O Segredo da Chef
Entre narrativas de situações do cotidiano francês
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente durante o Festival de Cannes 2025
Os filmes de abertura do Festival de Cannes têm uma “maldição” de quase nunca serem bons. Mas vamos recapitular alguns exemplos. 1974 foi “Amacord”; 1979 foi “Hair”; 1992 foi “Instinto Selvagem” (que também integrou a competição oficial a Palma de Ouro); 2001 foi “Moulin Rouge). Não preciso dizer que estes são filmes icônicos. Só que em 2006, quem abriu foi “O Código Da Vinci”; em 2013, “O Grande Gatsby”; em 2017, “Os Fantasmas de Ismael”; 2021, “Annette”; 2023, “Jeanne du Barry”. Pois é, o conceito maniqueísta definitivo do bom e ruim é meramente uma questão subjetiva.
E para este ano, o filme escolhido para abrir o Festival de Cannes 2025 foi o francês “O Segredo da Chef”, ou “Partir um dia”, da cineasta francesa Amélie Bonnin. Em um primeiro momento, o longa-metragem nos imerge em uma trama, de cotidiano, que acompanha as personagens, que tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, por uma narrativa de situações, que assumidamente quer a identidade mais popular à massa, mas não deixa de evocar uma Nouvelle Vague mais modernizada (mais contemporânea – que quer convidar o espectador a “viajar junto”), que traz embutido a conservação do cinema direto, de conversas, de vida casual, em realismo ficcional, e de outros elementos, como a câmera na mão quase colada às personagens.
Há quem diga que este filme é o verdadeiro cinema. “O Segredo da Chef” consegue assim traduzir muito o comportamento existencialista e imediatista em suas vontades passionais dos franceses, entre o melodrama e a atitude; entre a esperteza pela ingenuidade e a vulnerabilidade pela verborragia, vivendo entre a fantasia real do querer e a realidade projetada do possível. Este é uma obra de bastidores (de uma rotina de restaurante e sua chef) e de pensamentos personificados no externo. Sim, “Partir un Jour”, além de drama, comédia e romance, encontra o gênero musical, com o objetivo de buscar o amor e a tranquilidade no caos que eles mesmo criam.
É, aqui as cenas musicais projetam os verdadeiros desejos imaginados da personagem principal. Mas ainda que pareça bizarro no início, por seu público ser pego de surpresa, a sensação que temos ao longo do filme é a de uma coloquial fantasia orgânica, que mais lembra “Canções de Amor”, de Christophe Honoré, do que a “forçação de barra” de “Emilia Pérez”; que incorpora mais “La La Land” a “Annette”. É como se ao invés de falar, eles cantam e entram em catarse, no melhor estilo a “Coração Selvagem”, de David Lynch, com Serge Gainsbourg. “O Segredo da Chef” é também um filme on the road da protagonista, que para recomeçar e redescobrir o propósito precisa entrar num espiral de caos familiar, revivendo memórias e (escondidos) comportamentos idiossincráticos (e unicamente excêntricos) de seus pais.
O mais legal de “O Segredo da Chef” é sua despretensão em querer ser alguma coisa que não é, mesmo que insira muito coisa. Há uma ironia entranhada, de excentricidade naturalidade (e incorporada), caraterística intrínseca dos franceses, que se manifesta por uma impaciência cúmplice, por um humor humanizado e em constante necessidade de sobrevivência. É incrível como há tradução verossímil suficiente, ainda que finalizado por uma ficção, talvez pela autoaceitação reconstituída das memórias afetivas e pela não-resistência às consequências diretas de uma ação executada, ainda que de forma passional.
O longa-metragem aqui foi adaptado e estendido do curta-metragem homônimo, que a própria realizadora, Amélie Bonnin, dirigiu em 2021, que neste divide o roteiro com Dimitri Lucas. “O Segredo da Chef” é como já disse um espelho cinematográfico de como os franceses se comportam, com humor ácido e espontâneo, que tentam fazer graça autosacaneável de seus próprios dramas existenciais, alimentados do passado (uma nostalgia da juventude – outra característica) e/ou criados recentemente, como se cada problema fosse questão de vida e morte, de nível “guerra mundial”, numa idealização sonhada que transcende as barreiras da racionalidade, encorporando o acaso e as reviravoltas da vida como condução narrativa, como o retornar (e “andar algumas casas para trás”) para relembrar os porquês do estágio corrido do agora. Há algo de redentor. De “safanão” do Universo, que age para que a personagem duvide de suas certezas já “definitivas” e reconfigure a rota de sua vida. Auto-ajuda? Coach? Pode ser. Mas uma coisa é mais do que certa: os franceses sabem (e dominam) como ninguém a técnica de colocar em tela todas as emoções comportamentais que pululam em todo e qualquer ser humano enquanto indivíduo idiossincrático que povoa suas coletividades particulares.




