O Profeta
Choque de planos
Por Vitor Velloso
Assistido online no Festival de Roterdã 2026
Se, até então, a maior parte dos filmes assistidos no Festival Internacional de Roterdã tinha como característica a diluição das fronteiras entre documentário e ficção, “O Profeta”, dirigido por Ique Langa, não se distancia completamente dessa abordagem curatorial, mas já não inclina sua estrutura nessa direção. Em vez disso, aposta em uma construção mais sociológica, pausada e que respeita o tempo de seus desenvolvimentos, sem a necessidade de oferecer ao espectador respostas simples, muito menos reflexões didáticas — apenas uma experiência que, lentamente, vai revelando as contradições de uma base social, religiosa e, por que não, política.
Funcionando como uma obra que assume o sobrenatural como motor fundamental da narrativa, “O Profeta” transita entre materialidade e espiritualidade de forma tão orgânica que parte da plateia europeia pode estranhar — não por acaso, em alguns textos, há quem se refira ao filme como uma obra de “terror” ou destaque o “exótico” presente no projeto. Nesse caso, é interessante compreender de onde vêm categorias tão… simplistas, pois, à medida que a normatividade cristã se choca com a possibilidade ambígua de um caminho de mão dupla entre os “mundos”, seja qual for o nome que se atribua a eles, o estranhamento é tamanho que os rótulos clássicos de “nós x eles”, típicos de uma identidade centralizada, passam a nortear qualquer referência ao desconhecido.
É essa incompreensão diante de uma gira que permite a circulação entre planos distintos que inquieta o olhar centralizador? Ou trata-se de um medo atravessado por fascínio, capaz de produzir, ao mesmo tempo, afastamento e obsessão? Para evitar rótulos apressados, talvez seja mais produtivo apenas apontar as camadas desse discurso e deixar que cada leitura encontre sua própria medida.
A fé vacilante do Pastor Hélder — que recorre à “bruxaria” para reatar seus laços com o divino — evidencia como a cultura de Manjacaze, no sul de Moçambique, é atravessada por crenças que não se anulam. Como no Brasil, elas coexistem, se contaminam e assumem novas funções simbólicas dentro de um mesmo tecido social. É nesse jogo de ambiguidades que o filme se estrutura, menos como tese e mais como pausa reflexiva sobre a multiplicidade religiosa. Hélder surge nos cantos dos quadros, deslocado de qualquer centralidade, frágil na composição. A imagem aposta em uma paisagem com simetrias e assimetrias conflitantes, explicitando cortejos fúnebres que atravessam o quadro, engolidos por uma necessidade de localizar o espectador desse espaço, dessa paisagem, dessa terra.
A encenação caminha entre detalhes que jogam luz à gestos dramáticos, hesitações e angústias, ao passo que dilata a duração dos planos para que o espectador possa contemplar as composições e sentir o fardo do personagem. O que surge, de início, como a chance de o antigo revitalizar o novo (numa ambiguidade que se mantém por algum tempo) acaba por se transformar. Aos poucos, a tensão inicial se desfaz e se cristaliza numa alegoria mais inflexível, marcada pelo encontro com a feiticeira e pelos símbolos ameaçadores dos espinhos e emaranhados.
No entanto, algo resiste a qualquer conclusão definitiva: o breve triunfo de Hélder coexiste com visões que recusam qualquer forma de controle. Persiste, assim, a questão central que perpassa o filme, o que sucede quando mundos historicamente entrelaçados são empurrados para extremos opostos? E, mais ainda, a quem cabe definir o que é ameaça, desvio ou tradição?
A fotografia, assinada por Denilson Pombo, possui um preto e branco que intensifica esse conflito, aumenta a margem de interpretação para essa dualidade e faz com que as ambiguidades de sensações sejam cada vez mais latentes na imagem do filme. Mas a tensão permanece: planos longos, ângulos incomuns e ritmo meditativo ainda sustentam a reflexão sobre as forças históricas e sociais em questão. Já a recepção externa, ao rotular o filme como “terror” ou “exótico”, diz mais sobre o olhar que classifica do que sobre a obra em si.
“O Profeta” atua, então, em dois níveis: como narrativa da queda de Hélder e como espelho das ansiedades de quem observa. Entre a austeridade visual e a feiura que se infiltra no cotidiano, permanece um campo de tensão aberto, não apenas entre fé e feitiçaria, mas entre diferentes modos de ver, interpretar e nomear o mundo.


