registro possível. Não importa muito nota, não importa muito o pensamento elaborado para essa realização, mas ela precisa ser resgatada em algum lugar. Ficamos com Zé Celso e sua voz, que por si só já significa todas as coisas além de um texto como esse. Não cabe prisão ao que é livre, e um texto que tenta aprisionar o espírito do tempo – e sim, José Celso Martinez Correia É O Espírito do Tempo – já começa o jogo perdendo. Sejamos súditos então.


