Pai Mãe Irmã Irmão

"Se muita gente gostar de um filme que eu faço, sinto que fiz algo errado"

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

Pai Mãe Irmã Irmão

Com essa afirmação, que pode soar a um só tempo humilde e arrogante, Jim Jarmusch abriu entrevista na Indiewire, por ocasião do lançamento do seu último longa, “Pai Mãe Irmã Irmão”, de 2025. Sua última produção foi em 2019, “Mortos não morrem”: no filme em tela, que escreveu e dirigiu, o cineasta mais uma vez mostra sua coerência estilística, coisa rara no cinema global, um minimalismo dramático onde “nada acontece, mas tudo acontece”. Não é à toa que muita gente pode simplesmente sair da sala com meia hora de exibição – mas também que outro tanto de gente fique saboreando até o minuto final do filme.

Jarmusch não aparenta ser nem humilde, nem arrogante. É muito mais alguém que caberia naquela máxima de Béla Tarr – Você precisa ter sua própria linguagem; e se você tem sua própria linguagem, você não se importa com o mundo nem com nada mais. Seu nome é referência incontornável no chamado cinema independente, que consegue distribuição global em salas menores com público fiel, um resquício do que era o cinema de autor nos anos de 1950, 60 e 70. Versátil, trafegando entre gêneros – o último filme é uma “fábula metafórica de gênero de terror comédia”, como definiu o crítico desta Vertentes – Jarmusch experimentou vampiros (“Amantes Eternos”, de 2014), vinhetas que têm em comum café e cigarros (“Sobre café e cigarros”, 2003), faoeste (“Homem Morto”, 1995) e simplesmente tédio (“Estranhos no Paraíso”, 1994) – entre outros.

Em Paris, cidade que é um museu permanente de ver cinema, segundo Consuelo Lins, Jarmusch é objeto de retrospectivas frequentes. “Pai Mãe Irmã Irmão” é uma colagem de três curtas sem ligação direta entre si, mas com camadas de relações indiretas que se articulam. Pessoas discutem o passado de suas famílias, mas em nenhum momento testemunhamos reconstruções dramáticas desses eventos, somos obrigados a imaginar ou intuir situações pregressas. Por meio das palavras, dos gestos, das mínimas alterações faciais conhecemos algo desses personagens, suas complexidades, suas carências. Mas são sempre conhecimentos intuitivos, incompletos, fragmentos de desejo, diria Roland Barthes.

São três locações, três espaço-tempo de narrativas. A primeira se passa no meio rural de New Jersey, perto de Nova York. Os irmãos Jeff e Emily, Adam Driver e Mayim Bialik respectivamente, viajam para visitar o “pai”, na tela representado por um veterano de Jarmusch, o músico e ator Tom Waits. Os filhos, formais e reservados, relutam antes da visita, sobretudo Emily: não sabem o que os espera, dado o comportamento errático do pai (o contato entre eles é mais do que esparso). A casa está desarrumada, o anfitrião usa um moletom com zíper, e parece um pouco atrapalhado. Há um abismo entre eles, poucas conexões, a principal é o socorro financeiro que Jeff eventualmente aporta. O pai exibe meio sem querer um Rolex, que ele alega ser falso, made in China.

Corta e a ação passa para Dublin. Caímos no segmento “mãe”, vivida por Charlotte Rampling. Ela aparece sentada num divã, pernas esticadas, falando no telefone – presumivelmente com a psicanalista. É uma autora celebrada de best-sellers. Mora nos arredores da cidade, assim como as filhas – Timothea, ou Tim (Cate Blanchet) e Lilith, ou Lil (Vicky Krieps), mas raramente se veem. Um chá anual na mansão materna as reúne, mas a conexão é limitada. A mãe é exigente, com jeito de falar suave. Lil se apresenta como influencer na rota do sucesso, cabelo pintado de rosa, mas seu discurso não se sustenta para o espectador. Tim é sisuda e pouco confortável em seu corpo, de óculos e sapatos pesados.

Lil e Tim usam blusas do mesmo tom intenso de vermelho, mas, embora a blusa de Tim seja da mesma cor, ela está parcialmente escondida por uma camisa azul clara desabotoada. A mãe também está de vermelho.

Pai e filhos, mãe e filhas, encontros raros e formais. No terceiro curta, os corpos se tocam. Em Paris, dois irmãos gêmeos e jovens, homem (Billy) e mulher (Skye), interpretados por Luka Sabbat e Indya Moore, fazem uma última visita ao apartamento dos pais, que acabaram de falecer em um acidente aéreo nos Açores. O espaço está vazio, mas as memórias profundas. Tudo o que não foi dito nos segmentos anteriores se faz presente – afetos, lembranças, dor, melancolia, alegrias, saudades. A concierge, desempenhada pela icônica atriz francesa Françoise Lebrun, aparece e lembra que o aluguel estava atrasado há três meses. Billy só teve tempo de levar tudo para um depósito, que eles visitam em seguida.

Do que se trata tudo isso? Qual é a conclusão de “Pai Mãe Irmã Irmão”? O que resta, para quem ficou na sala, é uma experiência de linguagem atenta à narrativa e à construção visual, como poucos fazem, que deixa um vazio a preencher com reflexões e pensamentos, sem maiores dramas. Não é pouca coisa.

5 Nota do Crítico 5 1

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